FregaBlog

sexta-feira, junho 12, 2015

Trem Fantasma

Há poucos dias foi anunciando um investimento bilionário chinês para a construção de uma ferrovia transoceânica. Nesta semana, um novo pacote de concessões em que se alardeia um investimento também bilionário.
Dois possíveis factóides concatenados.

Os dois mandatos de Lula significaram uma reversão da ladeira abaixo que vínhamos percorrendo desde os dois últimos governos militares. A declividade aumentou a partir da democratização, foi incrementado pela constituição de 88, recebeu novo impulso de queda na compra da emenda da reeleição, na dilapidação do patrimônio nacional e a mim ao menos parecia não haver mais futuro viável para o Brasil. Lula, um hábil negociador, entendeu perfeitamente o jogo geopolítico, assumiu que havia brigas que não poderiam ser enfrentadas sem comprometer o objetivo principal, transigiu, negaceou, compôs e deu novo rumo ao país. Goste-se ou não de sua figura, não há como contestar esse fato.
O resultado geopolítico alcançado foi incluir o Brasil no eixo do interesse mundial. Sim, porque há um governo supranacional, detentor do capital, que decide inclusive quem pode assumir um governo e quem não pode. Isso e acordo com seus interesses. Quando um governante representa ameaça, é sabotado, crises são geradas, revoltas, revoluções, golpes de estado ou pura e simplesmente sua morte. Assim funciona o mundo e Lula sabe disso.
O Brasil passou a ser visto como promissor, com o beneplácito desse "sistema".
Dilma deu uma guinada, pouco hábil politicamente, mais aguerrida do que Lula.

Dilma passou a ser vista como uma ameaça. Rompeu alinhamentos tácitos, mostrou-se disposta a contrariar os interesses que nem Lula havia tido a audácia.Por 3 anos o "sistema" a tolerou, deu-lhe a chance de compor. Quando Dilma decidiu agravar o incidente da espionagem americana, a luz amarela avermelhou-se. Ela não percebeu que a independência do Brasil é relativa, pensou que era verdadeira. Aí sua inabilidade.

O que tudo isso tem a ver? Pois é, nada e tudo.

A privatização das ferrovias há duas décadas, com suas aquisições financiadas a estrangeiros pelo BNDES atingiu dois propósitos: garantir um mercado de caminhões e de saturação de rodovias pelo desmantelamento da malha ferroviária ainda existente, embora precária, e reduzir a capacidade logística brasileira de escoamento de safras, reduzindo sua competitividade.
Não há mais ferrovias no Brasil, essa é a realidade. Tirando alguns trechos da Santos-Jundiaí e a Curitiba-Paranaguá, o que resta? A que assegura o transporte de minério da Vale para exportação e alguns trecho do sonho de Olacyr de Moraes, sabotada pelo próprio governo nos tempos de FHC.
Recentemente a antiga NOB, que ligava a fronteira oeste - Corumbá - ao litoral foi desativada totalmente. Faz parte do plano.
Agora vem o governo com esses fatos novos de concessão de ferrovias.

Minha opinião pessoal é que os investimentos divulgados, tanto o chinês como do pacote de concessões são factóides. No máximo da boa-vontade, são números de intenção, sem nenhuma base factual. Sem boa-vontade, são números mentirosos, midiáticos.
A tal ferrovia chinesa pode ser até mais prejudicial ao Brasil do que benéfica, caso não venha associada a acordos que nos permitam entrar no mercado chinês com produtos processados. Hoje os chineses compram soja, mas fecham exportação de óleo, farelo etc. O valor adicionado é deles e essa ferrovia pode somente servir para comprarem nossa matéria prima na ida e voltarem os trens abarrotados de.equipamentos e quinquilharias barateadas, desindustrializando de vez nosso parque.
Não sei se o Brasil ainda é viável, volto ao sentimento que tinha ao final do governo FHC. Hoje, com mais consciência de sua inviabilidade neste modelo político que consegue ser piorado ainda mais por Cunha e seus asseclas. Talvez tenhamos ultrapassado o ponto do sem retorno, não sei.
Mas isso faz sentido, na medida em que vemos o "sistema" agir no Brasil desde junho/2013, nas tais manifestações "despolitizadas". O ataque é visível, as crises presentes, a desmoralização permanente, a mídia repercute amplificada. O ânimo nacional despencou, Dilma amarelou, rendeu-se, pratica uma política neoliberal que nunca deu certo em qualquer lugar onde foi implementada. Pensei que teria ao menos a coragem de cair atirando. Não teve.
E é clara a polarização do "sistema" contra as tentativas de rebeldia, como o banco dos BRICS ou o avanço chinês sobre as áreas consolidadas de interesses. Os recentes acordos para formar um eixo asiático alinhado ao "sistema" mostram isso.

Aguardo com ansiedade a resposta que o plano de concessões despertará nos agentes do "sistema". Se ocorrer o interesse, há uma luz no fim do túnel, é sinal que ele não abriu mão totalmente do Brasil, temos uma chance. Mas se as expectativas forem frustradas é sinal que fomos excluídos de vez do interesse. Aí é sem retorno. Estaremos destinados a ser colônia nesse xadrez.
Colônia por colônia, para mim tanto faz. Norte-americana, européia, russa, chinesa, tudo a mesma coisa.
Para o peão, pouco importa o patrão.