FregaBlog

terça-feira, março 21, 2017

O Golpe da Traição

Medidas públicas devem ser analisadas em seu conjunto. Focá-las isoladamente distorce a análise e não se alcança a plenitude das políticas públicas e do modelo de Estado desejado. É similar a uma análise de balanço, para os mais afeitos, indicadores isolados dizem muito pouco.
Pois bem. O golpe de 2016 propõe adotar diversas medidas, ainda que atropelando processos e  opinião pública, comprando e arregimentando os apoios necessários a suas aprovações.
Dentre elas, a reforma da previdência, a trabalhista, da educação, com revisão dos conteúdos escolares e privatização das universidades públicas,  a dos marcos de nacionalização dos recursos naturais, a privatizações de setores controlados pelo Estado, a venda indiscriminada de terras a grupos estrangeiros, a demolição de setores nacionais competitivos, como engenharia e produção agrícola. São medidas articuladas, não nos iludamos.
Afinal, o que pretendem? Exercitei uma conjugação desses fatores para inferir o plano estratégico e o resultado que inferi é terrível.
As reformas nos campos trabalhistas e da educação promovem a redução da massa salarial e a formação de massas de trabalhadores subalternos. Nos dois casos,  gente disposta a trabalhar por qualquer preço, por uma questão de sobrevivência, e garantir que esa massa de escravos pós-modernos seja renovada permanentemente.
As privatizações asseguram aos grandes grupos internacionais o manejo dos setores mais competitivos, o controle da infra-estrutura e o domínio sobre as riquezas minerais, dentre elas a água, o petróleo do século XXI.
A demolição de fatores como o agronegócio - vemos agora o ataque à cadeia da proteína animal - forçará a queda dos prços das terras. Assim que aberta a venda indiscriminada, serão adquiridas a baixo custo pelos diversos países. Associado à privatização das águas, suas respectivas garantias alimentares estarão consolidadas.
Então a China, por exemplo, grande importadora de nossos produtos do agronegócio. Como agiria?
Adquiriria todas as terras que quisesse, e isso significa milhões de hectares. Importaria com subfaturamento todos os insumos e equipamentos necessários, de máquinas a fertilizantes. As sementes adaptadas já estão disponíveis pelos desenvolvimentos da Embrapa, a sequencia de seu melhoramento genético seria desenvolvido por eles mesmos. Traria todos os trabalhadores necessários, pois com as terceirizações valeria suas próprias condições trabalhistas.
A produção seria exclusivamente dirigida a eles, também de forma subfaturada, o que significa menor ingresso de divisas, ainda que tributadas por uma pauta.
Garantiriam assim sua segurança alimentar a um custo ínfimo.
E nós?
Nós perderíamos a capacidade industrial de máquinas, equipamentos e insumos. Faliriam.
Nós perderíamos a multiplicação local de pequenos produtores e empreendimentos, por incapacidade de competir.
Nós perderíamos os postos de trabalho que não fossem de mão-de-obra terceirizada por eles mesmos.
Nós perderíamos a capacidade de prover nossa própria segurança alimentar, passando a depender dos excedentes que eles nos destinassem.
É  demolição nacional, embora não seja esse o objetivo principal deles, mas somente um efeito colateral e o exemplo chinês somente personifica os interesses geopolíticos do capital em geral.  Para sufocar a insatisfação, governos fortes, repressivos. Sempre haverá traidores dispostos a massacrar seu próprio povo. Os golpistas atuais mostram isso, ainda que timidamente por enquanto. Porém, cada vez menos timidamente. Ontem Moro sequestrou um blogueiro e o mantém incomunicável até para seus advogados.

Não há tempo nem alternativa. Ou nacionalizamos todos os recursos naturais, inclusive a propriedade das terras, para qe sua exploração, ainda que em concessão ao setor privado, se exerça no interesse nacional, e derrubamos todas as reformas desse governo espúrio e traidor que usurpou o poder, ou em 30 anos seremos uma mistura do antigo Congo Belga com o atual Haiti.
Somente uma revolução socialista ainda poderá nos salvar como Brasil.

sábado, março 11, 2017

2018. O Ano que não Chegará?

Há uma aposta de que haverá eleições em 2018. 
Há muita esperança de que 2018 encerressa 
triste quadra que o Brasil atravessa. 
Será?


Mais do que uma aposta, há uma esperança no ar de que 2018 chegue e possa recolocar o Brasil nos trilhos, após o descarrilhamento golpista. Eu não aposto minhas fichas nisso. 
Há motivos para minha descrença.

Os golpistas têm pressa no cumprimento da agenda que lhes colocou de forma espúria no poder. Seu açodamento em sucatear, privatizar, quebrar o pacto social, rever o modelo do Estado desenhado a partir do Estado Novo é evidente.
Nunca uma quadrilha tão forte e determinada adonou-se do Brasil e valeu-se tanto das instituições para quebrá-las.. Uma quadrilha do mal, subserviente, capacho, colonial, 
Ah, mas haverá eleições em 2018 e o sol da democracia novamente brilhará. 
Esse brado incorre em pecados mortais. Não há democracia sem eleições, mas a recíproca não é verdadeira.

A sociedade,ainda reflete em seu comportamento medos infantis. Incorporaram-se ao DNA social, são transmitidos geneticamente. Mitos criados transformaram-se em bichos-papões reais. A ameaça comunista é um desses medos.
Porém, medos artificiais à parte, há um cenário real. E esse é assustador.
O Brasil foi tomado por traidores capazes de vender a própria capacidade de sobrevivência nacional. Não é só Temer, Parente, Padilha. Esses, somente a parte evidente da traição. Há muito mais gente nessa missão deletéria.

Em 2018, uma união entre Ciro Gomes e Lula seria imbatível para a reversão desse quadro. Os golpistas sabem disso e usarão todo seu arsenal cínico para  impedi-la. Lula, o ícone, será desgastado até que seja afastado. Ou por morte, ou prisão. Ciro sozinho não tem apelo popular para assumir. As baterias serão reforçadas contra Lula.
No momento que isso se configurar, a disputa se resumirá entre facções golpistas.

Ao PSDB, com suas lideranças finalmente desmascaradas como o grupo mais corrupto que já assumiu a condução nacional, restará a criação de um factóide com Dória. Enganará a muitos, como foram enganados seus pais e avós por Jânio e Collor.

Os apartidários nacionalistas ainda vendo comunismo até na bandeira do Internacional, cerrarão fileiras com Bolsonaro. Outro factóide a defender teses conservadoras do fundamentalismo evangélico e se fingir de nacionalista. Basta ver como votou para a preservação do pré-sal. 

E são esses os três grupos que despontam para 2018. Anulado o primeiro, o que vier somente dará continuidade ao esfacelamento nacional. 

Mas pode ainda ocorrer que nem haja eleições em 2018, 
Podem surgir grupos guerrilheiros que decidam resolver o assunto com franco-atiradores e bombas localizadas, encarcerando o time dos lesa-pátrias nas tumbas de sua covardia intrínseca, alegando legítima defesa nacional. Não estariam totalmente desprovidos de razão.
Pode surgir a corrente judiciária, em seu corporativismo onipotente, a considerar não haver condição política para uma eleição federal.
Pode surgir um movimento militar, fantasiado de cívico, a pegar esse baio desvairado pelas rédeas e dar-lhe rumo próprio.
Tudo pode acontecer.
Se 2018 é o ano que pode não existir, 2016 foi o ano que nunca deveria ter existido.

sexta-feira, março 10, 2017

Acabou-se o que era Doce

“O povo assistiu àquilo bestializado,
 atônito, surpreso,sem conhecer
o que significava. Muitos acreditaram 
seriamente estar vendo uma parada.” 
(Aristides Lobo, Diário Popular, 18/11/1889)

Antes de tudo, é importante estabelecer a diferenciação entre Golpe de Estado e Golpe de Governo, embora ambos se confundam no quesito quebra institucional. O Golpe de Governo trata da substituição intempestiva do governante. Já o Golpe de Estado, embora no mais das vezes também substitua o governante, altera o próprio Estado pactuado, em suas instituições jurídico-políticas, sem que os cidadãos sejam consultados. Ambos são impostos pela força, armadas ou não, mas sempre garantidas pelas armas.

Exemplificando:

O golpe republicado de 1889, tão bem retratado nas palavras de Aristides Lobo, foi um golpe de Estado. A população não foi consultada sobre a substituição do pacto até então vigente, ao qual assistiu sem conhecer o que significava. Da mesma forma o foi o golpe do Estado Novo, em 1937, embora nesse caso não tenha havido substituição do governante.
Já o golpe de 2015 mascarou-se inicialmente como um golpe de governo. As aparências institucionais teriam sido mantidas no limite necessário à troca do governante. No entanto, as ações subsequentes mostram claramente ter se tratado de um Golpe de Estado.
Democracias não trazem em si os instrumentos de prevenção, exatamente porque são as primeiras vítimas dos golpes. Sejam de Governo, sejam de Estado. Somente a força, seja das instituições, seja a armada são capazes de protegê-la. Nossas instituições são frágeis, resta somente uma alternativa.
No golpe republicano de 1889, a população e as forças políticas, bestializadas, levaram dois anos para reação. Quando reagiram, o regime usurpador já havia se fortalecido o suficiente para submetê-las pela força. Floriano foi o agente dessa tirania.

No golpe de 2015, a bestialização não é diferente da de então. O que se verifica é que o torpor na reação segue permitindo que o governo usurpador reforme o Estado a seu bel-prazer. Quando e se houver reação, já estará o novo regime consolidado e forte o suficiente para reprimi-la.
As instituições, nelas entendidas as judiciárias, parlamentares e de segurança, estão comprometidas com o golpe, garantindo que o estado brasileiro possa ser reformado sem que a população seja ouvida.  É o golpe de si para si.

Eu sou um adepto incondicional do Estado democrático de direito em sua acepção moderna. Mas entendo que democracias frágeis descambem para a anarquia e, daí, à tirania. E que transigir no uso da força para evitar que a própria força as destruam seja um impositivo da própria cidadania. É uma situação de legítima defesa pátria.
Não há tempo para aguardar outros 21 anos, pois o sucateamento é acelerado e irreversível. É necessária reação imediata, antes que a erva daninha lance raízes profundas e se fortaleça em sua ação de alienação dos recursos naturais e consolidação de Colônia.
Urge que o povo seja ouvido sobre o Estado que deseja, pois os seus representantes não o representam mais. A quebra institucional já aconteceu.

Nessa situação de ruptura, teria minha simpatia uma revolução que partisse das bases populares, um movimento espontâneo de massas. Infelizmente, a cultura brasileira atual é de latir sem morder, não é um povo sanguíneo que vá às vias de fato. Acovardado, dizem uns, para outros, somente acomodado. 
Pouco importa. Há de ter alguns que destoem desse comportamento tão nosso. E que poderiam resolver essa questão com relativa facilidade e muito risco pessoal. Como os maquis agiram na França ocupada. 
Mas não vejo possibilidade de ocorrer, pelo desânimo que abateu a sociedade.

Resta então às próprias forças armadas institucionais impedir este golpe contra o Brasil. Com o compromisso imediato e inadiável de consultar a população sobre o Estado desejado e convocar uma constituinte livre e soberana para refundá-lo.
Pois democracia não é um fim, mas um caminho a ser percorrido, aprendido, ajustado e incorporado, para que possa realmente se consolidar. E como um democrata convicto, lamento que tenhamos chegado a esse ponto de ruptura.

A dúvida é se ainda existe brio e suficiente comprometimento com o Brasil. O conformismo com a prisão do Alm. Othon me sinaliza que não.

quinta-feira, dezembro 22, 2016

Tambores, Carnaval e Patuléias

Conta-se que nos navios negreiros, a forma de acalmar os infelizes era promover uma batucada. O ritmo lhes era irresistível e o impulso da dança e saracoteio uma compulsão. Maior até que o sofrimento do cativeiro.
Somos um país com forte influência desses tempos. É comportamento esperado e politicamente correto rebolar ao escutar uma música, um ritmo, uma batucada. E o resto que se dane.
Por que escrevo isso? Porque é assim que somos, é assim que tratamos nossos assuntos, com carnaval e futebol, com piada e conformismo. Com a crendice supersticiosa, com a passividade bovina.
Somos assim, para o melhor e pior. Característica nossa. Somos um povo violento, mas não combativo. Até mesmo acovardado em minoria.
E assim formamos nossa democracia.

Não tenho dúvida de que temos uma democracia forte, tão forte que é capaz de suportar golpes de Estado armados ou não. Nenhuma democracia no mundo, ao que conheça, seria capaz dde suportar tantos golpes e permanecer vendo-se democrática.
Na realidade, não estamos nem aí para essas coisas. O que vier, três palitos.
De generais a juízes, de políticos a aventureiros, o que queremos é um salvador, um feitor, um dono de terra e gente que nos dê motivo para demonizar ou divinizar. Queremos alguém no pedestal, de preferência mandando bater tambor ou manejar o chicote.
E somos crédulos, por cultura e conveniência.
Acreditamos que Getúlio era o pai dos pobres, que Juscelino era corrupto, que Jango era comunista, que os governos militares não tinham corrupção, que Sarney, |Collor Cardoso, Lula e Dilma, todos sem exceção, deviam ser apeados dos postos em que os colocamos.
Nossa democracia é forte, aguenta tudo isso por um motivo só: a gente não está nem aí pra  ela, desde que tambores sejam tocados.
E que não se fale em libertar, liberdade nos assusta.

O império caiu porque decretou a libertação.
Os salvadores da Pátria personificados no tenentismo não tinham propostas outras além de sua arrogância juvenil do tudo saber.
Getúlio, navegando em marés autoritárias em 3 constituições nos 15 anos, aproximou-se da figura mítica do salvador. Deposto e retornado pelas urnas, suicidou-se  por ver que as forças que não admitiam a independência nacional eram mais fortes do que nossa escravidão cultural.
Juscelino revolucionou, integrou o Brasil pela nova capital. Comprou os apoios parlamentares e militares para tal. Foi chamado de corrupto exatamente pelos que se beneficiaram de propinas e boquinhas. Custou caro Brasília, muitos bolsos foram cheios, não o dele, mas dos poderosos.E impedido de voltar, pois poderia novamente enveredar pelo caminho da independência.
Não outro foi o caminho de Jango. Apeado do poder a um ano do término do mandato, A geopolítica da Guerra Fria, os comandantes militares mais americanos do que brasileiros (não, nada a ver com Moro, esse é juiz)não podiam permitir posição outra que não fosse o alinhamento integral e a submissão completa. De sargento a general, de taifeiro a almirante, de cabo a brigadeiro, passeando por todas as graduações e patentes, teve boquinha pra todo mundo e qu aplacasse resistências.
Mas os tambores tocavam, saracoteávamos ao som dos tambores e dos chicotes. Até a hora em que os patrões mudaram a tática, não havia mais Guerra Fria, eram tempos de distensão.
De lá pra cá, a história é mais recente, num formalismo democrático executado com a tirania dos feitores. Substituí-los se não atendessem os anseios de quem manda? Simples.
Basta uma campanha midiática suficiente para saracotearmos, batermos panelas, demonizarmos, xingarmos,acreditarmos - se é que a gente acredita em alguma coisa - que somos inependentes em nosso cativeiro.

Por isso Lula é um risco, um perigo, uma ameaça. Deu um gostinho da independência aos escravos, alguns gostaram, outros preferem permanecer cativos. Mas muito gostaram, a maioria gostou, um fator diferencial de Getúlio, Jango e Juscelino.
Outros preferem Moro, um malabarista das leis e códigos, capaz de processar pela suposição de que havia uma possível e suposta intenção criminosa. Não, essas fumaças de independência fazem muito mal, o maldito 9 dedos foi se meter a criar universidades, a fazer escolas, a fomentar o crescimento de empresas nacionais. E sua pupila Dilma, a audácia de definir que o pré-sal é nosso. Que perigo.
Moro, o deus-vivo da hora, o agente certo para garantir-nos a confortável escravidão, haverá de impedir, afastar de vez o risco dele voltar e continuar sa obra.
A patuléia dançante e carnavalesca poderá manter seus feitores, limpar suas latrinas, bajular seus donos e contentar-se com as migalhas que lhes caem das mesas.

Mas o som dos tambores estará garantido, e é isso o que importa.

sábado, dezembro 03, 2016

E Se...

Em Yataity-Corá, no dia 12 de setembro de 1866. Francisco Solano López teve um encontro com Bartolomé Mitre, por iniciativa do primeiro. Foi a primeira e única tratativa entre plenipotenciários para dar um fim à Guerra do Paraguai, ou da Tríplice Aliança, como é conhecida.
Militarmente, o Paraguay havia perdido a guerra, após a perda do poder naval na Batalha do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, dos desastres de seu exército no sul, consubstanciada na Rendição de Uruguaiana, em 16 de setembro do mesmo ano, e na derrota em Tuiuty, em 24 de maio de 1866.
Menos de um ano, portanto, da invasão de Lopez ao Mato Grosso, início efetivo das operações bélicas, a derrota estava configurada.
A derrota, mas não o poder de reação paraguaio, que estendeu a guerra por mais quatro sangrentos e longos anos.

O Tratado da Tríplice Aliança determinava o fim das operações somente com a retirada de Lopez do poder, ou por morte, ou por exílio, situação em que recusava peremptoriamente.
Pois bem. E se Lopez tivesse aceito o exílio, o que teria acontecido?
Os aliados teriam perdido seu principal motivo e pretexto para a guerra, que, a essa altura, já teria custado perda de 100 mil vidas. De fato, seria inaceitável manter Lopez no comando do Paraguay, permaneceria como uma espada de Dâmocles sobre nossas fronteiras desguarnecidas e, muito provavelmente, haveria uma recidiva bélica em alguns anos. Lopez polarizava seu povo, ou por seu magnetismo pessoal, ou por medo ou ainda pela cultura catequética jesuíta de obediência à autoridade.

Mas, e se...

O primeiro impacto é que teria ocorrido a derrota aliada em Curupaity, que ceifou a vida de uma dezena de milhar de aliados, com perdas ínfimas paraguaias. Não fosse a capacidade de recompletamento de tropas, muito maior do que a paraguaia, seria possível afirmar que a guerra estaria empatada.
Curupaity praticamente interrompeu as operações de grande porte por quase dois anos.

O segundo impacto seria que o Paraguay não teria sido levado ao esgotamento de seus recursos humanos e materiais. Em mesa de negociações, pelos impasses, poderia ter levado seus assuntos de fronteira a arbítrio internacional. Ganharia alguns, perderia outros. Talvez mantivesse os territórios de Formosa e Missiones, também alguns territórios que hoje pertencem ao Mato Grosso do Sul. Sete Quedas seria provavelmente paraguaia, e isso inviabilizaria Itaipu como conhecemos.

O Paraguay teria todas as condições de retomar seu crescimento sócio-econômico sem o intervalo de quase um século que levou para sua recuperação.

A Federação Argentina seria também impactada. Pode~se supor que Urquiza endossaria uma solução de pacificação e não é de todo descartável que as províncias correntinas decidissem pela sua segregação de Buenos Ayres.

Essa paz, pouco impactaria no Uruguay, o estado tampão, o algodão entre cristais re´resentados pelo Brasil e Argentina, e fator de equilíbrio geopolítico no estuário do Prata.

Para o Império, caso Pedro II agisse com sensibilidade nas questões gaúchas e nas negociações com o Paraguay sem López, consolidaria ainda mais sua imagem de governante equilibrado e magnânimo. Possivelmente não ocorresse o golpe republicano.

Mas é inevitável que o mapa político da América do Sul não seria o mesmo.

segunda-feira, setembro 12, 2016

Estado Minimalista

Venho observando que os mais ferrenhos defensores do Estado Mínimo e a maioria dos aderentes à onda neoliberal, ou são vinculados ao serviço público e dele tiram seu sustento, direta ou indiretamente, ou em algum momento se valeram desses serviços em causa própria, como a formação em escolas e universidades públicas. Devem falar com conhecimento de causa.
A partir dessa constatação, resolvi fazer algumas abstrações, partindo do princípio que o Estado sempre terá consigo alguma ineficácia e  voracidade nas correntes de Foucault. Vamos, portanto ao Estado Mínimo.

Um governo federal só tem razão de existir se for para atender demandas que assegurem a permanência da União. Num país gigante, não há como ser mínimo; num país assimétrico, não há como não ser interventor. Não havendo essa exigência, não há porque a existência de um governo central. Cortemos portanto, de pronto e sem dó, um governo central e todos seus penduricalhos. Nesse corte, desnecessária portanto a existência de forças armadas. Pra quê?
Eliminam-se assim as fabulosas verbas dolorosamente arrecadadas, desperdícios e corrupções alegadas, descendo o nível  decisório para governos mais identificados com as comunidades locais.

Sim, comunidades locais. Pela mesma razão, podem desaparecer os atuais conceitos de estados e municípios, também em cidades de grande porte, os municípios padecem do mesmo mal. Nas pequenas, os atuais municípios podem ser representativos, nas grandes, não. As demandas de quem mora na Maré, ou Pirituba, são muito diferentes das de Ipanema ou Morumbi. Os bairros, eventualmente as quadras, ou grupo delas, podem ser mais bem ajustadas a seus moradores.
Ah, sim, mas e as vias públicas para interconexão? Simples.
Podem ser privatizadas. Ao ingressar em determinada via, ou trecho dela, o usuário paga sua taxa de uso. Já não funciona assim em rodovias, sob o aplauso dos minimalistas? Da mesma forma os serviços públicos, como água e energia. A comunidade os compra de empresas privadas e distribui a seus comunitários, cobrando-lhes o valor correspondente. Já funciona esse modelo em alguns condomínios, dizem que muito bem. Sob comando do síndico e não sujeito a leis eleitorais nem a horários eleitorais em televisão. Também esses síndicos podem ser substituídos por empresas contratadas para o gerenciamento. Já existem.
Vai ser interessante ver a comunidade da praia da Guarita, ou de Copacabana, cobrar uma taxa para não moradores frequentarem esses espaços.

Bom, abolidos exércitos, polícias federais, Conselhos de toda ordem, Ministérios de alis-babás (eram 39, reduziram-se para pouco menos de 30), Secretarias e secretários, também o Congresso pode ser resumido a uma Cimeira. Muito mais barato e sem exigir estrutura fixa e cara.

A segurança pública hoje já contempla as guardas municipais. Uma questão de mero  ajuste. Extingam-se  também as polícias militares e judiciárias estaduais por inúteis. Afinal, há uma Comarca em cada município hoje, nada impede que haja uma justiça comunitária, com leis próprias e redondinhas para os hábitos e cultura das comunidades. E assim, uma justiça ágil e aplaudida. Não necessariamente justa, mas alguma realmente o é?
Coisas e abortos tipo detrans e outras autarquias e departamentos, secretarias estaduais, conselhos disso e daquilo e demais órgãos para-administrativo-policiais, lata do lixo também.

Escolas não precisam ser públicas, aliás, nem precisa ou deve a comunidade se meter em educação, a prosperar a tese da Escola sem Partido. Cada escola, portanto, deve ter sua proposta pedagógica e seu currículo coerente. Cabe aos pais ou responsáveis a escolha, de preferência na própria comunidade.
Da mesma forma, hospitais, ambulatórios, médicos e demais assuntos relativos à saúde.
Também, com as taxas-extras cobradas de não moradores dessas comunidades pelo uso dos serviços ou de trânsito em seu espaço geográfico, barateariam as “taxas de condomínio” dos moradores, manteriam jardins floridos e ruas limpas e seu povo feliz. Sem falar na moeda local como meio corrente das trocas e com chance de ganhar algum no câmbio intercomunitário.

Claro, nesse Estado Mínimo, sequer precisa existir o Estado, limitador que é das liberdades individuais. Políticas de redução de assimetrias, assistência social, amparo a desvalidos e incapazes, garantias universalizadas de cidadania e dignidade, visão estratégica de futuro, tudo isso torna-se anacrônico. A lei do mais forte, maquiada de livre mercado, passa a ser a lei maior, a verdadeira Constituição. Ainda que sejam ressuscitados alguns Valongos e destruídos empregos e capacidade produtiva local, em perda de ganho de escala, a miséria humana é reservada aos incapazes de prover sua própria sobrevivência. Seleção natural em darwinismo social. Com a garantia da perpetuação dos mais fortes.

Estou quase me apaixonando pelo tal Estado Mínimo, um retorno à sociedade tribal. Deve ser o pouco sangue índio que talvez corra em minhas veias.
Mas, péra aí, tribo? Quem seria o Pajé? Malafaia ou Bolsonaro?
É, talvez não desse muito certo isso não.

domingo, setembro 04, 2016

Sinuca de Bico

A recente manobra no Senado, com o voto em separado na resolução que aprovou o impedimento foi um golpe de mestre e trouxe inapelavelmente o STF para o centro do golpe.
Em política, quase tudo o que se vê não é, os óbvios não fazem parte da trama. O que, aparentemente, seria um benefício à Dilma, por remorso ou dó, na realidade esconde uma manobra muito mais elaborada.

A Constituição determina duas penas distintas para crimes de responsabilidade do Presidente: cassação do mandato e perda dos direitos políticos por 8 anos. O entendimento majoritário é que devem ser aplicadas conjuntamente pelos julgadores. Parece óbvio, mas não é tanto assim. 
Por outro lado, o Regimento do Senado determina que pode haver votação em separado em Resoluções, desde que requerido. A sentença é uma resolução.

No impedimento de Collor, sua pena prática ficou restrita à perda dos direitos políticos por 8 anos, dado que havia renunciado previamente. Temos, então, um caso de distinção das duas penalidades. Já deixou de ser uma e indivisível, portanto. 
Não fosse assim, não poderia ser aplicada a cassação sobre objeto inexistente, o mandato, invalidando, portanto, a aplicação nos direitos políticos. O acessório acompanha o principal, máxima do direito.
Sendo então duas penalidades autônomas, cabe sim o voto em separado.
Imbróglios à parte, qual a razão da manobra então?

Dilma, mantendo os direitos políticos, abre não um precedente, mas um pretexto para embaralhar ainda mais a pouco provável cassação de Cunha. 
A Câmara corre o risco de desmoralização extrema deixar passar em branco o episódio. E é um risco político enorme puni-lo com cassação e perda dos direitos políticos, alijando-o da vida pública. 
Pois bem, abre-se agora a possibilidade de aplicar uma dosimetria. Como, por exemplo, cassar seu mandato, justificando-se perante à sociedade, mas fechar-lhe o bico ao preservar-lhe o direito de retornar em 2018, onde certamente será eleito pela população do Rio de Janeiro.
É uma face da questão. Mas não a única.

Dilma adquiriu uma densidade política enorme, por ter enfrentado de cabeça erguida os senadores durante 14 horas a fio. Sabia antecipadamente do veredito, mas colheu uma imagem de coragem e honestidade perante uma quadrilha que restou moralmente desqualificada. Adquiriu espaço próprio e liderança popular. 
Porém, essa força não será utilizada no PT, partido aliás que lhe fez oposição nos bastidores pelos dois mandatos, embora posasse de seu aliado. Será em outro partido. 
O PDT, talvez, com Ciro Gomes. Ou um novo partido que aglutine as personalidades que brigaram vigorosamente contra o golpe (não necessariamente por Dilma), nelas incluídas algumas do próprio PT, PDT, PCdoB e dissidentes da Rede e até do PMDB. Nesse quadro, o PT ficará reduzido à sua densidade atual, extremamente desgastado e quase que inviável eleitoralmente.
Sua mudança para o Rio de Janeiro sinaliza que lá poderá ser o quartel general desse movimento. Dilma disputaria uma cadeira no Senado com muitas possibilidades de vitória, além de emprestar sua força e palanque à chapa presidencial, hipoteticamente composta por Ciro e Lula, este na posição de vice, sendo o PT coligado.
É inegável a viabilidade eleitoral dessa chapa.

Esses dois fatores teriam propiciado essa articulação do voto em separado. Articulação de um gênio da política, chamado Luis Inácio.
Sobrou no pedaço somente o trambolho chamado Temer. Vamos a ele.

O PSDB e o PMDB, como forças principais de uma coligação de partidos de aluguel, com destaque para o PPS e DEM em cada lado, são somente aliados de ocasião e inimigos cordiais fora dela. Foi essa coligação que viabilizou o impedimento. Pra valer, Temer sequer poderia ser diplomado presidente por sua condição de Ficha-Suja (art 15 da lei e jurisprudência do STF).

O PSDB aposta em seu agente Gilmar para a cassação pelo TSE, em 2017,  da chapa vencedora na eleição de 2014, Dilma e Temer. No caso agora, só a de Temer, matando a manobra peemedebista de tentar desvincular as duas candidaturas. 
Em 2017 a eleição seria indireta e nada difícil eleger FHC para o mandato tampão. Isso potencializaria uma candidatura peessedebista viável em 2018, tanto pela capacidade de articulação como pelo domínio da máquina orçamentária. 
Lembrando que o PSDB foi um dos maiores apoiadores da aprovação recente da DRU elevada para 20%. Não foi para facilitar a vida do golpista, mas sim de olho em 2017 em causa própria. Ao PSDB interessa muito as manifestações de Fora Temer, pavimenta suas ações para 2017. Irá fomentá-las veladamente.

Já o PMDB aposta em seu agente Moro com sua Lava-Jato. As recentes denúncias contra tucanos emplumados, habilmente bloqueadas por ações gilmarianas, inserem-se perfeitamente nesse contexto. Temer financiará a mídia para se contrapor à manobra de Gilmar e queimar o filme da ala corrupta do PSDB, notadamente seus dirigentes. Ninguém se assuste se o próprio Gilmar sair chamuscado nas delações. 
Para o PMDB, as movimentações populares não lhe interessam. Irá reprimir na forma possível, correndo o risco de desembocar numa guerra civil, o que justificaria medidas emergenciais. Quando se vê figuras soturnas tipo Lex Luthor e Etchegoyen no comando da repressão, percebe-se até onde estão dispostos a chegar.

A PGR, terceiro elemento, pisa lá e cá, estapeia e afaga, em jogo dúbio. Ninguém gosta disso e, como parte mais fraca, pois depende do judiciário para dar andamento a seus atos, será engolido na fogueira das vaidades.
Pois bem, ao que interessa.

Nesse quadro digno do Butantã, cai no colo do STF decidir sobre a constitucionalidade do voto em separado, bem como sobre o crime de responsabilidade alegado. Este último, ele poderia empurrar para as calendas, decidir quando não teria efeito prático algum. Mas não sobre o primeiro.
O não decidir implica na decisão de validar a manobra do voto em separado, com todas as consequências descritas acima. Tem o mesmo efeito de uma decisão de constitucionalidade do ato, considerando ser o julgamento político com fundamento jurídico, nada impedindo que o Senado, órgão político, adote dosimetria própria.

Decidir contrariamente, ou seja, julgar que a manobra foi inconstitucional, implica necessariamente numa nova votação do impedimento no Senado, pois que a votação que aconteceu restringiu-se à cassação do mandato exclusivamente. 
Acontece que não dá mais tempo para fazer tudo de novo. Dia 16 do mês que vem, outubro, esgotam-se os 180 dias constitucionais para o julgamento, provocando a decadência da acusação e a reassunção de Dilma. 
Em período eleitoral, com todos os recursos e chicanas possíveis, muito dificilmente esse prazo não se esgotará.
Além disso, seria o reconhecimento de que o julgamento não é político, o que reforçaria a necessidade de manifestação sobre a existência prévia do fato jurídico do crime de responsabilidade. E isso é terreno hiperpantanoso.
Não há qualquer dúvida de que Temer cairá de podre. A questão é quando.

A convulsão social que já se ensaia nas ruas vai cortar o oxigênio golpista. Talvez tenha uma sobrevida de um mês ou dois. 
A ala bandida do PMDB tentará esticar ao máximo, a do PT, antecipá-la desde que se sinta forte o suficiente para uma disputa eleitoral agora. Caso contrário, apoiará o PSDB na procrastinação para 2017 e, lá se aliará (mesóclises não são comigo) ao PMDB para derrotar a indicação do PSDB na eleição indireta.

A essa altura, portanto, o jogo de pressões será intenso. O cenário mais provável é o da não decisão, o que leva o embate bipolarizado para o pleito de 2018, mantendo chance real de mais uma derrota para o PSDB e seu programa impopular.

O jogo é bruto.