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domingo, abril 18, 2021

Cão que Ladra, Morde? Parte 1 – Ameaça, Covardia e Partido Militar

Diz a sabedoria popular que cachorro que muito late, não morde. 
Não é axiomático, umas vezes morde, outras é desdentado. E às vezes não morde mesmo, confrontado põe o rabo no meio das pernas, corre e fica latindo em distância segura.

Bolsonaro tem a mania de latir, não passa semana em que não verbalize uma ameaça a alguém ou a alguma instituição.
Com sua confusão mental, nem sempre o latido é muito claro, reveste-se de simbolismo metafórico, aciona sujeitos ocultos, tanto gramaticais como os difusos possíveis agentes ativos e passivos da ameaça.

Não, no se trata de raciocínio elaborado e sofisticado, é por incapacidade mental mesmo, mas dá margem a interpretações e especulações.

Pretende morder ou recuará para latir à distância? Se quiser morder, terá dentes?Na real, pretende concretizar o golpe a que vive ameaçar?
Ameaçar é uma característica sua.

Quando capitão insubordinado, ameaçou usar bombas em quartéis e na adutora do Guandu, como reivindicação salarial e, de quebra, espetar a responsabilidade na oposição à ditadura.
Aliás, terceirizar a responsabilidade pra tirar o seu da reta é outra de suas características marcantes.

Ameaça e não cumpre, comportamento típico do vira-lata. Joga culpa em alguém, comportamento típico do covarde.
Do vira-lata que late, não morde e, se confrontado, rabo no meio das pernas, uma fuga e volta a latir em distância segura.
Numa primeira abordagem, lembra muito Bolsonaro. Mas será também o comportamento do capitão-presidente?
Vamos pensar um pouco.

Bolsonaro foi a figura política que os militares da Aman, geração 70 especialmente, viram como ponta de lança para assumirem o poder político. Por 25 anos mantiveram-se afastados de governos, mas nunca pararam de cultivar o viés político, seu vício incapacitante de origem, nos seus ambientes sociais ou em Ordens do Dia comemorativas de golpes. Por isso a Comissão Nacional da Verdade, ainda que sem caráter penal, mas de resgate de uma quadra triste de nossa história, representou uma ameaça nas cabeças institucionalmente distorcidas
Como assim não estava apagada da história os crimes cometidos em nome do Estado?
Como assim queriam identificar ossadas de guerrilheiros do Araguaia ou de presos torturados à morte e depositados em Perus?
O capitão-deputado, por exemplo, vangloriava-se de um cartaz pregado à porta de seu gabinete na Câmara com a frase de que "quem gosta de osso é cachorro", debochando da pretensão dos familiares em identificar ossadas de seus parentes mortos. Em combate ou em torturas.
Como sempre, uma agressão, uma ameaça, um desrespeito, uma manifestação psicopática.

O capitão-presidente Bolsonaro simplesmente é uma criação estratégica do Alto Comando expandido, que fomentou sua infiltração na tropa, levou a política para dentro dos quartéis, criou as condições de ressuscitar o Exército como partido político de fato, não de direito.

E disputar o poder.

O golpe político parlamentar de 2016, de certa forma uma vingança pessoal de uma das figuras mais nocivas e tóxicas que já surgiram no cenário nacional, o Eduardo Cunha, aliado ao ativismo judicial com fins políticos propiciado pela figura, hoje se sabe traidora e em conluio com interesses estrangeiros, do juiz Moro, mancomunado com um grupo radioativo de procuradores ambiciosos de poder e dinheiro, criou o ambiente necessário para que o Exército entrasse novamente na disputa do poder político.
A gota d'água? A ousadia de se criar a mencionada Comissão Nacional da Verdade.

Refiro-me ao exército como a força de maior poder, maior extensão e maior tradição de disputa política desde o golpe republicano e hegemônica desde o abafamento da Revolta da Armada.

Pois bem, o Exército, por seus generais até então recalcados nas suas ambições políticas, limitada a reuniões saudosistas de empijamados no Clube Militar, percebeu o ambiente propício para voltar a agir como um partido político na disputa do poder. Como sempre, o comunismo era o pretexto.

O impedimento da então presidenta e a assunção de um vice impopular, compromissado com pautas neoliberais e frágil politicamente, associado à perseguição judicial contra a principal liderança político-popular a ponto de encarcerá-la sem provas, abriu espaço para que o Alto Comando do Exército  se infiltrasse nos poderes Executivo e Judiciário com representantes diretos.

Tanto o Executivo como o Judiciário passaram a contar com generais do Alto Comando, alguns ainda na ativa, em assessoramento (monitoramento) direto dos presidentes dos respectivos poderes.

No campo político, entraram de cabeça na promoção do ex-capitão insubordinado e só não expulso por circunstâncias corporativas, deputado do mais baixo nível da ralé parlamentar por 7 mandatos, nada confiável e bravateiro em todos os aspectos, porém uma figura política conhecida pelas polêmicas, latidos e ameaças.

Após quase 25 anos fora do ativismo político, seria muito difícil sacar um general outsider e dar-lhe viabilidade eleitoral.

Isso ficou patente pelas tentativas de mobilização popular em defesa de uma intervenção militar, com resultados pouco promissores e sem muito entusiasmo.

A saída era garantir a eleição do ex-capitão apesar de tudo o que era, insubordinado, trapaceiro, promíscuo com a bandidagem miliciana, despreparado, oportunista e reconhecido incompetente.

 A ameaça ao plano que necessitava ser neutralizada seria a possibilidade de Lula se candidatar.

Por isso o célebre tuíte do então Comandante do Exército, General Villas Boas, também insubordinado e criminoso, a brandir o fantasma de um golpe.
A covardia institucional – lembre-se que havia um membro da direção do Partido Militar, um general de Exército na ativa, colado no Presidente do STF – a levar informações e trazer recados ao pé do ouvido.

Afastada a ameaça, o Partido Militar, na figura daquele capitão-deputado oportunista, com o suporte das forças interessadas em comprar o Brasil, assumiu o poder.
Para garantia, colocou diretamente um vice-presidente do mesmo Partido Militar, do mesmo Alto Comando. Se necessário tirar o fantoche, assumiria diretamente o poder sem qualquer violação das regras do jogo. 

Reconheçamos, um plano bem desenhado para assumir o governo sem parecer mais um golpe.

Mas será que assumiu mesmo?







Cão que Ladra, Morde? Parte 2 – Campanha e Posse

A oportunidade aparentemente foi vista a partir das confusões pré-eleitorais em 2013. A intensa movimentação popular, potencializada por engajamento midiático até então nunca visto em tamanha intensidade, e pelo fenômeno capilar das redes sociais, foi habilmente captada e por setores com olho na eleição de 2014.

A utilização de símbolos nacionais em apelo pseudopatriótico, se não foi ação planejada pelo Partido Militar, foi rapidamente vinculada a ele. A bandeira nacional virou bandeira partidária, o amor à Pátria passou a ser monopólio militante.

 O primeiro ensaio foi a tentativa de despertar o apoio a uma intervenção militar. Não conseguiram uma massa crítica de entusiasmo necessário para o rolo compressor, as instituições não se engajaram na idéia, o próprio ambiente internacional retaliaria uma iniciativa disruptiva.

Pari passu foram desenvolvidas ações subversivas nos quartéis, nas tropas, nos corpos de alunos, incluindo a abertura de espaços e superexposição do candidato fantoche escolhido. Haveria necessidade de politização das armas, pois estas não poderiam obstar a tomada do poder em uma defesa do Estado Democrático de Direito sem que o plano fosse ameaçado.

Não bastaria a adesão dos escalões mais altos, a base também precisaria ser cooptada e doutrinada.
Era necessário vincular a imagem do capitão-candidato como identificada com o Exército, passar a borracha em seu passado maldito de insubordinação e terrorismo e associar-lhe à elite da corporação, íntimo dos comandantes, das tropas mais celebradas como sendo um deles.
O Exército sempre gostou de criar seus "heróis", suas categorias "mais valentes", num culto à personalidade diferenciada ainda que, ou exatamente para, destaque artificial, pois há 80 anos não há feitos de combate a celebrar.

Plano bem montado, né, um belo exercício de Estado Maior e resultado de alguma doutrinação na ESG.

O jogo político precisaria ser jogado pra platéia, ainda que com juízes ladrões e com VAR desligado.
Lançada a candidatura e, como comentado anteriormente, com um vice sendo um dos participantes do Alto Comando do Exército, como avalista do processo, a incapacidade do candidato era tão chocantemente evidente que rivalizava em chacota com o cabo-humorista Daciolo e seu bordão Glória... a Deux.

 O primeiro debate foi tão vergonhoso, tão humilhante, tão acachapante na mostra do desconhecimento, que deve ter feito corar até os mais entusiasmados. Haveria de se evitar repetir o vexame.

Para sorte da campanha, surgiu a polêmica facada em Juiz de Fora, com o condão de afastar o candidato do vexame público e desmoralização do projeto por um motivo inquestionável: proibição médica, liminarmente aceita pela comoção gerada pelo atentado e que, ao fim e ao cabo, garantiu a vitória nas urnas.

Ao mesmo tempo, o candidato geraria declarações que ocupassem os espaços de mídia e surpreendessem e desconcertassem as forças políticas tradicionais por sua bizarrice, non sense e agressividade.

Cumpriu bem o papel determinado e nesse contexto está a simulação de metralhamento de adversários com o pedestal de um microfone, as arminhas de dedos, a cooptação do fundamentalismo evangélico. A cada ação, mais mobilizava seu eleitorado e desviava a atenção dos militares em low profile.

O plano cumpriu a etapa com sucesso.

O Partido Militar tomou posse simbolicamente na pessoa de Bolsonaro e diretamente na do vice-presidente Mourão. Mais de 90% do então Alto Comando do Exército passou a ocupar cargos de relevância no governo, alguns dos generais ainda na ativa e a maioria com funções no Palácio do Planalto, em assessoramento direto do presidente.

É sempre importante lembrar que para oficiais na ativa assumirem funções civis necessitam autorização e concordância do comandante da Arma. Isso não seria difícil na medida em que houve dança de cadeiras, o novo ministro da Defesa não era outro do que aquele que assessorava (monitorava) o presidente do STF e o comandante do Exército era colega de turma do agora capitão-presidente-fantoche.

A área econômica, desinteressante e totalmente desconhecida pelo Partido Militar e de acordo com as projeções fantasiosas de desenvolvimento que lhes acenavam simplesmente foi delegada ao dito Mercado, ente abstrato que se confunde com os interesses de acumulação de recursos pelos detentores do Capital.

Diferentemente das gerações de oficiais pré-1970, essa nova abandonou qualquer ideário nacionalista e de autonomia nacional. Foi contaminada na origem pelo projeto neoliberal encabeçado por Thatcher e Reagan e que foi moda na década de 90 no Brasil, quando ocorreu a primeira grande onda de desnacionalização e privatização de bens e riquezas públicas.

Engabelados pelas fantasias do mercado, interesseiros e dinheristas, inundaram toda a administração federal garantindo bônus, honorários e gratificações a engordarem seus já polpudos rendimentos.

Nesse sentido reformas foram aprovadas retirando segurança laboral e previdenciária, garantindo, entretanto, e até ampliando a rede de proteção corporativa para os agora detentores do poder. Nesse particular, um governo em causa própria.

Farinha pouca, meu pirão primeiro seria um bom lema para esse governo militar.

E assim os desastres iniciaram desde os primeiros dias de governo.

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Cão que Ladra, Morde? Parte 3 – Cobra Comendo Cobra

A disputa de espaço entre o criador e a criatura – a Junta Militar de Governo e o presidente eleito – surgiu imediatamente após a proclamação dos resultados, no embate entre as apelidada alas ideológica e militar.                                             Esta garantiu para si o QG no Planalto e tentáculos em praticamente todos os órgãos da administração direta, indireta e estatais.                                                     A ideológica, a comunicação política, relações exteriores. 

As áreas econômicas e afins, como prometido pelas duas faccões na montagem da candidatura, entregues ao Capital sob comando do tristemente célebre Posto Ipiranga.

No cerne da disputa, projetos distintos de poder.

A Junta Militar de Governo, representada pelo Alto Comando do Exército com alguma presença secundária das outras Forças, de longa duração, no mínimo outros 21 anos, uma geração.

O capitão-presidente, o único ungido de direito, de horizonte mais curto, uma reeleição e concentração de poderes excepcionais, semiditatoriais, para blindagem possível aos operadores das trambicagens tão características nas práticas do Baixo Clero Parlamentar, seu ambiente fundamental e de seus filhos.

O capitão imediatista vê a batalha, o general estratégico, vê a guerra.

O capitão-presidente promove seus conflitos ao sabor do momento, o general-político conforme seus objetivos.

 A ocupação dos espaços foi tão precipitada e urgente, verdadeira dança das cadeiras, que nem sequer de tempo para muitos dos indicados pela Ala Militar passarem para a reserva. Surpreendentemente, um dia o general estava num QG ou Forte Apache, no outro assentado num departamento no Palácio do Planalto. Nem teve tempo de guardar suas estrelas, a questão era ocupar a poltrona rapidamente.

As que não conseguiram, o capitão-presidente rapidamente ocupou com os seus. As baixas, evidentemente, começaram a surgir, mais intensamente na Ala Militar, menos experiente na arte de difamar e puxar tapetes. Menos malandra.

Passado o primeiro ano de governo verificaram-se surpreendentes retrocessos socioeconômicos e ataques institucionais contra os outros poderes, tudo de acordo com agenda comum, porém com propósitos diferentes.

Os da Junta Militar, gerar o caos, mobilizar contra um comunismo imaginário, bagunceiro e aterrorizante para surgirem os salvadores, eles mesmos, claro, numa prática secular que sempre lhes favoreceu.

Os do capitão-presidente, tudo isso, porém sob seu comando, não da Junta Militar.

A disputa não é se haveria uma ruptura política, mas sim sob comando de quem.

O capitão-presidente, por seu histórico de insubordinação, despreparo, corrupção e e malandragem, não é confiável para os generais, em grande parte  contemporâneos seus de Aman, exatamente por isso conhecido há décadas,e que nutriam a expectativa de manejá-lo.

Por sua vez, os generais da Junta são alvo da desconfiança do capitão-presidente, que nutre a expectativa de livrar-se deles e poder dispensar seu apoio.

Afinal, quando ele foi acusado de projetar ataques terroristas em reivindicação salarial e que, por muito pouco, não resultou na sua expulsão do Exército, afastaram-se e evitaram o seu então colega capitão. 
Com certeza isso não foi esquecido pelo agora capitão-presidente que sem a solidariedade acovardada de seus colegas, findou por buscar na política seu caminho, após ter sua carreira de oficial comprometida,

É cobra comendo cobra.

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Cão que Ladra, Morde? Parte 4 – Criador e Criatura

O capitão-presidente percebeu a conjunção de forças que comprometeria seus próprios projetos pessoais de manutenção e concentração dos poderes, pois democracia nunca fez parte de seu ideário político.

De um lado a corrente lavajatista, com a figura de proa de Sérgio Moro agora já assumidamente político no projeto de poder. Do outro, a Junta Militar com a pretensão de continuar governando.

Uma com o Ministro da Justiça e fortes ligações políticas no Congresso e na opinião pública. A outra com o cargo de vice-presidente, primeiro na linha sucessória.

Moro foi descartado na primeira oportunidade e esvaziou-se politicamente, principalmente pela desmoralização que aconteceu depois da chamada VazaJato. Seu espaço político desmoronou e seus apoiadores, majoritariamente e até porque em maioria se compunham no mesmo espectro político da extrema-direita, migraram o apoio para Bolsonaro.


 A segunda corrente, essa mais consolidada, inteligente e forte, precisava ser utilizada e, sutilmente, desgastada na medida do possível.

Está nesse contexto a humilhação a pessoas indicadas pelo Alto Comando, até sugestão de homossexualidade de Santos Cruz, um dos candidatos in pectoris do Partido Militar, foi divulgada. Só como exemplo do jogo sujo desses bastidores.

As farpas endereçadas ao vice-presidente, como “não demito porque não posso” visam o desgaste da corrente.

Mas isso não é o suficiente.

Desde 2013/14, o Alto Comando iniciou ações ostensivas de subversão nos quartéis, um jogo político muito perigoso, facultando o acesso do ex-capitão e criando a imagem do Mito. Afirmo ter sido um processo subversivo porque subverte o princípio fundamental de que Forças Armadas não se envolvem em política ou governos.

O ex-capitão passou a ser figurinha carimbada em toda e qualquer solenidade, principalmente nas escolas de formação, sempre acompanhado e prestigiado pelos chefes e falando como se fosse um dos seus. Claro que isso encantaria os jovens, principalmente os recém doutrinados na disciplina do Ides Comandar, Aprendei a Obedecer.

Se os comandantes prestigiavam, como imaginar que os subalternos fossem contestar.

Esse apoio foi fundamental para a eleição, com direito a ameaças do próprio comandante maior ao STF.
A criatura assumiu o posto, porém era refém do criador. O criador assumiu o comando, mas era dependente da criatura.

Não tinha como dar certo. Como de fato, não deu.


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Cão que Ladra, Morde? Parte 5 – Ambiente de Ruptura

À Junta Militar interessa o caos controlado, nele incluído o desgaste das instituições, a desesperança pública, a queda no padrão de vida, tudo como elemento de motivação psicossocial para um redesenho institucional. Evidentemente, a seu comando. Com exceção a isto, era pauta comum ao criador e criatura.

2019, primeiro ano do governo, foi palco de manifestações semioficiais de repúdio às instituições e de ataques a autoridades do Judiciário e do Legislativo.

Após o Min. da Defesa sobrevoar a bordo de um helicóptero do Exército uma das manifestações contrainstitucionais na Praça dos Três Poderes, acompanhado do próprio presidente e em posição bem visível e identificável pela turba, nítido simbolismo de apoio, parece que a ficha caiu.

Percebido o tsunami que se aproximava, o STF agiu de ofício e deu um chega pra lá preventivamente. Como ainda não havia sido atingido o grau de bagunça necessário à reação em cadeia e tendo surgido (ou vazado) provas das trambicagens familiares da criatura, houve um refluxo do movimento e o próprio Exército decidiu não apoiar um golpe que favorecesse a criatura.

O então Comandante do Exército, Pujol, colega de turma do capitão presidente e amigo há décadas, emitiu uma nota a esse respeito.

A simples existência dessa nota é uma demonstração explícita de que esse tema havia sido cogitado pelo Alto Comando.

O capitão-presidente, também percebendo a intenção de poder de seu criador, agora concorrente, buscou ampliar também suas armas para fazer frente a um possível uso de armas contra si.

Fortaleceu seus liames nas Polícias Militares dando-lhes uma representação no poder político inimaginável pelo Alto Comando. Chegou a subordinar um general de exército muito respeitado na corporação, a um coronel PM e com a instrução clara de submeter-lhe a humilhação funcional. Esse general era o Santa Rosa e no primeiro esporro recebido, pegou o boné (ou quepe, ou boina, o que esteja na moda) e se mandou.

 E aí cabe um adendo e uma explicação.

Nosso Exército, mantido por 25 anos em seu estrito papel constitucional, embora saudoso do protagonismo, tem a necessidade de criar seus próprios heróis na medida em que não há combates para fazê-los.

Da mesma forma como culturalmente se colocam acima da sociedade civil, num patamar mais preparado e apto, mais honesto e importante, dentro da própria corporação elegem subcorporações superiores.

Houve o tempo em que o paraquedista era o ápice da valentia. Como se popularizou demais, o suprassumo passou a ser o “guerreiro de selva”. Também se popularizou, surgiu o Operações Especiais, o Faca na Caveira moda atual.

Nesse contexto supremacista, as Polícias Militares sempre foram consideradas inferiores pelo Exército e isso gerou mágoas também.
O capitão-presidente, conhecedor do fato e malandro juramentado, resolveu fazer das PM o “seu exército” que, associado à organizações paramilitares, milicianas ou somente bem armadas, poderiam fazer frente ao exército em qualquer combate urbano. O suficiente para se prevenir de um golpe por seu criador, que além de tudo poderia se ver desfalcado dos escalões de menor hierarquia em suas próprias fileiras, corrompidos que foram na criação do Mito. 

Dá pra entender?

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Cão que Ladra, Morde? Parte 6 – Golpe e Contragolpe


É bastante claro que fomos salvos do golpe pela pandemia, a mesma que nos mata, embora seja muito complexo escrever a história que não houve.
Poderia ter acontecido pela criatura, pelo criador, ou pela combinação de ambos.
O vírus tirou todo mundo das ruas, e foi nossa sorte.
 
Também é evidente que a ida de um general de exército na ativa para o exercício de uma função civil totalmente alheia a sua formação e conhecimento, mas sempre com a autorização formal do Comandante do Exército, foi vista como uma oportunidade de desgaste por ambas as correntes.

Pelo capitão-presidente, para desgastar a imagem do próprio Exército e seus generais. Expor sua incompetência e arrogância sobre uma montanha de mortos abalaria, como de fato abalou, a imagem idealizada de segmentos da opinião pública.
Pelo Alto Comando, ao apostar que a montanha de mortos associada à inevitáve; recessão, porém potencializada pela desastrosa política econômica neoliberal, desnacionalizante, disruptiva e demolidora, colaria no capitão e isso abriria o espaço institucional para disputar diretamente o comando de direito em 2022. Percebe-se na tentativa de exposição de Santos Cruz, possivelmente o nome desejado e respeitado na corporação, posicionando-lhe como oposição crítica a capitão-presidente.
 
O Alto Comando, percebendo as jogadas da criatura, talvez tenha decidido tirar sua carta da manga. O impedimento. Com ele, assumiria a condução do país de direito e de fato. 
Seria necessário manter a ordem, possivelmente houvesse embates com as forças do capitão, sempre uma situação de risco até porque as PM são muito mais competentes e capacitadas para o combate urbano do que o Exército. E sempre haveria a possibilidade das tropas do próprio Exército, subvertidas, simplesmente não obedecessem aos generais.
 
Ainda assim, o capitão-presidente, também mapeando as intenções dos generais, alugou preventivamente os bons ofícios do Centrão e garantiu a inviabilidade de prosperar um processo de impedimento.
Pelas via institucionais, sem chance. Por rupturas da ordem, também não. Garantiu-se e o Alto Comando sentiu o contragolpe.
 
Ambas balizam e estimulam as defecções verdadeiras e simuladas de lado a lado. A presença fiel na PGR e no próprio STF, as lideranças no Legislativo.
Pazuello, inicialmente colocado pelo Alto Comando com autorização formal concedida pelo Comandante do Exército como uma forma de desgastar o capitão, aparentemente bandeou-se de lado. Foi abandonado pela corporação e escolhido como alvo secundário para atingir o primário. a de Braga Netto talvez seja simulada, apenas a boca do crocodilo aguardando para morder.
O estímulo à CPI da Covid está nesse contexto.

Instituições de Estado, quando politizadas, agem somente por três propósitos: autopreservação, autopromoção, ou vingança. Isoladamente ou em conjunto.
 Como nenhum ataque virá da PGR ou do Centrão, ao menos por enquanto, surge a CPI que promoverá seu massacre e forçará o capitão a agir para redução de danos. Ou Bolsonaro lhe agasalha, ou pode abrir a boca e provocar frouxos de riso em Mourão e no Forte Apache.
 
A par disso, fatos novos fatos surgem e a candidatura de real oposição política modifica o cenário para 2022.
No momento em que a tendência de provocar uma ruptura se tornou clara, as instituições que seriam atingidas reagiram. 
A guinada do STF para a defesa dos preceitos constitucionais é sintomática. Lula passou a ser uma realidade para 2022, realidade que as forças de 2018 consideravam superada.
Lula nada mais é no momento do que uma ameaça a quem ameaça as instituições. Está correto em não dar o assunto por liquidado, conhece o terreno.
Tirar do caminho agora somente por morte ou intervenção do Judiciário. 
A primeira hipótese é aleatória pelo destino, ou insuportável na provocação. 
Não somente incendiaria o país em sentido contrário ao desejado, como propiciaria um isolamento internacional jamais vivido desde o apartheid.
Por todos esses fatos, embora as ameaças veladas, ou nem tanto, do boquirroto capitão, nada deverá acontecer até a eleição do ano que vem. 
Mas as jogadas estão sendo ensaiadas e o palco montado. E Lula, de fato, é a terceira via capaz de ameaçar os planos das duas atualmente dominantes.

Com o cenário mais provável de vitória de uma terceira corrente política derrotando as duas que atualmente se engalfinham, pode-se imaginar que:

 1.    Contestar o resultado eleitoral seja a única saída possível para as duas                    correntes no governo. 

        Uma não retorna aos quartéis e perde o protagonismo que readquiriu                    com alto custo para o Brasil.

        A outra simplesmente perde a blindagem judicial e terá incomodação,                    inclusive familiar, pelos próximos vinte anos.

2.  As urnas eletrônicas serão atacadas de                    todas as formas para a tentativa                               acusarem do comprovante não ter refletido o            candidato escolhido. 
        A insegurança gerada simplesmente anularia            a eleição.

O voto manual, com contagem em mesas de apuração permite uma manipulação dos resultados, com  contagens e recontagens sucessivas, levando a um simulacro do ocorrido recentemente nos Estados Unidos.                  
Com a diferença de lá as Forças Armadas não se meterem nos governos.

3.      Esse será o golpe real a ser tentado. Forçar uma                 suspeição sobre as urnas e, aí sim, com a provável             conjunção novamente entre o capitão, generais,                     milicianos e polícias.
        O resultante estado de convulsão nacional, aliado a             algumas false flags, atenuaria a repulsa da                             comunidade internacional.

O único antídoto possível é a defesa intransigente do Estado Democrático de Direito, das Instituições, dos processos legais e, em especial, das urnas eletrônicas.
Ainda que se reconheça não serem perfeitos e que nem sempre as instituições e seus representantes são motivados pelo bem comum, são, ao fim e ao cabo, a última trincheira a evitar a quebra institucional.
 
Pois o vira-lata tentará morder. Mas só em 2022, salvo se se sentir acuado de morte, coisa que o próprio Partido Militar evita.