segunda-feira, agosto 22, 2011

No Lado de Baixo .... A Escolha (Cap II)


Em uma sociedade colonizada, há duas formas de ocupar o poder.

A primeira, sempre sangrenta, é por meio de uma revolução. Já haviam tentado e aprendido a lição, não conseguiriam. Num país de contrastes, onde esteja consolidada a cultura do domínio elitista de que tudo pode; onde haja um colchão de amortecimento representado por uma classe média conservadora, armada e temerosa de mudanças; e onde sobreviva uma legião de condenados a servir, conformados em herança cultural de longa escravidão, nada conseguiriam. Sim, a lição estava aprendida.

A segunda é valer-se dos mecanismos instituídos, ainda que formulados na forma e molde para preservação dos próprios formuladores. Nas regras do jogo. Ocupado o poder, possível e necessário seria mudar o molde, construir um novo. Mas, até então, haveria longo caminho a ser percorrido. E passo a passo, cautelosamente.

O primeiro, a visibilidade. Alguém que pudesse materializar o plano, sem que o próprio plano fosse desvendado, pois plano estratégico divulgado perde eficácia. Alguém que pudesse estabelecer vínculos de identidade com os efetivos beneficiários, a grande massa. Haveria que se resgatar – ou mesmo fomentar – sua autoestima, seu orgulho, sua condição humana. Haveria ser alguém que reunisse condições de ser aceito sem medo pela classe média. Haveria de ser alguém que cooptasse os tradicionais mandatários da capitania hereditária em que o país havia se estruturado.

Não precisava ser o ideólogo principal, mas era necessário alguém com forte poder carismático de aglutinação e de identificação com o povo. Não necessariamente populista, mas sem vergonha de sê-lo. Não corrupto, mas transigente o suficiente para trilhar no caminho do possível, no morde e assopra. Alguém que aceitasse o vão-se os anéis, fiquem os dedos, nas composições. E alguém suficientemente comprometido com o referido plano, a ponto de contribuir para sua formulação. E confiável o suficiente para entender seu papel nele. Dispor-se a ser uma parte do plano, por um objetivo maior.

Não haveria segunda chance, não poderiam errar. Não poderia ser tão velho que não suportasse um horizonte de 20 anos de combate, nem tão jovem que tivesse a inconstância própria da juventude. E, acima de tudo, tivesse condições pessoais de comunicação, de geração de empatias, temperamento conciliador e pudesse personificar uma real mudança. E tivesse coragem, acima de tudo, coragem para enfrentar os anos difíceis que se seguiriam.

E assim foi feito. Felizmente para eles, no grupo, havia essa pessoa. E o escolheram para a missão, para executar a primeira etapa, a da ocupação do poder.

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