domingo, janeiro 19, 2014

Rolezinhos, Consumo e Fantasias Sociais

Todo jovem tem em si o germe de um iconoclasta. Que bom que é assim, pois ninguém cresce em ser o que já foi. E esse é o princípio básico da evolução social.
Nosso momento social é o da primazia do consumo. O consumo é bom. Sem consumo não há produção comercializável, sem produção não há empreendimento e sem este, resta o retorno à sociedade primitiva. Porém, o consumo tendo-se tornado prioridade gerou suas distorções. A ostentação passou a ser a distinção social, o descartável valorizado. E são vários os sintomas.
A pessoa viaja para o exterior e vem carregada de fotografias de prédios pasteurizados, de praias piores do que as nossas, de quinquilharias chinesas de péssimo gosto e qualidade, do flagelo da neve que felizmente não temos por aqui. Não baste ter ido, há que trazer as provas de que lá esteve e ostentá-las.
Os shoppings não fogem a esse momento. Chamados de templo de consumo, pasteurizam-se com as mesmas lojas, mesmas marcas, mesmas griffes, mesmo fast-food. Não são templos do consumo, mas vitrines da ostentação e, a meu ver, ninguém os definiu melhor do que Frei Betto em seu Passeio Socrático.
Independente do dano que causam à urbanidade e à economia, pois concentram o ponto e propiciam uma enorme distorção nas relações de oferta e procura, eliminando  comércio de bairro, o lazer de bairro etc, transformaram-se na rede social real, contraponto das virtuais. E reforçam o imaginário pasteurizado dos sonhos de consumo como diferenciação social.
Da mesma forma que um jovem de periferia é hostilizado pelos jovens centrais pelos seus hábitos, sua baixa capacidade econômica de ostentação, e o agridem como se houvesse invadido território particular, os mesmos jovens centrais intimidam-se quando essa invasão ocorre em maioria. Tipo uma invasão de bárbaros. E a recíproca é verdadeira. Similar às tribos do andar de cima juntarem-se e zoarem nos territórios periféricos.
 Esse conflito força a alteração de valores, a constatação de que grades não protegem, cercas são devassáveis e, cada vez mais, espaços deixam de ser exclusivos. Cai a ficha de que vivemos todos no mesmo condomínio.
É uma quebra, e isso assusta. Quebras sempre assustaram, pois o novo é sempre desconhecido.
Aí brotam feito cogumelos as mais diversas buscas de causas nas redes sociais, e isso sim assusta.
Para os conservadores sempre defensores do status quo, é comunismo, é o fantasma de Stalin, é Marx se vingando da tumba. Tem é que distribuir bordoada, usar a polícia, botar pra correr e mandá-los de volta a seus territórios. De onde só têm o direito de sair para prestar-lhes serviços e, eventualmente, consumir produtos especialmente fabricados para eles. Ousadia.
Para os que em tudo buscam diferenças raciais, é uma revolta de etnias, são os negros cobrando igualdade de direitos. Estes se esquecem de que não há raças definidas, em nossa imensa maioria somos miscigenados, figuras amulatadas todos somos, cafuzos de olhos puxados para mais ou para menos. Mas não, utilizam os rolezinhos para tentar fazer verdade o mito racial.
Para os que se dizem mais "à esquerda" - rótulo vazio - trata-se de resultado visível da segregação social, da revolta de castas prestes a explodir. Usam os rolezinhos como argumentos de suas teses.
Pois os rolezinhos sendo tudo e nada disso, simplesmente se manifestam como uma zoada, como uma quebra de hábitos, como uma agressão a paradigmas, tão características da juventude.
Incomodam? Claro que sim. Assustam? Evidentemente, pois desde o ECA, qualquer coisa que jovens façam - e não importa sua classe social - é impune mesmo. Prejudicam? Sim, pois demolem as premissas mercadológicas que levaram à construção desses locais.
E isso é bom. Quem sabe leve à quebra dos oligopólios dos varejos, ao fomento do comércio de bairro, do cinema da esquina, da sorveteria da praça.
Quem sabe leve à desconcentração dos pontos de oferta, ao estreitamento das relações pessoais entre vendedor e comprador, à redução das artificialidades bombardeadas pela publicidade intensiva e massificante.
E os shoppings? Que se danem, explodam. Virem praças, bibliotecas. Ou criatório de moscas. Muito mais do que eles valem as relações pessoais.

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