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quarta-feira, novembro 15, 2023

Por Una Cabeza

 

Qual o cenário mais provável para o Cone Sul para os próximos anos?
Vou fazer um exercício a partir das eleições argentinas na semana que vem.

Antecedentes.
Desde que o presidente James Monroe resolveu que os USA têm o direito de interferir na vida e soberania dos países da América Latina, aquele país não se conteve em intervir, cooptar agentes e atores, enviar tropas, mudar governos e fomentar golpes de estado. Quanto mais perto o país, parece que mais intervencionistas foram. México, América Central e Caribe foram suas vítimas preferenciais em número de ocorrências.
Dentre os distantes temos o Cone Sul, com poucas intervenções, alguns golpes de estado. Coisas mais leves do que intervenções e sequestro de territórios, como no México, Colômbia e até em Cuba, por exemplo.

Mas a realidade é que desde o governo Carter as intervenções se reduziram, tornaram-se mais sutis, conjugando-se com a onda avassaladora do neoliberalismo de Reagan, o sequestro de riquezas assumiu nova versão.

E os países conseguiram umas décadas de paz, submissa e alinhada, mas de paz.
Mas o mundo gira e a Lusitana roda, dizia o chavão inesquecível do portuga que inovou no daqui pra lá, de lá pra cá nesse brasilzão inquieto.
Nas últimas cinco décadas, tudo mudou, o mundo girou umas vinte mil vezes e a Lusitana continua a rodar.

Um mundo multipolar ensaia os primeiros passos, o império hegemônico dá sinais de fadiga, contaminado por si mesmo, outros já galinhos cantam no galinheiro com o galo velho enfraquecido.
O Mercosul saiu do papel. A União Européia arquivou séculos de desconfiança e mágoas comuns e recíprocas, todas ainda tisnadas com o sangue derramado. Por nada. Os inimigos de ontem viraram sócios, ainda que submissos ao império decadente.
Nesse meio tempo, a América do Sul teve os laços entre os vizinhos estreitados, quase nenhuma confusão e talvez a única área subcontinental sem forças armadas estrangeiras permanentes, uma base militar que seja dos antigos países metrópoles, ou dos novos donos do mundo que emergiram no pós-guerra.
A América do Sul teve espaço para se ajustar e resolver suas questões pela diplomacia. Atribuo muito disso ao próprio Brasil, o maior país do subcontinente em tamanho, força, economia, população etc, cuja opção pacifista na solução de questões externas é notória e que formou até uma escola de diplomacia. Esses princípios de respeito e não intervenção, bem como qualquer aventura bélica de conquista são expressamente proibidas constitucionalmente.
O fato é que com maior ou menor proximidade ideológica entre governantes, a América do Sul passou os últimos tempos ao largo de tensões críticas. Até porque países, feliz ou infelizmente, não conseguem se mudar e deixar pra longe eventuais vizinhos incômodos.
A Lusitana já avisou que esse tipo de mudança não faz.

Consequentes.
Estamos na semana decisiva para a eleição na Argentina, nosso maior vizinho e parceiro comercial e com quem o Mercosul obteve a vitória de eliminar as antigas e profundas desconfianças comuns, advindas ainda do período colonial.
Há dois candidatos.
Um outsider da extrema direita radical reacionária, em grau de loucura semelhante ao que nos livramos há um ano, e outro com trajetória política conhecida e que pretende encontrar, dentro dos limites democráticos, o encaminhamento de soluções para a enormíssima crise que a Argentina atravessa, ainda oriunda de governos neoliberais que até a dolarização da economia fizeram.
Estão ambos pau a pau e a Argentina dividida. O vencedor, a se acreditar nas pesquisas, será decidido no photochart.
Por una cabeza, só para evocar o maravilhoso tango de Gardel.

 O doidão antipolítica e antidemocracia, o tal Milei, tem como plataforma demolir tudo para reconstruir. A gente já viu aventuras semelhantes, nunca deu certo. Mas isso é coisa deles lá, que escolham com a cabeça, não com o fígado.

Já avisou que não quer contato com o atual governo do Brasil, alinhado que é à extrema direita brasileira. Que vai implodir o Mercosul, vai virar tudo de pernas pro ar e dane-se.
Logo agora que, daqui a dois meses, fará parte do Brics.

Mas só imaginem se esse cara, em sua obra de demolição, decidir pelo alinhamento automático ao império decadente, o mesmo que tem encontrado algumas dificuldades com as veleidades soberanas dos países da América do Sul. Até a Colômbia, país que já foi invadido e esbulhado em território pelos Estados Unidos e há até pouco tempo seu alinhado incondicional, experimenta novas posturas.

E se a Argentina em novas mãos resolver ceder território para implantação de base militar do Otanistão como forma de pressão aos demais países?
Não se pode perder de vista que a ampliação do Brics contraria as intenções do stablishment, transformar a Argentina num ovo de serpente contra o atualmente chamado de Sul Global é cenário que não pode ser afastado.
E se os Estados Unidos instalarem base militar no Cone Sul, haverá algum país que se proponha a ceder à China, império emergente, à Rússia, com seu poder nuclear avassalador, ou a algum outra potência inter
continental a instalação também de base militar?
Isso traria a guerra geopolítica da troca do império dominante para a América do Sul? Passaria a ser objetivo militar estratégico? Quase uma Ucrânia entre a CE e a Rússia?
Como será que a comunidade sub-continental irá reagir e especialmente o Brasil frente à nova ameaça?
Estreitará os laços ainda mais com o chamado Sul Global? Baixará a cabeça e engolirá o fato consumado?
Como será nosso mundo a partir da semana que vem?
Pelo sim, pelo não, acho que já poderíamos pensar em substituir nossos marechais por gente competente e desenvolver técnicas de combate não convencionais para poder garantir nossa soberania.
E talvez nem dê tempo para formá-la.

sexta-feira, novembro 10, 2023

Capítulo XXV — Mba’ita (Mulheres de Bronze e Aroeira)

 A notícia era preocupante. Os portugueses, com suas artimanhas e composições, expandiam o domínio sobre territórios espanhóis. Após a descoberta de ouro no Mato Grosso, o caminho das monções consolidou-se, estabelecimentos fixos foram implantados por pioneiros e aventureiros, vilas surgiam. E o rio Paraguai era vital, o melhor caminho. Não à toa, já haviam firmado pé na margem direita, uma forma de assegurar sua livre navegação e mantê-la conforme seu interesse.

Agora fundavam um forte também na margem direita, cada vez mais ao sul. Felizmente, pensava o  governador-geral   da  província do Paraguay  Pedro de Melo, haviam se enganado na execução das ordens. O capitão Mathias Ribeiro da Costa, confundindo a descrição, o havia construído a quase trezentos quilômetros ao norte da posição projetada. Tomara o Pão de Açúcar pelo morro da Marinha, errara o Fecho dos Morros.

De pouco adianta o domínio do montante sem que a jusante esteja controlada, pensou Pedro de Melo. A neutralização da ganância portuguesa somente seria barrada se a navegação rio acima pudesse ser contida.

Ao sul da Nossa Senhora da Assunção, aproximadamente umas dezenas de léguas, o rio fazia uma curvatura côncava aguda, num sítio chamado pelos indígenas de Mba’ita. 

Naquele ponto a navegação poderia ser totalmente controlada. Decidiu guarnecê-la.

 Voltavam os dois jovens de San Antonio com as montarias a passo, em conversa animada. Ela, Mme. Guillemot, casada com Philippe-Eugène Guillemot, cônsul francês acreditado em Assunção, jovem  senhora na  flor da beleza madura, cabelos negros caídos na face rosada pelo sol, mestra na arte da sedução e dos amores furtivos. Ele, Clement Hopkins, irmão do cônsul norte-americano e industrial no Paraguay. Haviam ido a passeio naquele sábado a San Antonio, onde os Hopkins possuíam uma manufatura de tabaco, distante pouco mais de duas léguas de Assunção.

Haviam percorrido cerca de uma hora, lhes parecia cinco minutos na conversa entremeada por risos e galanteios. Estacaram numa curva da estrada. Havia uma boiada a caminho da Capital impedindo a passagem.

Conduzia a boiada o soldado cavalariano Augustin Severo. Hopkins determinou que o boiadeiro desocupasse a estrada.

- Índio vagabundo, afasta essa boiada imediatamente do caminho da senhora consulesa e do cidadão americano, gritou. Sob o olhar estupefato do soldado, ainda aos gritos, tomou a iniciativa de dispersar a boiada, com tiros de pistola em meio aos xingamentos pelo desaforo. Não gostou Augustin, interpelou-o indignado com as ofensas e com o estouro da boiada. E desferiu-lhe um planchaço de sabre no ombro.

Com o susto e a dor, Clement deu de rédeas e voltou, acompanhado da Mme. Guillemot para o estabelecimento em San Antonio, onde seu irmão, o cônsul, decidira passar a noite. Ao chegar lá relatou o ocorrido com as tintas mais negras de sua imaginação e vaidade masculina ferida perante sua pretensa conquista. Passaram a noite em San Antonio os três. 

- Não me impeçam, sou o cônsul americano e exijo falar agora com o presidente, irrompeu na Casa do Governo aos gritos o jovem vestido com roupa de montaria e um rebenque na mão. “Saiam da frente”, bradava enquanto abria caminho aos empurrões. Carlos López estava em sua mesa de trabalho quando a porta abriu-se bruscamente.

Em meio a vozes alteradas e insultos sobre como um soldado escuro de um país semiprimitivo atreveu a bater-se nada menos com o irmão do cônsul dos Estados Unidos, exigia pronta reparação pelo desaire, um pedido público de desculpas para lavar o ultraje recebido.  

 López, surpreendentemente controlado e calmo apesar das ofensas recebidas, disse-lhe que apresentasse suas queixas a Jose Falcan, Ministro de Negócios Estrangeiros. Mas a arrogância e intempestividade não ficariam impunes. 

López cancelou as credenciais diplomáticas, determinou o encerramento do estabelecimento em San Antonio e anulou uma negociação em andamento para a aquisição de terras por Hopkins. 

Expulso do país, Hopkins embarcou num navio da armada americana que estava fundeado em Assunción e partiu rumo a Buenos Ayres. Em Corrientes encontrou-se com o senador americano Buckalew, portador do tratado de paz e comércio firmado entre o Paraguay e os Estados Unidos, para ratificações protocolares. O capitão do navio explicou que não poderia conduzi-lo à Assunção, face às recentes desinteligências diplomáticas e Hopkins apresentou suas queixas e pleitos de reparação.

O assunto repercutiu no Congresso norte-americano de forma surpreendente. Uma comissão parlamentar recomendou que se fizesse uma demonstração de força, como forma de exigir do governo paraguaio as satisfações aos Estados Unidos e aos interesses de seus cidadãos, a quem cabe defender a integridade e bem-estar onde quer que estejam.

Em consequência, os Estados Unidos deslocaram uma poderosa frota para exigir a reparação do governo paraguaio ao insulto pretensamente recebido por Hopkins. A frota compunha-se de 12 navios a vapor e 7 a vela, mais um navio hospital, num total de 20 embarcações guarnecidas por 2.500 soldados e 200 canhões. 

Até então, foi a frota mais poderosa que havia zarpado dos Estados Unidos para atuação bélica no estrangeiro.

Em escala no Rio de Janeiro, o governo brasileiro, por meio de seu ministro Paranhos, tentou dissuadir o caráter belicista e punitivo, sem sucesso.

Prevenido do fato, Carlos López decidiu guarnecer Humaitá com 12.500 homens e mais uma reserva de 16.000, como forma de proteger Assunción da invasão anunciada.

Chegando a esquadra punitiva em Buenos Ayres, a notícia da impossibilidade de ultrapassar Humaitá e chegar a Assunción abalou o ímpeto bélico. A certeza de que encontrariam sepultura nas águas barrentas do rio Paraguai e o vexame de uma derrota certa da grande potência por um país considerado inculto e fraco, derreteu a arrogância e abriu espaço à mediação pelo presidente da Argentina, Urquiza, que mantinha boas relações de amizade com o Paraguay.

 Um acordo de amizade foi finalmente firmado entre o Paraguay e os Estados Unidos e frustrou-se a invasão militar americana, objetivo da expedição. 

Também, pela primeira vez e em definitivo, justificou-se a ação do espanhol  Pedro de Melo ao fortificar Mba’ita há quase um século. Só não foi contra os portugueses, como havia imaginado. 

Humaitá nunca em sua história haveria de ser derrotada pelas armas. E quando vencida pelo sítio da Tríplice Aliança, caiu em pé.