FregaBlog

terça-feira, março 21, 2017

O Golpe da Traição

Medidas públicas devem ser analisadas em seu conjunto. Focá-las isoladamente distorce a análise e não se alcança a plenitude das políticas públicas e do modelo de Estado desejado. É similar a uma análise de balanço, para os mais afeitos, indicadores isolados dizem muito pouco.
Pois bem. O golpe de 2016 propõe adotar diversas medidas, ainda que atropelando processos e  opinião pública, comprando e arregimentando os apoios necessários a suas aprovações.
Dentre elas, a reforma da previdência, a trabalhista, da educação, com revisão dos conteúdos escolares e privatização das universidades públicas,  a dos marcos de nacionalização dos recursos naturais, a privatizações de setores controlados pelo Estado, a venda indiscriminada de terras a grupos estrangeiros, a demolição de setores nacionais competitivos, como engenharia e produção agrícola. São medidas articuladas, não nos iludamos.
Afinal, o que pretendem? Exercitei uma conjugação desses fatores para inferir o plano estratégico e o resultado que inferi é terrível.
As reformas nos campos trabalhistas e da educação promovem a redução da massa salarial e a formação de massas de trabalhadores subalternos. Nos dois casos,  gente disposta a trabalhar por qualquer preço, por uma questão de sobrevivência, e garantir que esa massa de escravos pós-modernos seja renovada permanentemente.
As privatizações asseguram aos grandes grupos internacionais o manejo dos setores mais competitivos, o controle da infra-estrutura e o domínio sobre as riquezas minerais, dentre elas a água, o petróleo do século XXI.
A demolição de fatores como o agronegócio - vemos agora o ataque à cadeia da proteína animal - forçará a queda dos prços das terras. Assim que aberta a venda indiscriminada, serão adquiridas a baixo custo pelos diversos países. Associado à privatização das águas, suas respectivas garantias alimentares estarão consolidadas.
Então a China, por exemplo, grande importadora de nossos produtos do agronegócio. Como agiria?
Adquiriria todas as terras que quisesse, e isso significa milhões de hectares. Importaria com subfaturamento todos os insumos e equipamentos necessários, de máquinas a fertilizantes. As sementes adaptadas já estão disponíveis pelos desenvolvimentos da Embrapa, a sequencia de seu melhoramento genético seria desenvolvido por eles mesmos. Traria todos os trabalhadores necessários, pois com as terceirizações valeria suas próprias condições trabalhistas.
A produção seria exclusivamente dirigida a eles, também de forma subfaturada, o que significa menor ingresso de divisas, ainda que tributadas por uma pauta.
Garantiriam assim sua segurança alimentar a um custo ínfimo.
E nós?
Nós perderíamos a capacidade industrial de máquinas, equipamentos e insumos. Faliriam.
Nós perderíamos a multiplicação local de pequenos produtores e empreendimentos, por incapacidade de competir.
Nós perderíamos os postos de trabalho que não fossem de mão-de-obra terceirizada por eles mesmos.
Nós perderíamos a capacidade de prover nossa própria segurança alimentar, passando a depender dos excedentes que eles nos destinassem.
É  demolição nacional, embora não seja esse o objetivo principal deles, mas somente um efeito colateral e o exemplo chinês somente personifica os interesses geopolíticos do capital em geral.  Para sufocar a insatisfação, governos fortes, repressivos. Sempre haverá traidores dispostos a massacrar seu próprio povo. Os golpistas atuais mostram isso, ainda que timidamente por enquanto. Porém, cada vez menos timidamente. Ontem Moro sequestrou um blogueiro e o mantém incomunicável até para seus advogados.

Não há tempo nem alternativa. Ou nacionalizamos todos os recursos naturais, inclusive a propriedade das terras, para qe sua exploração, ainda que em concessão ao setor privado, se exerça no interesse nacional, e derrubamos todas as reformas desse governo espúrio e traidor que usurpou o poder, ou em 30 anos seremos uma mistura do antigo Congo Belga com o atual Haiti.
Somente uma revolução socialista ainda poderá nos salvar como Brasil.

sábado, março 11, 2017

2018. O Ano que não Chegará?

Há uma aposta de que haverá eleições em 2018. 
Há muita esperança de que 2018 encerressa 
triste quadra que o Brasil atravessa. 
Será?


Mais do que uma aposta, há uma esperança no ar de que 2018 chegue e possa recolocar o Brasil nos trilhos, após o descarrilhamento golpista. Eu não aposto minhas fichas nisso. 
Há motivos para minha descrença.

Os golpistas têm pressa no cumprimento da agenda que lhes colocou de forma espúria no poder. Seu açodamento em sucatear, privatizar, quebrar o pacto social, rever o modelo do Estado desenhado a partir do Estado Novo é evidente.
Nunca uma quadrilha tão forte e determinada adonou-se do Brasil e valeu-se tanto das instituições para quebrá-las.. Uma quadrilha do mal, subserviente, capacho, colonial, 
Ah, mas haverá eleições em 2018 e o sol da democracia novamente brilhará. 
Esse brado incorre em pecados mortais. Não há democracia sem eleições, mas a recíproca não é verdadeira.

A sociedade,ainda reflete em seu comportamento medos infantis. Incorporaram-se ao DNA social, são transmitidos geneticamente. Mitos criados transformaram-se em bichos-papões reais. A ameaça comunista é um desses medos.
Porém, medos artificiais à parte, há um cenário real. E esse é assustador.
O Brasil foi tomado por traidores capazes de vender a própria capacidade de sobrevivência nacional. Não é só Temer, Parente, Padilha. Esses, somente a parte evidente da traição. Há muito mais gente nessa missão deletéria.

Em 2018, uma união entre Ciro Gomes e Lula seria imbatível para a reversão desse quadro. Os golpistas sabem disso e usarão todo seu arsenal cínico para  impedi-la. Lula, o ícone, será desgastado até que seja afastado. Ou por morte, ou prisão. Ciro sozinho não tem apelo popular para assumir. As baterias serão reforçadas contra Lula.
No momento que isso se configurar, a disputa se resumirá entre facções golpistas.

Ao PSDB, com suas lideranças finalmente desmascaradas como o grupo mais corrupto que já assumiu a condução nacional, restará a criação de um factóide com Dória. Enganará a muitos, como foram enganados seus pais e avós por Jânio e Collor.

Os apartidários nacionalistas ainda vendo comunismo até na bandeira do Internacional, cerrarão fileiras com Bolsonaro. Outro factóide a defender teses conservadoras do fundamentalismo evangélico e se fingir de nacionalista. Basta ver como votou para a preservação do pré-sal. 

E são esses os três grupos que despontam para 2018. Anulado o primeiro, o que vier somente dará continuidade ao esfacelamento nacional. 

Mas pode ainda ocorrer que nem haja eleições em 2018, 
Podem surgir grupos guerrilheiros que decidam resolver o assunto com franco-atiradores e bombas localizadas, encarcerando o time dos lesa-pátrias nas tumbas de sua covardia intrínseca, alegando legítima defesa nacional. Não estariam totalmente desprovidos de razão.
Pode surgir a corrente judiciária, em seu corporativismo onipotente, a considerar não haver condição política para uma eleição federal.
Pode surgir um movimento militar, fantasiado de cívico, a pegar esse baio desvairado pelas rédeas e dar-lhe rumo próprio.
Tudo pode acontecer.
Se 2018 é o ano que pode não existir, 2016 foi o ano que nunca deveria ter existido.

sexta-feira, março 10, 2017

Acabou-se o que era Doce

“O povo assistiu àquilo bestializado,
 atônito, surpreso,sem conhecer
o que significava. Muitos acreditaram 
seriamente estar vendo uma parada.” 
(Aristides Lobo, Diário Popular, 18/11/1889)

Antes de tudo, é importante estabelecer a diferenciação entre Golpe de Estado e Golpe de Governo, embora ambos se confundam no quesito quebra institucional. O Golpe de Governo trata da substituição intempestiva do governante. Já o Golpe de Estado, embora no mais das vezes também substitua o governante, altera o próprio Estado pactuado, em suas instituições jurídico-políticas, sem que os cidadãos sejam consultados. Ambos são impostos pela força, armadas ou não, mas sempre garantidas pelas armas.

Exemplificando:

O golpe republicado de 1889, tão bem retratado nas palavras de Aristides Lobo, foi um golpe de Estado. A população não foi consultada sobre a substituição do pacto até então vigente, ao qual assistiu sem conhecer o que significava. Da mesma forma o foi o golpe do Estado Novo, em 1937, embora nesse caso não tenha havido substituição do governante.
Já o golpe de 2015 mascarou-se inicialmente como um golpe de governo. As aparências institucionais teriam sido mantidas no limite necessário à troca do governante. No entanto, as ações subsequentes mostram claramente ter se tratado de um Golpe de Estado.
Democracias não trazem em si os instrumentos de prevenção, exatamente porque são as primeiras vítimas dos golpes. Sejam de Governo, sejam de Estado. Somente a força, seja das instituições, seja a armada são capazes de protegê-la. Nossas instituições são frágeis, resta somente uma alternativa.
No golpe republicano de 1889, a população e as forças políticas, bestializadas, levaram dois anos para reação. Quando reagiram, o regime usurpador já havia se fortalecido o suficiente para submetê-las pela força. Floriano foi o agente dessa tirania.

No golpe de 2015, a bestialização não é diferente da de então. O que se verifica é que o torpor na reação segue permitindo que o governo usurpador reforme o Estado a seu bel-prazer. Quando e se houver reação, já estará o novo regime consolidado e forte o suficiente para reprimi-la.
As instituições, nelas entendidas as judiciárias, parlamentares e de segurança, estão comprometidas com o golpe, garantindo que o estado brasileiro possa ser reformado sem que a população seja ouvida.  É o golpe de si para si.

Eu sou um adepto incondicional do Estado democrático de direito em sua acepção moderna. Mas entendo que democracias frágeis descambem para a anarquia e, daí, à tirania. E que transigir no uso da força para evitar que a própria força as destruam seja um impositivo da própria cidadania. É uma situação de legítima defesa pátria.
Não há tempo para aguardar outros 21 anos, pois o sucateamento é acelerado e irreversível. É necessária reação imediata, antes que a erva daninha lance raízes profundas e se fortaleça em sua ação de alienação dos recursos naturais e consolidação de Colônia.
Urge que o povo seja ouvido sobre o Estado que deseja, pois os seus representantes não o representam mais. A quebra institucional já aconteceu.

Nessa situação de ruptura, teria minha simpatia uma revolução que partisse das bases populares, um movimento espontâneo de massas. Infelizmente, a cultura brasileira atual é de latir sem morder, não é um povo sanguíneo que vá às vias de fato. Acovardado, dizem uns, para outros, somente acomodado. 
Pouco importa. Há de ter alguns que destoem desse comportamento tão nosso. E que poderiam resolver essa questão com relativa facilidade e muito risco pessoal. Como os maquis agiram na França ocupada. 
Mas não vejo possibilidade de ocorrer, pelo desânimo que abateu a sociedade.

Resta então às próprias forças armadas institucionais impedir este golpe contra o Brasil. Com o compromisso imediato e inadiável de consultar a população sobre o Estado desejado e convocar uma constituinte livre e soberana para refundá-lo.
Pois democracia não é um fim, mas um caminho a ser percorrido, aprendido, ajustado e incorporado, para que possa realmente se consolidar. E como um democrata convicto, lamento que tenhamos chegado a esse ponto de ruptura.

A dúvida é se ainda existe brio e suficiente comprometimento com o Brasil. O conformismo com a prisão do Alm. Othon me sinaliza que não.