FregaBlog

segunda-feira, agosto 22, 2011

No Lado de Baixo... O Gerente (Cap VII - Epílogo)

Sim, o sucessor foi escolhido nos requisitos institucionais. No panorama das composições. No ambiente de continuidade. Mas, ainda não havia caído a ficha de que existia um plano de longo prazo. Não perceberam o engodo, o ovo da serpente.

Passadas as alegrias, conchavos e bate-palmas nas primeiras horas, o gerente começou a manifestar-se. Determinou um profundo corte orçamentário, que afetou diretamente a execução das emendas aprovadas. Primeiro choque. A reação não demorou. Defenestraram-lhe auxiliar próximo, um dos articuladores mais hábeis e participante da formulação do plano central. Mostraram-lhe sua força, seu poder. O gerente assimilou o golpe, mas, no tabuleiro desse xadrez, preparou o cheque.

E o cheque não era o costumeiro. Lembram dos levantamentos dos mal-feitos? Bem, limitadamente, nos limites de danos suportáveis sem rupturas, começaram a surgir, como demonstração de força. Baixas ocorreram nas hostes dos cooptados. O gerente demonstrou que tem suas armas, suas unhas pintadas e afiadas, que não foge ao combate. Recuo dos adversários, pelo menos até entenderem o novo cenário e, se possível, saberem se o arsenal do gerente é grande o suficiente. Jogo de blefes.

Blefes que não se limitam à tradicional polarização partidária de situação e oposição. Por ter gerado novo ambiente, inédito, há uma confusão no ar. Caciques partidários perdem ascendência sobre congressistas. Deixa de haver um governo sustentado por um partido ou uma coligação partidária e a polarização se forma agora entre os que apóiam esse novo estilo de gestão e os que o repudiam. Em verdade, sobre a maioria que o repudiar, cairá a pecha de que o fazem porque se beneficiavam pessoalmente do velho estilo de política. Estarão politicamente comprometidos em sua imagem, porque alinhados com o politicamente incorreto, convivendo em bloco com congressistas de imagem manchada por escândalos.

Nesse cenário, não é desprezível o fogo partidário, teoricamente amigo, assim como não é impossível a defesa do modelo, originada dentro das fileiras inimigas. É o festival implantado dos quintas-colunas. De lado a lado. De um lado quem não tem a temer, ou acha que não tem. Do outro, os que têm e os que ideologicamente farão oposição, mesmo que nada temam. Independentemente de partidos e lideranças de bancadas. Não é improvável uma reacomodação partidária, embrião de futura reforma política.

Fará isso também parte do plano? É possível, faz sentido. E este é o momento rico que o país, aquele surrealista, vive. Teria caído na real?

O fato é que os tradicionais atores estão aturdidos, Eles nunca acreditaram em um plano de prazo longo, seus horizontes sempre foram curtos, ao alcance de sua visão míope de que sempre poderiam confundir seus interesses com os nacionais, sem ônus. Agora por medo, terão que se contentar com os pagamentos já recebidos, e quitá-los com atos, ou votos. Única forma de serem preservados da vala-comum. Chantagem? Sim, mas por que não fazer o chantagista provar de seu próprio veneno? Ditadura? Sim, métodos ditatoriais por usar meios públicos para constranger. Mas, constranger ladrão é crime? São muitos “mas” pra uma cabeça tão limitada quanto a minha.

E os próximos passos do plano, onde querem chegar? Sei lá, também ultrapassa meu QI. Mas tomara que resultem em um novo país, mais responsável, mais solidário, mais consciente de si mesmo e do papel do poder público a serviço do público, não servindo-se dele. Quem viver, verá.

Bem, isso tudo é ilação, uma criação mental. Mas bem que poderia ser verdade.

Do Lado de Baixo... O Conciliador -parte 2 (Cap VI)

No segundo mandato, já com condições políticas mais favoráveis, e contas públicas em ordem, foram lançadas ações desenvolvimentistas. Uma forte crise econômica externa foi administrada internamente com danos poucos. Cresceram o nível de emprego e a inclusão social. No plano político, como de hábito, ânimos eram acalmados com o manejo de emendas e loteamento da máquina, deixando os canais abertos para que fluíssem os pagamentos necessários. Apesar disso, foi buscado o aparelhamento técnico da máquina governamental mediante a captação no mercado de profissionais habilitados, que fossem bem pagos a ponto de não se curvarem aos papéis anteriormente praticados pelos operadores de maracutaias, para garantir seus empregos. Foi a fase dos concursos públicos, cujos resultados somente poderão ser percebidos, se o forem, na próxima década.

No campo da projeção internacional do poder nacional, reconhecida nossa fragilidade de garantir a última área habitável não ocupada no planeta, assim como o viés de ascensão de novos eixos de poder em substituição aos existentes, foi desenhada a nova estratégia de defesa. Fortalecimento das relações e parcerias regionais, como redução de ameaças por países limítrofes, permitindo o aumento da presença na amazônia, pela transferência de efetivos da fronteira sul para a norte.. Desenvolvimento local de dispositivos e, quando inviável pelo tempo, ter acesso a tecnologias mediante parcerias comerciais. Vigilância eletrônica de fronteiras. E tudo de forma que todos esses movimentos não despertassem maior desconfiança. A consciência de que riqueza do pré-sal não será nossa se não for barganhada ao nível de que não compense alguém tomá-la pela força, na marra. Pois abdicamos do poder nuclear por dispositivo constitucional, este o único argumento capaz de dissuadir aventureiros e forçá-los a pensar duas vezes antes de mostrarem seus dentes para nós. Algumas manobras nesse sentido podem ter desviado o foco, como o episódio da Raposa, por exemplo.

Mas, estava na hora de preparar o segundo estágio do plano. Escolher o indicado para comandar a próxima fase e preparar as condições de que isso pudesse ser realizado. Não mais seria necessária a indicação de um articulador, porém de um grande gerenciador.

Sim, estava ali, ao lado. Destacava-se. Por que não?

A grandiosa popularidade poderia suprir o virtual desconhecimento do substituto. Amansada a mídia, aplacadas as vaidades congressuais, bastava-lhes convencer da continuidade, poderiam ficar tranqüilos.

De fato, as articulações prosseguiram nessa linha. Loteamentos futuros prometidos, mesmas práticas, mesmas rotinas, mesmos negócios. Mas nos bastidores, sempre os bastidores, já se executava as ações de inviabilização dos acordos. O levantamento das informações sobre as práticas passadas, os procedimentos dos mal-feitos, a fotografia do rabo-preso. Dossiês a serem usados como elemento de barganha, retirando a vinculação de compromissos dos canais até então utilizados.

Assim, o último ato antes da passagem do bastão foi municiar o sucessor com elementos tais que condenassem à morte, ainda que lenta, os mensalões futuros.

No Lado de Baixo... - O Mensalão (Cap V)

A instabilidade política, derivada do golpe militar que instituiu a república, perdurou por décadas. Pode-se dizer que ao completar seu primeiro centenário, registram-se 6 constituições diferentes, diversas revoluções e mais da metade do tempo transcorrido em regimes ou períodos de exceção.

Ao final do último período não democrático, foi promulgada nova constituição, essa sim petrificando excessos. Na tentativa de evitar novas aventuras cívico-militares, tornou-se o poder executivo refém do legislativo. Tudo pode, porém, muito pouco pode sem anuência congressual. Há princípios parlamentaristas, mas vestidos de presidencialismo, e isso é fonte de conflitos. Em especial pela razão de que os representantes, em sua maioria histórica, provêm dos ditos mandatários das capitanias políticas hereditárias. O que já havia levado a Ruy Barbosa, muito tempo atrás, numa autocrítica por sua participação republicana, a classificar o congresso como um grande balcão de negócios. Literalmente, palavras de Ruy como congressista. Sabia das coisas.

Os governantes, reféns de maioria parlamentar, manejavam o orçamento público, em especial as emendas, como elemento de barganha e troca do apoio à votação de medidas de seu programa de governo. Como aval, as funções públicas de primeiro, segundo e até terceiro escalões eram subordinadas a esse procedimento. E, nas emendas, os recursos fluíam e a corrupção tomou fôlego.

Um presidente tentou inovar. Designou um operador para concentrar a arrecadação e distribuição, ao invés da desconcentração até então praticada. Estabeleceu porta única. Esse presidente não concluiu seu mandato, pela revolta institucional dos representantes que resultou em seu impeachment. O sucessor, de temperamento medíocre, governou sem maiores pressões em seu mandato tampão, como se o país passasse pela ressaca letárgica. Ganhou relativo apoio popular, a ponto de fazer seu sucessor, num acordo político de revezamento que findou por não se cumprir no futuro.

Não se cumpriu porque o real compromisso sucessor eleito era com os interesses internacionais. Dentro dos mais novos conceitos adotados pelos grandes interesses econômicos, já num ambiente hegemônico e não mais bipolar, os grandes atores sentiram-se livres o suficiente para, pelo dinheiro e poder, atropelarem os movimentos sociais que vinham adquirindo dimensão desde a Revolução Francesa de 1789. Na pax americanae, a economia passou a ser um fim em si mesmo, não uma ciência a serviço da humanidade.

Na defesa dessas teses, novos movimentos colonialistas surgiram. Agora não mais pelo princípio do manus militaris, mas pela cooptação de governantes simpáticos a si. Estavam dispostos a pagar os preços necessários para isso. E braços públicos mundiais armaram-se para garantir os interesses particulares nos países não simpáticos, numa fusão nunca vista desde o fim dos absolutismos.

O governante, com aprovação de congressistas bem aquinhoados com emendas e com ação de lobistas, doou muito do patrimônio nacional às grandes corporações dos interesses. Como quatro anos seriam insuficientes para completar a demolição, para dourar todas as pílulas, paga-se uma reforma constitucional permitindo-lhe legitimar um segundo mandato, pois o governante de então mostrou-se mais confiável e dócil às ordens do que seu medíocre antecessor. A ponto de seu chanceler submeter-se a tirar os sapatos para revista pessoal pelos agentes da imigração americana. Em missão oficial. Assim rifa-se o ajustado e até a ordem constituída, tudo em prol da certeza da continuidade das alienações de soberania. Cria-se a releição constitucional.

De fato, por dois mandatos, essa combinação foi cumprida. E os representantes foram efetivamente pagos por seus serviços, pelos votos que homologaram a colonização nacional, pela tese do estado mínimo, fundamento pretextual. O estado mínimo, cujos defensores arrefecem da tese somente quando dele necessitam para a manutenção de seus interesses. O estado que privatiza lucros e socializa prejuízos.

Como evidente, o clima social degradou-se pelo empobrecimento relativo do país.

Era a hora de começar a realizar o plano principal. E aí, aquela meninada de então, agora já velha, percebeu que as condições essenciais estavam postas. E vence a eleição.

E chega-se, então, ao exercício de sua primeira fase. Impossível alterar a prática política de cooptação. Vão-se os anéis, paciência, fazia parte do planejamento para essa fase. Novamente, o loteamento dos diversos escalões da máquina governamental, indicados pelos próprios representantes, como instrumento de desvio de recursos A capacidade de articulação e a continuidade dos mecanismos para cooptação de congressistas criaram condições para aceitação das medidas a serem implementadas.

Na primeira etapa de execução do plano, anos de contenção e pagamento de dívida externa, ainda que parcialmente por sua internalização. As críticas pela mudança do eixo nacional foram tímidas, dado o carisma pessoal e a capacidade de comunicação do escolhido e de estabelecimento de empatia com a população consolidada pelo estabelecimento de ações sociais e de ataque à miséria endêmica nacional. E, nesse ambiente favorável para a situação, aproximava-se a disputa eleitoral para a segunda etapa.

Os opositores, em desespero pela dificuldade de defesa de seus projetos, ganharam repentinamente novo alento. Foi o episódio chamado mensalão.

O chamado mensalão, apelido mercadológico atribuído às práticas habituais de cooptação de congressistas, trouxe à tona os caminhos percorridos pelos recursos desviados para pagamentos espúrios a congressistas. Aproveitando-se algumas das brechas da legislação que davam às agências de publicidade tratamento especial para sua contratação. O mesmo mecanismo anteriormente adotado pelos governos pós-redemocratização. Os meandros foram tornados públicos e os opositores tentaram transformar o episódio num fato inédito, quando, de fato, sabiam da habitualidade da prática e alguns deles até já se haviam beneficiado dela. Mas era um bom momento e um forte fato político, capaz de impedir a reeleição pelo desgaste no imaginário popular, bastava explorá-lo. Momento oportuno para o retorno do processo colonialista. Ouriçaram-se novamente os interesses econômicos especulativos. Quem sabe, conseguiriam dar a volta por cima e doarem mais alguns bens estatais, como a petrolífera, bancos de fomento ou centros de pesquisa, que haviam ficado para trás.

Mas, os estrategistas internacionalizantes não contavam com um fato novo. Não imaginavam o comprometimento pessoal com o plano de longo prazo.

E, por esse plano, estrategistas e operadores, ambos articuladores que asseguravam maioria congressual, assumiram para si as ações, blindaram o governo, imolaram-se politicamente pelo ideal do plano. Isso era inédito em episódios anteriores, pois as lealdades de então eram pessoais, fulanizadas. Agora não. Pela primeira vez havia no panorama político a lealdade a um ideal, a um projeto. Que gente estranha.

Desarticulada e sem entender, a oposição optou por fazer sangrar a ferida até a próxima eleição, atacando a credibilidade do governo. Em verdade, quase o conseguiu, sendo derrotada somente pela imagem carismática que o escolhido consolidou.

Do Lado de Baixo... O Conciliador -parte 1 (Cap IV)


Os estrategistas sabiam as ameaças que causavam, origem das próprias ameaças que sofriam. Em tal amplitude que poderiam inclusive inviabilizar a etapa. Haveria que ser aplacado o pavor dos donatários quanto a seu patrimônio, capaz de comprometer a capacidade econômica do mandato. Haveria que ser administrado o interesse de seus representantes, alimentados para assegurar a cristalização da estrutura de poder e capazes de levar à inviabilização do plano.

Avalizando a integridade dos ganhos e lucros, uma figura confiável, do meio. Alguém que velasse por seus interesses no centro nevrálgico do dinheiro, no banco central. Tranquilizaria raposas, daqui e de lá.

Outras ameaças, externas, precisavam ser administradas. Atingiam diretamente nossa capacidade agrícola, pela ameaça às safras internacionais; a nossa capacidade de exploração de ouro e de metais raros, capaz de subverter o mercado internacional; a ocupação por brasileiros da última área habitável no mundo, a amazônia. Um ministro do meio-ambiente dócil e comprometido com tais teses aplacaria pressões internacionais.

Para acalmar os representantes, firmemente instalados e enraizados no jogo de influências políticas, a linguagem que entendiam, por hábito, e praticavam, por conveniência. Esse instrumento seria utilizado pelos representantes no momento oportuno, como forma de interromper institucionalmente o plano. Chamaram-lhe mensalão, mas merece capítulo à parte.

Neutralizadas as reações mais ameaçadoras ao plano, foram perseguidas algumas linhas de ação.

Campo Assistencial

- aplacar a fome da população em situação de miséria;

- apoiar grupamentos marginalizados, como catadores e moradores de rua;

- apoiar movimentos marginais, como forma de manter a sensação de ameaça, como MST;

Campo Sócio-econômico

- promover o crescimento da classe média pela inclusão de baixo para cima, complementarmente congelando as camadas superiores pré-existentes;

- incrementar o empreendedorismo, com linhas de crédito oficiais.

Campo Macroeconômico

- liquidar dívidas que implicavam na capacidade de geração de crises oportunistas como elemento de interferência política, como FMI;

- promover retomada de atividades econômicas com efeito de capacitação de infraestrutura ou de forte geração de empregos, como a indústria naval e construção civil;

- promover o desenvolvimento agroindustrial.

Campo Psicossocial

- promover resgate de orgulho nacional, configurado por instrumentos como o chavão nunca antes nesse país e eventos como olimpíada e copa do mundo.

- materializar no dia a dia da população a imagem de novos tempos, facilitando-lhe acesso a bens de consumo.

Campo Geopolítico

- reduzir o alinhamento terceiromundista às potências dominantes, redirecionando sua política externa ao mundo dos considerados párias, como a África, e dissidentes, como Irã. Aproximação com a China, no reconhecimento de sua rápida ascensão no conjunto do poder mundial;

- neutralização de ameaça ao isolamento continental pela insulação por países com hostilidade latente;

- forte promoção comercial para ampliação de número de parceiros;

- atuação em forças de paz internacional e pressão para obtenção de vaga permanente no CS da ONU, porém sem real intenção de concretizá-la;

Campo Político Interno

- gerar as condições de entregar o mandato a um sucessor que desse seqüência ao plano.

Esses objetivos foram planejados para serem executados em etapas pelo político conciliador escolhido.

No Lado de Baixo ... A Caminhada (Cap III)


O escolhido haveria de ser submetido à exposição. Não seria um processo rápido, a estratégia estava escolhida. A do bode na sala.

Primeiro, uma exposição agressiva, radical, que amedrontasse os temerosos por sua própria natureza. E que esse medo começasse a quebrar os medos dos que medrosos eram, não por conservadorismo, mas por sua própria condição sócio-cultural subalterna. Aos donatários das capitanias, esses têm faro apurado para ameaças. A esses, a única mensagem que poderia fazer sentido seria a da cooptação, da vantagem mesmo. E as duas posturas eram inconciliáveis naquele momento.

Foram exposições planejadas. Uma, duas, três candidaturas. Marchas pelo país. Ocupação de espaços na mídia. Polarização em todos os confrontos possíveis. Bandeiras de despertar de sonhos, de consciências, de anseios. Paulatinamente, quebrando medos e bloqueios, tornando-se familiar, aceito. Falando o que se pretendia ouvir, que era possível. Martelar constante até tornar-se familiar o barulho do martelo. Insistência em desmascarar, em retirar pelegos que cobriam lobos, mesmo que fictícios. Em clarificar que os verdadeiros patrões dos donatários de sempre não eram nem a classe média, com seus medos, nem a camada mais básica, com sua submissão e falta e oportunidades de se esclarecer sobre sua real condição servil.

No tempo certo, uma carta aberta retirou o final dos medos da classe média e acalmou a ansiedade que permeava os donatários sobre a ameaça que sentiam, porque se sentiam já menores em seu poder. Muitas máscaras haviam caído no percurso. Naquelas condições, a inevitabilidade da perda parcial do poder era a melhor estratégia para mantê-lo. Claro, nunca lhes passou pela cabeça um plano de longo prazo para o país. Seus interesses sempre foram imediatos, estavam acostumados com isso.

Assim, a caminhada chegou a seu termo. Chegaram ao poder legítimo. O passo próximo seria o como exercê-lo dentro do plano. E que viabilizasse os passos seguintes.

No Lado de Baixo .... A Escolha (Cap II)


Em uma sociedade colonizada, há duas formas de ocupar o poder.

A primeira, sempre sangrenta, é por meio de uma revolução. Já haviam tentado e aprendido a lição, não conseguiriam. Num país de contrastes, onde esteja consolidada a cultura do domínio elitista de que tudo pode; onde haja um colchão de amortecimento representado por uma classe média conservadora, armada e temerosa de mudanças; e onde sobreviva uma legião de condenados a servir, conformados em herança cultural de longa escravidão, nada conseguiriam. Sim, a lição estava aprendida.

A segunda é valer-se dos mecanismos instituídos, ainda que formulados na forma e molde para preservação dos próprios formuladores. Nas regras do jogo. Ocupado o poder, possível e necessário seria mudar o molde, construir um novo. Mas, até então, haveria longo caminho a ser percorrido. E passo a passo, cautelosamente.

O primeiro, a visibilidade. Alguém que pudesse materializar o plano, sem que o próprio plano fosse desvendado, pois plano estratégico divulgado perde eficácia. Alguém que pudesse estabelecer vínculos de identidade com os efetivos beneficiários, a grande massa. Haveria que se resgatar – ou mesmo fomentar – sua autoestima, seu orgulho, sua condição humana. Haveria ser alguém que reunisse condições de ser aceito sem medo pela classe média. Haveria de ser alguém que cooptasse os tradicionais mandatários da capitania hereditária em que o país havia se estruturado.

Não precisava ser o ideólogo principal, mas era necessário alguém com forte poder carismático de aglutinação e de identificação com o povo. Não necessariamente populista, mas sem vergonha de sê-lo. Não corrupto, mas transigente o suficiente para trilhar no caminho do possível, no morde e assopra. Alguém que aceitasse o vão-se os anéis, fiquem os dedos, nas composições. E alguém suficientemente comprometido com o referido plano, a ponto de contribuir para sua formulação. E confiável o suficiente para entender seu papel nele. Dispor-se a ser uma parte do plano, por um objetivo maior.

Não haveria segunda chance, não poderiam errar. Não poderia ser tão velho que não suportasse um horizonte de 20 anos de combate, nem tão jovem que tivesse a inconstância própria da juventude. E, acima de tudo, tivesse condições pessoais de comunicação, de geração de empatias, temperamento conciliador e pudesse personificar uma real mudança. E tivesse coragem, acima de tudo, coragem para enfrentar os anos difíceis que se seguiriam.

E assim foi feito. Felizmente para eles, no grupo, havia essa pessoa. E o escolheram para a missão, para executar a primeira etapa, a da ocupação do poder.

No Lado de Baixo do Equador

Nos próximos dias, na razão de um por dia, publicarei capítulos de uma história vivida ou imaginada. É a mesma coisa. Serão 7 capítulos, sendo, além da introdução de hoje, A Escolha, A Caminhada, O Político I, O Mensalão, O Político II, O Gerente I.

Cap I - No Lado de Baixo do Equador

Sempre foi um país interessante. Com complexo de vira-lata, em cáustica definição de conhecido jornalista. Um país de planos efêmeros, desde que inventaram uma república mal copiada de um vizinho mais ao norte. O curto prazo, ontem; o longo, a semana que vem.

Um país do camuflado, do jeitinho, do levar vantagem, nesta exata escala de progressão. Um país infraequatorial, onde o pecado, se existe, é relativo. Um país que institucionalizou a corrupção, quando construiu uma constituição de fundamentos parlamentaristas num regime presidencialista. Um país rico, mas pobre de espírito. Um país de enormes contrastes.

Um país de paradoxos, onde dos mais admirados políticos foi um ditador. De revoluções sucessivas, promovidas por arrogantes donos de verdade, a desmancharem com os pés o que construíam com as mãos.

Um país que gosta de fingir-se revoltado contra roubalheira, mas à boca pequena, nas rodinhas de chopp ou no anonimato da internet. Um país que adora ser tutelado por um Estado opressivo, que lhe regule em lei a rotina diária. Que quer lei para tudo, talvez na motivação de ter sempre uma nova lei para violar. Um país que aceita como verdadeiras as avaliações de tribunais de faz-de-contas, dirigido por políticos, sem qualificação técnica e de idoneidade discutível.

Sem dúvida, um país interessante. Como interessantes foram seus sucessivos governantes, sempre jogando pra platéia, especialmente a sentada nas poltronas de Wall Street ou da City.

Mas aí surgiu uma turma esquisita. Uma juventude disposta a levar suas crenças a todos os sacrifícios, até o de sua vida. Claro que foram usados por espertalhões que se valiam de seus sonhos e indignações juvenis. Acontece que os espertalhões já morreram e aqueles jovens, ficaram velhos. O inexorável tempo, que a todos presenteia com a velhice. Menos aos que morrem antes.

E resolveram, em algum momento, que havia chegado a hora de transformar sua indignação do passado em realizações no futuro. Por incrível que pareça, gente que ainda acreditava em seu surrealista país. E formularam e resolveram implementar, talvez, o primeiro plano nacional de longo prazo.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Ministro do Ataque

Bobo não é, nunca foi e talvez nunca venha a ser. Midiático, bem, aí é outra conversa. Nesse quesito, fazer-se aparecer, é top, quase imbatível.

Jobim é multimídia, mescla de político e jurista. Cavaleiro do tal Cardoso, ordem mística que só não destruiu o Brasil por falta de tempo, não encabulou-se de compor com Lula nem avermelhou-se a permanecer com Dilma.

Defenestrou pessoas honestas por discordarem de suas opiniões, com o pretexto de terem ultrapassado os limites da subordinação disciplinar, como no caso de ex-comandantes na amazônia. Vestiu uniformes, nem sei porque. Decerto pra ficar bem na foto. Desagradou e agradou setores. Em seu favor, o esboço do Plano Nacional de Defesa, trombando com os pseudo-ambientalistas liderados pela esganiçada do Acre. Nesse particular, ao menos, ponto pra ele.

Jobim é o ministro trombada. Não é boquirroto, porque não fala impensadamente, mas sempre com objetivos. Muitas vezes pessoais.

Aí, fico pensando. Qual seu objetivo de participar de um governo e criticá-lo exatamente para seus adversários? Qual a razão dos ataques interna corporis? Briga de egos? Sua vaidade não cabe em seu corpanzil nem em suas orelhas topogigianas?

Não, isso é muito pequeno pra ele. O que ele visa é exatamente a próxima eleição para presidente.

Jobim quer ser presidente da república e age para tentar criar densidade política que lhe permita enfrentar a disputa interna no PMDB.

Jobim sabe que a aliança de governo é frágil e não subsiste até o final do ano que vem.

Jobim queria ser demitido, era importante para sua bandeira e projetos o desgaste decorrente para o governo. Bom motivo para explicitar o rompimento, dar mãos e braços a seus amigos no projeto de Zé Serra. Serra prefeito, Serra governador, Jobim presidente.

Por isso, Dilma o engoliu, Dilma foi paciente com os ataques. Até o limite da fúria.

Fez bem a presidente em botar essa figura pra correr.

Ele que se junte à sua turma.