domingo, abril 18, 2021

Cão que Ladra, Morde? Parte 3 – Cobra Comendo Cobra

A disputa de espaço entre o criador e a criatura – a Junta Militar de Governo e o presidente eleito  surgiu imediatamente após a proclamação dos resultados, no embate entre as apelidada alas ideológica e militar.                                             Esta garantiu para si o QG no Planalto e tentáculos em praticamente todos os órgãos da administração direta, indireta e estatais.                                                     A ideológica, a comunicação política, relações exteriores. 

As áreas econômicas e afins, como prometido pelas duas faccões na montagem da candidatura, entregues ao Capital sob comando do tristemente célebre Posto Ipiranga.

No cerne da disputa, projetos distintos de poder.

A Junta Militar de Governo, representada pelo Alto Comando do Exército com alguma presença secundária das outras Forças, de longa duração, no mínimo outros 21 anos, uma geração.

O capitão-presidente, o único ungido de direito, de horizonte mais curto, uma reeleição e concentração de poderes excepcionais, semiditatoriais, para blindagem possível aos operadores das trambicagens tão características nas práticas do Baixo Clero Parlamentar, seu ambiente fundamental e de seus filhos.

O capitão imediatista vê a batalha, o general estratégico, vê a guerra.

O capitão-presidente promove seus conflitos ao sabor do momento, o general-político conforme seus objetivos.

 A ocupação dos espaços foi tão precipitada e urgente, verdadeira dança das cadeiras, que nem sequer de tempo para muitos dos indicados pela Ala Militar passarem para a reserva. Surpreendentemente, um dia o general estava num QG ou Forte Apache, no outro assentado num departamento no Palácio do Planalto. Nem teve tempo de guardar suas estrelas, a questão era ocupar a poltrona rapidamente.

As que não conseguiram, o capitão-presidente rapidamente ocupou com os seus. As baixas, evidentemente, começaram a surgir, mais intensamente na Ala Militar, menos experiente na arte de difamar e puxar tapetes. Menos malandra.

Passado o primeiro ano de governo verificaram-se surpreendentes retrocessos socioeconômicos e ataques institucionais contra os outros poderes, tudo de acordo com agenda comum, porém com propósitos diferentes.

Os da Junta Militar, gerar o caos, mobilizar contra um comunismo imaginário, bagunceiro e aterrorizante para surgirem os salvadores, eles mesmos, claro, numa prática secular que sempre lhes favoreceu.

Os do capitão-presidente, tudo isso, porém sob seu comando, não da Junta Militar.

A disputa não é se haveria uma ruptura política, mas sim sob comando de quem.

O capitão-presidente, por seu histórico de insubordinação, despreparo, corrupção e e malandragem, não é confiável para os generais, em grande parte  contemporâneos seus de Aman, exatamente por isso conhecido há décadas,e que nutriam a expectativa de manejá-lo.

Por sua vez, os generais da Junta são alvo da desconfiança do capitão-presidente, que nutre a expectativa de livrar-se deles e poder dispensar seu apoio.

Afinal, quando ele foi acusado de projetar ataques terroristas em reivindicação salarial e que, por muito pouco, não resultou na sua expulsão do Exército, afastaram-se e evitaram o seu então colega capitão. 
Com certeza isso não foi esquecido pelo agora capitão-presidente que sem a solidariedade acovardada de seus colegas, findou por buscar na política seu caminho, após ter sua carreira de oficial comprometida,

É cobra comendo cobra.

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