FregaBlog

sábado, maio 30, 2009

Defuntos Insepultos

Recebi por e-mail, imagem de uma possível ficha corrida da Min. Dilma, atribuída ao DOPS. Em entrevista, assisti à Ministra refutando-a como montagem e interpelando a Folha, que a teria estampado em primeira página. Não sei até onde isso tudo é verdade, tanto de um lado como de outro.
O que penso que sei, e estou convencido disso, é que cicatrizes do golpe de 64 ainda sangram vez em quando. Pequenas hemorragias, amplificadas por sectários de lado a lado.
Visto pelo aspecto estritamente legalista, o golpe de 64 foi uma ruptura institucional, uma violência política de desrespeito às urnas, uma insuborinação hierárquica.
Já pelo foco geopolítico, não esqueçamos que o mundo bipartido por um Tordesilhas moderno, negociado em Ialta, valia-se de um embate ideológico como pano de fundo para a repartição das riquezas, influência e poder. A história registra muitas analogias, ora por nacionalismo, ora por religião, ora por fidelidade ao rei. No pós-guerra, era ideologia a máscara do movimento.
Quanto ao desenvolvimento nacional, os governos golpistas consolidaram o ciclo JK e é inquestionável o salto dado pelo Brasil no chamado milagre brasileiro. Embora suas reais mazelas, potencializadas pelas fictícias alardeadas pelos críticos do regime implantado.
Sob o aspecto sociológico, os movimentos antagônicos, prós e contra, não lutaram com armas abertas, mas nos subterrâneos. Em um lado e noutro, crimes de sangue foram praticados.
Dilma, participante de um desses movimentos, alega nunca ter se envolvido em crimes de sangue. É possível que não o tenha feito diretamente porém, de forma indireta, como negá-lo? Agora que emerge com uma real possibilidade de ser eleita presidente da república, começam as tentativas de classificá-la como bandida e terrorista.
Faço, então, uma confissão de fé.
Assumo minha afinidade com o golpe de 64, tanto nos aspectos culturais, familiares e conjunturais. Mas daí recusar a virar a página e ler novos capítulos, a reviver o passado e abdicar do senso crítico, da análise fria, há um fosso abissal.
Com exceção de Lamarca pelo uso da farda nas suas ações subterrâneas - traidor stricto sensu que foi - e um ou outro caso menos notório, não há diferença sensível entre um grupo e outro. Ambos lutavam por um ideal de Brasil, mas manipulados por líderes ocultos, sem coragem de expressar seus reais objetivos na luta. Ambos cometeram crimes de sangue e se valeram do terror como arma. Direta ou indiretamente, porque executado por suas respectivas corporações.
De fato, as lideranças é que se dividiam entre a vassalagem aos Estados Unidos ou à União Soviética. A legalidade, ou o legalismo, eram somente fator de motivação para o engajamento e as idéias, longe de serem confrontadas pelo debate, o foram com o combate. Na ingenuidade primitiva e absurda de quem crê que a veracidade e justiça das causas são apuradas em campo de batalha.
Decididamente não o são!
Dilma, novinha (ela foi um dia, por incrível que pareça) participou de um desses movimentos. Como tantos outros em ambos os lados, que bom que foi e que sobreviveu o tempo para amadurecer, para assumir que a fé - qualquer que seja a causa - pode ser debatida, nunca imposta.
O fato é que ela pensava, provavelmente, estar lutando contra os que romperam as instituições para assegurar mais do mesmo. Tal qual o lado oposto pensava impedir.
Volto um pouco atrás e relembro aos dois ou três leitores deste blog fatos como a criação da Petrobrás, hoje orgulho nacional a ponto de ser alvo de uma CPI proposta por quem não a conseguiu privatizar totalmente. Criação essa que levou Getúlio ao suicídio.
Vamos fazer de conta que os revoltosos na ocasião tivessem alcançado sucesso no golpe de estado que tentaram; que Carlos Lacerda tivesse assumido a presidência e que a insubordinação militar da ocasião prosperasse. Os que combatessem o golpe seriam subversivos, terroristas ou até anarco-terroristas, como se fosse possível ser anarquista e terrorista simultaneamente?
Juarez Távora e Eduardo Gomes, para citar dois dos que pegaram em armas contra as instituições e que, posteriormente, candidataram-se à presidência, não puderam ser livremente votados - e derrotados - pelos próprios mecanismos que combateram?
E Bento Gonçalves, herói gaúcho e patrono de cidade e avenidas Brasil a fora, teria também sido subversivo e terrorista? Ao menos, passada a luta, não foi assim que Caxias o classificou. Poucos exemplos de uma infinidade que ajudaram a construir o Brasil que temos.
Será diferente com Dilma? Revolver esse passado repetindo os mesmos conceitos e preconceitos de 50 anos atrás, as mesmas mentiras e os mesmos pretextos, contribui para nossa evolução como país?
Há 50 anos, padres declamavam do púlpito o nome de candidatos que um bom católico não deveria votar por serem comunistas, comedores de criancinhas (assadas, naturalmente, pois não se tratava de orfanatos) e cuspidores na cruz. Os fiéis, horrorizados, muitas vezes optavam votar em reconhecidos larápios, bandidos sociais, mas que hipocritamente defendiam a tradição, família e propriedade em seus discursos, desde que comungassem todos os domingos.
É isso que pretendemos repetir?
Não interessa se os poucos leitores gostam ou não da Dilma, se têm urticárias ao pensar no PT. Interessa sim é que não percam a capacidade de avaliar fatos com a maior isenção que consigam; que não deixem turvar-se-lhes os olhos para a análise crítica.
Dilma é gatuna? Sei lá, mas nunca houve qualquer denúncia nesse sentido. A ela, ao menos, o benefício da dúvida. Acaso é vagal, coçadora compulsiva, enxugadora de gelo e empacotadora de fumaça? Não é essa a visão que tenho. Ao contrário, Dilma é uma pessoa trabalhadora. Incompetente, quem sabe? Também não me parece. Covarde? Fraca? Pulsilâmine? Que outros adjetivos atribuir?
Quanto mais leio, mais me convenço que sobram acusações inconsistentes, como se Dilma pudesse voltar o tempo, recriar a União Soviética e subordinar o Brasil a ela. Depois, apertar o botão da máquina e... de volta para o futuro.
Muito tem errado o atual governo, do qual é destacada artífice. Parte deles é decorrente do modelo político adotado e aplaudido por nós em 88, todos sabemos quais são. Parte pelos afagos à base de apoio popular, que propicia o uso de movimentos sociais por bandidos da pior espécie. Outros, por medo de represálias de movimentos de opinião internacional fomentados por grennpeaces da vida e que vão desde a amplitude de poder atribuído ao IBAMA, INCRA e FUNAI, três dos cânceres que nos afligem, até reservas tipo Raposa.
Muito também tem acertado o governo e, pela primeira vez na fase republicana de nossa história, o Brasil recebe respeito soberano no conjunto das nações. E também pela primeira vez houve movimento de reversão da miséria e mais justiça na repartição do bolo do desenvolvimento.
Quem a critica somente com base no passado, quem sabe prefira também um retorno a ele. Um retorno à doação do patrimônio nacional aos interesses estrangeiros. Quem sabe anseie por uma nova Vale, para privatizá-la novamente. Ou tenha interesse na desarticulação da inteligência da pesquisa e tecnologia nacionais, como aconteceu com as telecomunicações. Quem sabe, veja boa oportunidade de rifar de vez a Petrobrás e o Banco do Brasil? A Eletrobrás é troco.
Felizmente Dilma lutou e sobreviveu. Outros de seu time sucumbiram. Herzog, intelectual; Jango, político; Fiel Filho, colarinho azul; Honestino, estudante. E muitos outros.
Regra que não valeu, é claro, para o filho do general Leônidas Cardoso, avisado para escafeder-se enquanto era tempo e podia usufruir de sua aposentadoria precoce, ainda que com as calças borradas.
Naquele tempo, assim como agora, também havia favorecimentos familiares.

terça-feira, maio 26, 2009

Qüé-qüé

Com atração irrestível por holofotes e microfones, o Dr Mendes não deixou passar em branco a oportunidade de dar seu pitaco político, abandonando a prudência do juiz ao antecipar opinião sobre matéria que poderá ser levada ao tribunal que preside.
O Dr Mendes declara-se contrário a reeleições sucessivas e ainda, didática e antropologicamente, complementa que estamos aprendendo que democracia não se limita a eleições.
Brilhante, como sempre, no que se trata do óbvio pirotécnico.
Dr Mendes, um dos artífices do processo que culminou com a implantação inédita e desastrosa da reeleição no Brasil, não explicou a razão de estipular a causa de uma reeleição ser justificável, ao contrário da terceira, quarta ou enésima.
De minha parte, pura e simplesmente não haveria reeleição. Sua ocorrência inativa o primeiro e o último ano dos mandatos. No primeiro, é executado o orçamento aprovado no governo anterior. No último, o mandatário dedica-se à reeleição. Assim, o mandato vai pras cucuias.
Sua excelência, em contraponto, nada opina quanto à reeleição sucessiva e infinita enquanto dure para o legislativo. Não é reeleição, Sr Ministro? E quanto à vitaliciedade de cargos como o seu, presente de lealdade do governante desleal, de quem foi destacado advogado?
Coisas de tucano com bico de pato.

segunda-feira, maio 25, 2009

Casa do Genro

Tenho muito recebido críticas sobre uma possível visão cáustica acerca das atitudes dos agentes públicos. Em especial, de que desconheço, ou procuro desconhecer, as razões de seus atos, decretos e resoluções.
Nesse caso, porém, por mais que me esforce, não consigo ver nada além da alienação conjugada com a prepotência e má-intenção.
Ontem, na Record, Paulo H Amorim apresentou pequena reportagem sobre ato que estabelece quotas de multas a serem aplicadas pelos policiais rodoviários, além de sistema de méritos baseados também no cumprimento dessas metas.
Tenha vindo de onde for, recebeu o aval do Ministério da Justiça e até os policiais rodoviários estão se insurgindo contra essa atitude prepotente do estado policialesco em que nos estamos transformando.
Quotas de multas, vejam só!
O agente público tem assegurado diversos poderes, dentre eles a presunção da verdade em suas declarações. E essa verdade estará comprometida com a pressão pelo cumprimento de quotas. Baseados ou não na verdade, notificações de multas serão expedidas, pois estará assegurado o aforisma "arde no Tadeu, mas não no meu". Digno da Stasi ou KGB, da qual o Sr Ministro por muito tempo foi vassalo.
Que a PRF é uma entidade inútil não tenho dúvida alguma. Mas agora, para suprir os cofres corporativos (e talvez individuais), institui-se o comércio de multas e o policial, de agente público, vira vendedor. Vendedor de um produto ao qual o comprador não quer comprar, não pode recusar e resta-lhe somente pagar, sem comprometimento ao salário fixo compulsoriamente já pago mensalmente ao dito vendedor.
Essa corja dos trans, com o apoio inconseqüente da burocracia ministerial e amparada pela autoridade dada ao agente público descaracteriza totalmente a sociedade democrática e o estado de direito ansiado por todos nós.
As multas têm a mesma natureza do trabalho escravo. Alguém, o penalizado, sofrendo o confisco de seu rendimento, é submetido à uma jornada de trabalho escrava, ou seja, trabalhou de graça.
Comparem uma multa de R$ 105,00 aplicada a um cidadão que aufira 1 salário mínimo mensal. Mais de 20% das 240 horas de sua jornada teriam sido confiscadas pelo estado. Mais de uma semana trabalhou de graça. É ou não escravatura? Ainda mais se abstrata, inverídica, baseada somente no cumprimento de quotas comerciais.
Assim, só nos resta lembrar do tempo em que nosso Brasil era considerado a casa da sogra.
Piorou. Hoje é a casa do Genro.

quarta-feira, maio 20, 2009

Quero ser Negro

Hoje estará sendo votado na Câmara Federal o projeto do governo que decidirá a nossa brasilidade futura. Discute-se se o Brasil será composto ou segregado por etnias. Se o Brasil existirá solidário ou se os brasileiros serão distingüidos e aglutinados pela cor de sua pele ou sua origem étnica.
O assunto é realmente sério.
Esse Estatuto de Igualdade Racial, a meu ver contrariando a própria Constituição que define que todos são iguais independentemente de sua raça, é uma tentativa insana de materializar os recalques individuais e erros históricos. Não bastasse a utilização dos critérios raciais para a definição de reservas indígenas, de quotas em algumas universidades etc, agora os querem para tudo.
Sábia foi a decisão, ainda durante o regime militar, que aboliu inclusive a classificação racial nos documentos de identidade. Nivelar a todos como brasileiros é o que agora querem revogar. O nivelamento passa a ser o privilégio de castas.
Há quotas eticamente mais corretas e moralmente sustentáveis. Reduzir os desequilíbrios sociais considerando esses desequilíbrios, por exemplo. Nesse particular, erra muito o atual governo, talvez induzido por meia dúzia de fanáticos alienados, o que é a pior forma de fanatismo.
Ainda assim, se essa insanidade não for barrada na Câmara, no Senado e no Supremo (onde irá certamente ser questionada), faço uma lista de outros itens a terem reserva para preenchimento por critério racial de 70% das vagas (70% é o número considerado de afrodescendentes no Brasil):
- Presidente ou o Vice-Predisente da República
- Ministros de Estado
- Cientistas da Fiocruz e do Butantã
- Médicos dos sistemas público e privados, em especial os encarregados de cuidar da saúde governamental, incluindo a químio da Ministra
- Oficiais e praças das forças armadas
- Passageiros dos diversos transportes públicos
- Pilotos de aeronaves em geral, inclusive do Airbus presidencial

Além disso, para preservar a reserva, devem ser proibidos também os casamentos inter-raciais, sem o que as quotas terão de ser revistas em curto espaço de tempo.

Ou seja, seria bom se esse projeto fosse tão somente uma sandice a mais. Sinceramente, gostaria poder atribuí-lo somente à ignorância, ao obscurantismo, à alienação. Mas não consigo.
Não há como não perceber a má-intenção, o crime de lesa-pátria, o objetivo de destruição da sociedade brasileira, jogando irmãos contra irmãos, fomentando o ódio e a segregação. Haverá empresas que, doravante, recusarão negros em seus quadros? É possível, dado que racismo é uma estrada esburacada de mão dupla.
Em resumo, tomara que a lucidez e o patriotismo preponderem na avaliação de suas excelências e que esse projeto seja definitivamente recusado e mandado à lata do lixo. Que é, afinal de contas, o seu melhor lugar.
Caso contrário, quero saber onde requeiro, em que órgão, corredor ou gabinete, minha classificação como negro. Nem que faça tatuagem de corpo inteiro, se necessário.
O que não quero é ser brasileiro de segunda classe.

quarta-feira, maio 13, 2009

Xixi Ecológico

Verdade! Deu nos telejornais de hoje: ONG recomenda que se aproveite o banho para aliviar a bexiga. E um infectologista avalizou a recomendação, afirmando que não há perigo de ninguém se infeccionar com isso.
Segundo a ONG, isso pode economizar até 60 litros de água por xixizada nas patentes, o que, convenhamos, não é pouco. De repente a moda pega e até os número dois podem ser executados no banho, com a economia adicional de não sei quantas árvores pelo não uso de papel higiênico.
Tudo muito ecológico. Claro que, apesar dos juramentos do facultativo, garanto que alguma micose haverá no caldo de cultura fúngica. Mas isso é mero detalhe.
Desde que anunciaram que beber os próprios efluentes nefrológicos faz bem à saúde, não duvido de mais nada nessa matéria.
E assim as pautas jornalísticas, na falta de notícias melhores, contribuem para o desenvolvimento da educação nacional.

segunda-feira, maio 04, 2009

Acidentes de 1º de Maio

A CBN Brasília veiculou, hoje, entrevista com o policial rodoviário Deluca Barbosa, um dos inspetores da briosa PRF.
Segundo ele, o número de acidentes neste feriadão superou o do ano passado e ele, altruisticamente, propõe-se a trabalhar ainda mais para sua redução. Fantástico.
O filósofo dos extintores de incêndio declarou, ainda, um número não significativo de motoristas autuados com algum bafo de álcool, oportunamente taxados de bêbados para as estatísticas.
Após surpreendente demonstração de erudição, acusando-os de alcoolemia (sic), pôs a culpa dos acidentes no excesso de velocidade, propiciada pelas boas condições das rodovias. Segundo o fiscal de ipeveás e de estepes, depreende-se, fossem as estradas esburacadas, menos acidentes ocorreriam.
Mais uma vez, fantástico.
Fico eu a pensar sobre a real necessidade dessa corporação, muito bem paga por sinal. Quanto mais penso, mais me convenço de sua absoluta inutilidade. Muito ganharíamos se os postos rodoviários atuais fossem substituídos por paramédicos e guinchos. O policiamento pode muito bem ser realizado com as forças policiais de cada estado. E o atual contingente, para não ficar desempregado (até em razão de sua estabilidade), que fique incorporado à Polícia Federal, mesmo que na fiscalização de escadas e corredores, se lhes faltar competência para outra coisa.
A não ser que o tal Deluca candidate-se a pilotar uma ambulância, no que seria muito mais útil à sociedade.