FregaBlog

quarta-feira, julho 29, 2020

Poder Militar

A concepção atual dos exércitos nacionais talvez não tenha dois séculos, gradualmente adotando um corpo permanente e reservas capacitadas.
Da mesma forma, seu objetivo deixou de ser a defesa dos interesses do Soberano e adquiriu o conceito de defesa nacional, ou de seus interesses definidos pelos seus governantes.
No mundo globalizado e cada vez mais assimétrico na capacidade bélica, este conceito está sendo alterado rapidamente, ninguém consegue ainda vislumbrar exatamente em que se transformará.
A grosso modo, o poder militar ofensivo e defensivo pode ser classificado em quatro níveis básicos.

No nível 1 podemos incluir os países em que  suas forças armadas são capazes de combater somente sublevações e desordens internas. Por essa razão, representa facções políticas, imiscui-se e se mistura com as diversas correntes do poder civil.
São forças com poder muito limitado de defesa de agressões externas promovidas  exclusivamente por outros países fronteiriços do mesmo nível.
Seu poder é local.
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No nível 2 estão as forças capazes de repelir agressões externas do mesmo nível, ou inferior, além de impor seus interesses aos países fronteiriços do grupo 1. Ainda se verifica, embora em menor escala, uma contaminação do poder civil por elas.
Seu poder é regional.

No nível 3 se encontram forças capazes de, além de repelir agressões externas de mesmo nível, impor seus interesses aos países dos grupos inferiores. Já não existem interferências maiores no poder civil. Incluo nesse grupo a França, Alemanha, Reino Unido, como exemplo.
Seu poder pode ser exercido contra países não fronteiriços, inclusive intercontinentais.

No grupo 4 há o pequeno grupo de países em que seu poder, além de repelir invasões territoriais, são capazes de impor seus interesses de maneira global e intercontinental.
Nesse seleto grupo despontam os USA, como maior potência militar, a Rússia, a China.
Neles, tal como no grupo anterior, as forças armadas não interferem no poder civil.
Trata-se de uma classificação primária, sem rigor técnico, apenas para fins de raciocínio, sem considerar os demais componentes do chamado Poder Nacional.

O Brasil, em sua Constituição já em seus Princípios Fundamentais, abandonou qualquer ato de guerra intervencionista, limitando-a a casos de agressão estrangeira, ou seja, em autodefesa.
Em qual nível estaria o Brasil? No grupo 2.
Por essa razão é tão importante para nós a integração regional, também definida como princípio fundamental em nossa Constituição. A desarmonia com nossos vizinhos fronteiriços seria a única possibilidade de guerra viável, não assimétrica. Com fronteiras definidas e pacificadas, a integração regional é nossa garantia de paz imediata.

Encontra-se em debate a ampliação dos gastos militares do Brasil de 1,3% para 2% do PIB, R$ 7,3 trilhões em 2019.
O orçamento do Ministério da Defesa se manteve na ordem de R$ 100 bilhões entre 2010 e 2018, chegando a um mínimo de R$ 69 bilhões em 2018 e R$ 70,1 previstos para 2020, nível semelhante ao de 2006.
A proposta elevaria o montante para pouco mais de R$ 140 bilhões. O argumento é nos prepararmos contra intervenções externas. 
Um propósito justo, mas justificável?

As únicas ameaças para as quais não estaríamos teoricamente preparados viriam dos países dos grupos 3 e 4, isoladamente, ou do 2 em bloco, pela extensão de nosso território e dificuldades para combate em várias frentes. Contra essas, a única providência realmente eficaz é o fortalecimento de relações harmoniosas e solidárias com nossos vizinhos.
E contra os do grupo 3 e 4?
O orçamento da Defesa dos Estados Unidos para 2020 alcança a ninharia equivalente a R$3,8 trilhões, mais da metade de nosso PIB. O da China, na ordem equivalente a R$ 500 bilhões, mas não são dados muito confiáveis, seja pela transparência, seja pela conversão de moedas. Da Rússia, algo em torno de R$ 300 bilhões.
É de se considerar também que, no nosso caso, esse orçamento inclui os gastos com pessoal e pensões, esses sensivelmente majorados em 2019 e em 2020, como pretendido. Não tenho elementos para afirmar que nos demais países também se incluam naqueles valores os salários, pensões e outros penduricalhos tão nossos.
Enfim, sair do patamar atual de 70 para o pretendido 140 não nos incluiria no grupo 3.
Eu me valho de Sun Tzu, quem não conhece a si e a seu inimigo tem derrota certa.
Com R$100 ou R$140, continuamos a não poder fazer frente nem sequer a países do grupo 3 numa guerra defensiva.

Há um sonho escatológico na necessidade de nuclearização. 
Armas nucleares só têm sentido se houver possibilidade de logística para seu uso.
Por esse motivo, os Estados Unidos não as utilizou contra a Coréia, apesar da vontade de McArthur, pois a Rússia já dominava também a tecnologia e teria áreas populosas do território estadunidense a seu alcance, diferentemente dos próprios Estados Unidos que não teria raio de alcance suficiente para lançar em áreas estratégicas soviéticas.
O aperfeiçoamento de mísseis balísticos, além dos de cruzeiro, não significou uma vantagem isolada, pois ambas as potências mantiveram-se equivalentes. A corrida espacial também não os diferenciou sensivelmente.
E nós? Ainda que dispuséssemos da tecnologia, o que até estava a caminho antes do golpe geopolítico de 2016, teríamos alguma vantagem em ter um arsenal nuclear?

Decididamente não!
Só teríamos possibilidade de lançá-lo contra nós mesmos, em nosso território, ou no máximo contra algum vizinho, o que seria também um suicídio.
De forma alguma impediria, ou inibiria, uma ação do grupo 3 ou 4 contra nós.


Afinal, o que nos ameaça? Nossos vizinhos? Claro que não.
Interesses do grupo 3 ou 4?
Em parte, sim, mas com nosso poderio bélico, não sustentaríamos qualquer combate por mais de 15 dias, e com uma destruição impensável.
Além do mais, os interesses desses grupos foram atendidos sem disparar um tiro.
Com 
ainda poucas exceções, TODAS nossas riquezas minerais estão em suas mãos, exploram o quanto queiram delas e a parte que nos toca nem sequer cobrem os danos ambientais permanentes que nos deixam. Além, claro, de nos garantir as  divisas que nos permitem comprar deles próprios os produtos industrializados e com maior tecnologia.
No ano passado foi-lhes entregue de mão beijada uma base nas portas da Amazônia, a Base de Alcântara. E tantas outras quantas queiram lhes serão entregues, trazendo para nós em particular, e para a América do Sul no geral, o próximo cenário de suas disputas globais.
Além do mais, nossas forças de defesa são adequadas para nos manter no grupo 2. 
O que queremos, afinal?
Manter uma força armada suficiente para proteger os interesses dos países do grupo 3 e 4? Servirmos de guarda-costas a seus interesses? Decididamente não precisam disso.
Ou, quem sabe, imaginarmos ter força suficiente para o plano de passar a boiada, de destruir a Amazônia e transformá-la em pastagem e soja pela legalização das grilagens?
Sim, destruir a floresta tropical representa uma ameaça global e que pode sofrer represálias. Enquanto a preservarmos, não estaremos ameaçados, mas só enquanto a preservarmos. Isso porque impacta globalmente no clima, apesar do negacionismo que parece ter se consolidado nestas terras tupiniquins.
Se continuarmos com esse pensamento, sinto muito. A Amazônia será ocupada, pouco importa se nosso orçamento de defesa é de 1,3% ou de 2%. Não há qualquer possibilidade de reação, pela assimetria de forças. Ainda que tenhamos uma tropa de selva bem qualificada. É irrelevante sem suprimentos.

Volto a Sun Tzu.
Quem sabe enfiemos a arrogância ufanista no devido escaninho e entendamos que nosso poder nacional não nos garantirá a Amazônia, mas que dela teremos a posse e soberania somente se cuidarmos bem dela.




segunda-feira, julho 20, 2020

'Não existe nada mais Z do que um público classe A''. (Caetano Veloso) Parte I

No fim de semana registramos mais uma ocorrência deplorável, o episódio do Desembargador em Santos.
O pior, não é um caso isolado. Chamou-me atenção o nome do infrator: Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira.
Parece um daqueles nomes quatrocentões, com fumaças de nobreza, do tipo do não perder a genealogia, tão praticado pelas realezas e seus nobres. Nomes dinásticos, de peso e respeito.
Nada contra o culto aos antepassados, mas é uma característica bastante presente de reforço à aristocracia, salóes de festas, casas-grande e senzalas, cafezais e esbanjamento, cana e escravidão.
Não que prespegue esses atributos ao digno senhor magistrado, longe de mim a leviandade de fazê-lo. Como também em momento algum afirmaria, sem conhecimento de causa, que o pomposo patronímico lhe teria asfaltado os caminhos à magistratura superior paulista, certamente recebido pelo reconhecimento de seu profundo saber jurídico e elevado senso de Justiça.
Apenas despertou-me curiosidade por tão pomposo nome. Despretensiosamente, sem qualquer desejo ou intenção de estabelecer possíveis vínculos genealógicos com o distinto Desembargador

O primeiro Prado registrado pela história teria sido João do Prado, nobre em Olivença e que teria aportado em S. Vicente pelos idos de 1531, com Martim Afonso de Souza.
Pronto, encontrado o quatrocentão.
"João do Prado casou-se com Fellipa Vicente, filha dos portugueses Pedro Vicente e D. Maria de Faria, também dos primeiros povoadores e que em 1554 eram agricultores de grandes canaviais e tinham parte no engenho de açúcar de São Jorge dos Erasmos. João do Prado fez estradas no sertão onde conquistou muitos índios bravos e com eles se estabeleceu em São Paulo de Piratininga, onde serviu os cargos do governo, inclusive o de Juiz Ordinário em 1588 e 1592. Foi pai de Maria do Prado que se casou com Miguel de Almeida e Miranda, natural de Cascais-Portugal. Estes últimos foram pais de Filippa de Almeida Prado, que se casou com João da Cunha Lôbo (descendente de Don Fruela II, rei de Leão, Astúrias e Galízia no ano de 923). Filippa e João Lôbo foram pais de Miguel de Almeida Prado, avós de João da Cunha de Almeida, bisavós de Lourenço de Almeida Prado e trisavós de João de Almeida Prado (Cavaleiro do Hábido de Cristo de Itú-SP)" (Silva Leme in Genealogia Paulistana, )

Alguns dedicaram-se também a canaviais, um de seus netos, residente em Indaiatuba, foi pai da Baronesa de Itaim.

A nobreza escravagista marcava presença nos então rincões. Há pouco mais de 130 anos, ainda havia escravizados legalmente nos canaviais e cafezais. Pouco tempo pra perder o ranço supremacista.

Os Almeida Prado, no início do ciclo cafeeiro, eram proprietários de vastas extensões na região de Jaú e Itu, sendo João de Almeida Prado, 
(*1757 Itu +1835 Itu), Capitão-Mór de Itu, conhecido como O Coluna de Itu, deixou larga descendência. De seus dois casamentos, foram 20 filhos legítimos.

E o Rocha de Siqueira, menos conhecido, porém também pomposo?
Pode tudo haver começado com Domingos da Rocha Abreu, nome ligado à rota das monções, expedições parte fluviais, parte terrestres, de interligação à Cuiabá, onde ouro havia sido descoberto. Registros indicam que nos idos de 1760, era um dos cincos homens mais ricos de Porto Feliz. Como curiosidade, a colonização do interior além Rio Paraná tinha como ponto de partida Porto Feliz.
Domingos da Rocha Abreu casou-se com Francisca Cardoso de Siqueira. Um de seus dez filhos foi  o padre André da Rocha Abreu (+ 1820 Porto Feliz)

Esse padre herdou muitos escravos, mas alforriou, em 1803, alguns domésticos.

Sua origem, por incrível que seja, talvez de negros alforriados lá pras bandas da antiga Araritaguaba, hoje a cidade de Porto Feliz. Escravos do Padre Andre da Rocha Abreu. Alforriados no testamento do padre, como de hábito, assumiam o sobrenome de seus senhores.

A Jesuíno, filho da escravizada Francisca Rocha, cozinheira, alforriados pelo padre André e a seu filho,  o padre ensinou música e se fez organista, foi incluído no testamento como herdeiro.
Proprietário de escravizados,  sítio e engenho por legado, Jesuíno enriqueceu, pois a condição de alforriado lhe permitia alguma mobilidade social. Em sua morte, no ano de 1836, seu monte-mor foi avaliado em cerca de 8 mil contos, fortuna razoável e surpreendente, dado sua origem.
Era um homem rico e muito bem relacionado na elite local. Embranqueceu na cor e no costume, seus filhos e netos mantiveram escravos até a abolição e preservaram seu status antiabolicionistas.
Interessante a história, mas não há registro que o Rocha de Siqueira tenha origem em Porto Feliz. Apenas uma curiosidade a mais.

Continua em https://fregablog.blogspot.com/2020/07/nao-existe-nada-mais-z-que-um-publico.html



" Não existe nada mais Z que um público de classe A" (Caetano Veloso) Parte II

Voltemos agora ao nosso desembargador Almeida Prado Rocha de Siqueira, cujos nomes, que me despertaram a curiosidade, talvez nada tenham em ligação às historinhas da parte I.
Como condená-lo por sua atitude pessoal execrável se nos permitimos conviver e até cultuamos com reverência essa elite arrogante, quatrocentona, escravagista em sua cultura e discriminatória como prática?
Como condená-lo se permitimos que os guetos de miséria afrontem com sua negritude e pobreza os nichos de riqueza que da própria aristocracia rural tiveram origem?

Sim, é condenável, despropositado, impróprio e indecoroso o comportamento que mostrou esse magistrado, brandindo relações e poder em afronta à ordem e lei. Mas como condená-lo isoladamente desconhecendo que essas posições sociais estratificadas têm sua origem na casa grande e na senzala, na coisificação do ser humano, na dor dos troncos e nos gritos dos rebenques?
Como esquecer que até hoje uns nascem para servir, outros para serem servidos? Aqueles cada vez mais, estes cada vez menos?
Dizem que o Brasil é o segundo país no ranking odioso da desigualdade, não sei se é verdade, desconfio muito desses rankings porque sempre me parecem simplificações de uma questão complexa. Mas os contrastes com os quais convivemos com naturalidade são aterradores.
Até quando permitiremos que os nomes impliquem em poder, poder de concentrar recursos, de distribuir migalhas, poder de vida e morte.

Vivemos momento de pandemia, para a qual não há proteção além de resguardo. Verdade, temos o SUS que impede o morticínio dos excluídos dos recursos. Impede é forte, minimiza é mais correto, mas ainda assim as estatísticas apontam uma mortalidade relativa bem maior nesses estratos. Neles não há saneamento, não há afastamento possível, não há dinheiro em banco, reservas, nada. Neles vendem-se almoços para pagar as jantas.
Neles não há respeito, são as grandes senzalas.
Neles não convivem os ossos dos barões, as nobrezas herdadas, salvo para receberem serviços, oferecendo em contrapartida à mera sobrevivência por mais um dia.
Vivemos momento em que forças de segurança substituem capitães de mato, executivos contratados, os feitores.
Vivemos uma nova face da escravidão, em que até o acesso a mobilidade social é visto com maus olhos.

Por isso convivemos perfeitamente com a venda de nosso País em fatias, as mais valiosas, pois engorda-nos com suas migalhas, ainda que à custa do emagrecimento de tantos e do abandono a um futuro soberano.
Novo normal, fala-se, velho normal é o que se espera.
Novo normal será somente quando as atitudes do Desembargador, ora na berlinda por ter se tornada pública, não mais estiverem presentes nos elevadores de serviço, nos ônibus e trens superlotados, mos sufocos policiais e suas balas perdidas, no descarte insensível de trabalhadores, no leilão das misérias.
Construiremos um novo normal?
Juro, não sei!!!

sábado, julho 18, 2020

Nova República

Findo o golpe de 1964 pelo esgotamento do modelo e pelos ventos liberalizantes e democráticos que  varreram  o mundo, incompatíveis com o modelo então vigente, refunda-se o Brasil com a Constituição de 1988.

A nova definição do estado brasileiro incorporou conceitos bastante avançados até para a época e transferiu o protagonismo para os movimentos populares. Ainda assim, não deixou de conferir status diferenciados para os militares, manifestados recentemente na discussão do real sentido do famoso Art 142 da Constituição.

O atual modelo democrático, sob alguns aspectos, choca-se com a formação positivista residual que vem lá dos tempos do Império e que ficou incorporada, em transmissão sucessiva, por gerações de militares. A atual geração dos generais foi a formadora da nova geração do oficialato e o supremacismo permanece internalizado. Por vezes assumindo feições de uma elite reprimida.
Vez por outra se manifesta.

Não haverá alternativa para a consolidação de um Estado de Direito sem que seja revista profundamente a formação das novas gerações. De civis e de militares, mas especialmente destes.
O poder armado é uma concessão e uma opção da sociedade, não pode ser visto de outra forma e esses conceitos têm que ser internalizados na própria formação do oficialato.
Não cabem mais os valores escalados por Comte, as transformações do século XX no campo do conhecimento e das relações sociais os tornaram obsoletos.
É fundamental que os militares recebam, em sua formação, a exata dimensão de seu papel na sociedade moderna, na qual não se lhes reserva protagonismo, mas subordinação.
Sistemas econômicos e sociais num mundo automatizado e interconectado não estão em suas atribuições de escolha, a elite hoje é outra, as interconexões são muito mais complexas entre produção e consumo, recursos finitos e renováveis, assimetrias sociais e de oportunidades, direito universalizado.
É necessário que a formação, a par da arte das armas, seja eclética e se entenda que o reconhecimento do monopólio da força em nome e concedida pela própria sociedade não é uma delegação de protagonismo, mas de elemento intrínseco a sua manutenção.
Fardas e governos são incompatíveis entre si na formulação política, sob risco de confundirem-se.
Instituições permanentes passam a ser temporais.

Afinal, de Benjamin Constant a Augusto Heleno e Vilas Boas, patinamos no mesmo charco.
É mais que hora de mudar.

(Foto Site Uol)


Primeira República

Como se viu, democracia não era valor positivista, sendo o povo colocado no último degrau dos valores a serem preservados e considerados.
Liberdade sequer era considerada na escala de valores.
A ferro e fogo haveria de se transformar a sociedade fundamentada na nova elite. Os militares substituíram a monarquia como elite comandante dessa transformação.
Criam-se assim os Estados Unidos do Brasil,  uma pseudo Federação em que o poder central era mandante e comandante, a ponto de homologar ou não os vencedores de eleições não universais e manipuladas por listas de eleitores.
As sucessivas  Constituições, de 1891, 1934, 1937 são fortemente positivistas, conceitualmente falando.
De Deodoro, já senil, surge Floriano. o Marechal de Ferro, e sucessivas revoltas sangrentas, nas quais os adversários, ou pretensos adversários liberais foram fortemente reprimidos e genocídios foram praticados. O que hoje é brandido como perigo comunista, o pretexto de então era o restauracionismo. Treze presidentes se sucederam, em todos  ocorreram revoltas e repressões. Movimentos populares de qualquer ordem foram reprimidos. Canudos, revoltas da Armada e da Chibata, da Vacina e do Contestado são um bons exemplos genocidas.
Afinal, o povo não possuía condições morais e intelectuais para decidir sobre seus caminhos.

A maior experiência positivista no Brasil ocorreu no Rio Grande do Sul, o que promoveu um conjunto de revoltas, sendo a mais contundente a de 1923. A Escola Militar de Porto Alegre, ambientada na cultura local, positivista, não por acaso teve como estudantes os principais nomes do golpe de 1964, incluindo seus presidentes.

No final da Guerra do Paraguai, as tropas gaúchas assumiram a preponderância. Para uma sociedade rural, semi-caudilhista e aguerrida, o positivismo fazia todo o sentido. Os donos das terras com suas tropas particulares e poder político não poucas vezes adquiridos em eleições fraudadas, no Rio Grande do Sul foi visto o maior exemplo do positivismo político, pelo Castilhismo e Borgismo, e suas revoluções. Há figuras históricas desse período, como Batista Luzardo e Silveira Martins só como exemplos, mas que formaram o ambiente para que, 40 anos após o golpe republicano, surgisse Getúlio Vargas.

Positivista em seus conceitos, embora civil teve também formação militar na escola de Rio Pardo, de onde foi excluído por liderar um movimento de repúdio a uma ação arbitrária do comando. Alinhou-se politicamente ao borgismo e, em 1930, deu fim à República do golpe de 1889 e introduziu alguns conceitos de participação popular, possivelmente influenciado pela revolução russa de 1917 e a profunda revisão que provocou.
Ainda assim, do golpe de 1930 e suas repaginações, foram 15 anos de ditadura, com o governante, apoiado pelos militares. Dirigiu com mão de ferro o país, muito embora incorporando de algumas medidas de reconhecimento popular.
Foi deposto pelos militares, já nos primeiros ensaios do que viria a ser conhecido como Guerra Fria, mas ainda, na ocasião, mero desconforto de acomodação geopolítica entre os três principais vencedores da II GG.
Mais uma vez os militares atravessam a rua, saem dos quartéis para fazer política. Afinal, vêem-se como a elite dirigente dos antigos preceitos positivistas. E têm armas, não somente retóricas.
Refunda-se novamente o Brasil, com a Constituição liberalizante de 1946.



República Militar Positivista

O positivismo, a par de sua conceituação filosófica, pretendia-se uma religião.
Defendia a imortalidade da alma cultuando, subjetivamente, a memória dos mortos pelas contribuições  deixadas à cultura e ciência, conforme a Ordem Humana formulada por Comte, e que a vida deve ser vivida segundo princípios estritamente humanos, sem apelo a nenhuma metafísica, sob a guarda e inspiração da ciência e da ética.
Templos positivistas foram erguidos, todos com a máxima "Os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos" expressos em seus frontispícios. Até a década de 1950 ainda havia no centro de Florianópolis um templo positivista onde essa inscrição era visível. Não sei se ainda há hoje. Em Porto Alegre, até 2009 pelo menos, ainda havia um desses templos.
Chocava-se também o positivismo com o catolicismo, religião oficial do Império.

Formulada por Auguste Comte (*Montpellier 1797 + Paris 1857) em 1842, afirmava que os fenômenos sociais devem ser observados em similaridade com os fenômenos naturais, obedecendo assim leis gerais. O espírito positivo baseia-se na ciência como elemento de investigação e no campo sócio-político, o poder seria exercido pelos filósofos positivos com o balizamento pelo bem público, coletivo e individual. Para Comte, positivo pode ser definido por real, útil, preciso, relativo, orgânico e simpático.

A escala de valores positivistas, em número de treze, hierarquizava os valores da sociedade, do maior para o menor. Humanidade, Casamento, Paternidade, Filiação, Fraternidade, Domesticidade, Fetichismo, Politeísmo, Monoteísmo, Mulher, Sacerdócio, Patriarcado e Proletariado."
Bem se vê o profundo descarte do "povo", deterministicamente condenado a fazer sempre as piores escolhas. Vem daí o desprezo pelos valores democráticos. Se a elite - no caso os positivistas - não governarem, serão governados pelos medíocres. Dois pilares sustentam o positivismo político: a aristocracia como sistema governo e o zelo com as contas públicas.

Impregnado de um pseudo cientificismo, até novo calendário (à semelhança da revolução Francesa) foi criado
Teria o ano 13 meses de 28 dias e um ano bissexto para ajuste. O nome dos meses também batizados com vultos históricos da filosofia, ciência e política. Como curiosidade, vão aí seus nomes: Moisés, Homero, Aristóteles, Arquimedes, Júlio César, São Paulo, Carlos Magno, Dante, Gutemberg, Shakespeare, Descartes, Frederico II e Bichat. Afinal, os vivos são governados pelos mortos por sua contribuição científica.

Benjamin Constant (*Niterói, 1836 + Rio de Janeiro, 1891), um engenheiro que passou um ano na Guerra do Paraguai e que era um feroz critico de sua condução, inclusive quanto a Caxias, retornou e foi professor da escola militar da Praia Vermelha, formadora de oficiais.

Positivista por convicção e antimonarquista, Constant influenciou fortemente os então cadetes.
A monarquia fundava-se na transmissão hereditária dos governantes, isso o ofendia, pois dentro dos conceitos positivistas, somente os melhores poderiam governar. A par disso, sendo o Conde d'Eu neto de Luis Felipe I da França, embora tendo renunciado aos direitos sucessórios, era visto com desconfiança. A cultura misógina inferia que, ainda que Imperatriz, Isabel seria submissa ao marido, este com simpatias ao Partido Liberal. Constant militava no Partido Conservador.
A abolição da escravatura, a par da perda do apoio da elite econômica, colocava "uma raça inferior" ao nível dos demais cidadãos em direitos, corrompendo ainda mais a já desprezada participação popular pelo positivismo.
Os oficiais militares, vitoriosos nos campos de batalhas, tornaram-se supremacistas, cobravam um preço moral por seu heroísmo, viram-se como a elite capaz de substituir a elite monárquica.
Só aos melhores caberia governar. E os melhores eram os que teriam arriscado suas vidas em luta. Raciocínio simplista.
Constant foi o primeiro Ministro da Guerra republicano, posteriormente também Ministro da Instrução Pública. Em ambas funções, o Positivismo encontrou campo fértil para sua difusão.
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Imposta a República pelo oficialato e sem participação popular, tornou-se o positivismo o pensamento dominante, a começar pelo dístico de nossa bandeira, o famoso Ordem e Progresso, extraído do preceito positivista "O amor por princípio. A Ordem por base. O progresso por fim."
É importante ressaltar que dentre os valores positivistas, o proletariado ocupa o último lugar.
Esse desprezo conceitual pelas massas, pelo povo, foi um dos fundamentos da nossa república  militar positivista. Até os dias de hoje sentem-se seus reflexos.
Os militares, assim, preencheram o vácuo de poder aberto com o banimento do Imperador.


Benjamin Constant

Auguste Comte


República de Guerra Fria

O desconforto inicial do pós II GG evoluiu para um antagonismo cada vez mais declarado. O imperialismo soviético esbarrou com os interesses do imperialismo ocidental e o mundo polarizou-se. Comunismo e Capitalismo, os sistemas sócio-econômicos entraram em choque.

No Brasil, a antiga geração de militares positivistas, formadora das novas gerações do oficialato, não abandonou o sentimento de herdeiros do Império como elite dirigente. Essa nova geração, egressa da Academia do Realengo, participou da II GG sob comando estadunidense, no V Exército comandado por Mark Clark. Recebeu deles tudo. Suprimentos, missões e ordens. Incorporou, até por subordinação, admiração pelos Estados Unidos e sua cultura. Num ambiente de guerra, de sua cultura militar.
O alinhamento na Guerra Fria foi uma decorrência natural, eram os antigos aliados e comandantes, havia uma elite ainda mais elite que a tupiniquim, nada mais adequado que dessem as cartas. Militares americanófilos, por subordinação intelectual, adotaram o comunismo como inimigo da ordem e do progresso, tal e qual seus antecessores remotos haviam adotado o restauracionismo na Primeira República.

Novas gerações do oficialato foram formadas assim com os conceitos residuais do positivismo acrescidos agora do anticomunismo.
Do positivismo vieram o repúdio à democracia e a incapacidade civil de fazer suas escolhas, haveria que ser tutelada.
Da Guerra Fria, o comunismo como ameaça a ser combatida, até por seu apelo popular de engajamento.
Essa geração comandou o golpe de 1964 e refundou mais uma vez o Brasil com a Constituição de 1967 que, a par de  incorporar a participação popular, aumentava o poder central.

1964 chega com uma novidade chocante. Pelo AI 1, a chamada Revolução legitima-se a si mesmo como poder constituinte, refundando o Brasil conforme a legitimidade que se autoconcedeu.
O positivismo residual surge com força, pois é a elite, no caso os militares, o ente capaz de determinar o rumo do País conforme seus próprios conceitos. Daí a sequência de Atos Institucionais serem justificados per si.
Durou 21 anos dessa vez e só caiu porque a Guerra Fria havia acabado de fato e novos ventos liberalizantes surgiam num mundo interconectado monopolar..
E a nova geração do oficialato foi formada nesse período pelos egressos da Guerra Fria num mundo bipolar. São os generais atuais.


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