quarta-feira, janeiro 22, 2014

Bobagens

Dizem que a esperteza demais engole o esperto. É verdade.
O comportamento do Ministro Barbosa é previsivelmente esperto. São movimentos friamente calculados e por isso mesmo dão tão certo quanto os do inspirador da frase, o Chapolin Colorado.

Barbosa conduziu a AP 470 atropelando os demais ministros, jogando com a mídia para desgastá-los nas discordâncias e interpretando as provas (ou indícios) a seu critério. Suspeitam alguns juristas respeitados que seu objetivo fosse mais a projeção de imagem de paladino do que de agente máximo da justiça, mas isso ninguém prova. Enfim, episódio passado.
Da mesma forma defendeu a tese perdedora quanto aos direitos aos embargos infringentes com se fosse um benefício indevido. Tinha seus argumentos jurídicos, sem dúvida, porém uma vez mais posou como o inflexível defensor da lei.
Promoveu ação espetaculosa na prisão de principais figuras envolvidas, entrou em choque com o titular da Vara de Execuções Penais de Brasília, o que culminou pela sua remoção sendo substituído por um mais palatável a ele.
Agiu duramente. Nada contra, pois um juiz deve realmente ser imparcial, desconhecendo nomes e prestígios dos réus. Claro, não agiu assim com todos, mas com os de maior impacto. Somente um detalhe, uma bobagem talvez.

Firmou-se assim, no imaginário popular como o super-herói contra o câncer da corrupção endêmica brasileira que atravessa séculos de sua história.
E agora, quem poderá nos defender, clamavam as consciências cidadãs? Barbosão, Barbosão, respondiam as turbas. Os dados estavam lançados.
O noticiário sempre aceso com pequenas pílulas asseguravam sua imagem de salvador da Pátria. Ora um pedido (legal) de trabalho negado, ora uma prisão domiciliar colocada sob suspeita.
Mas vinham as férias, era necessário deixar o gatilho para manter a imagem duramente criada.
Surgiu a prisão do João Paulo Cunha. Deixou sem assinar o mandado de prisão "por falta de tempo". E antecipou suas férias. Queria dar a sensação de que se não fosse ele, ninguém o mandaria para a prisão.
E o objetivo do cheque não era a Min. Carmen Lúcia, mas seu desafeto Lewandowski. Mal este assumiu o plantão, apressou-se a declarar o Min. Barbosa que estava havendo leniência, pois qualquer um que respondesse pelo STF poderia e deveria assinar o mandado que ele próprio não expediu "por falta de tempo".
Versão desmontada hoje ao se trazer à luz o Regimento Interno do STF. Esse ato seria de atribuição exclusiva do Relator. Conseguiu parcialmente seu intento de jogar a opinião pública contra Lewandowski, claro, somente os que engolem pílulas sem ler as receitas, mas que são parcela expressiva da população.

Em compensação, enfrenta o desgaste - que considera bobagem - das diárias nas férias européias, encontradas na lata de lixo pelo jornalista a quem havia mandado nela chafurdar. São R$ 14 mil Reais, metade de um subsídio mensal, isento porém de descontos tributários.
Quanto às passagens, ninguém fala, ninguém viu. Decerto os comprovantes não estariam na mesma lata de lixo. Estou confiante, porém, que tenham sido pagas pelo próprio interessado, pois seu valor não deve ultrapassar 25 centavos de Bobagem, não ofenderia, portanto, a guaiaca ministerial.
Cria-se assim uma nova moeda. A Bobagem.
- Ei, moço, quanto custa esse carro?
- Baratinho, dotô. Uma Bobagem e meia. É promoção.
Um salário mínimo, dos novos, é cerca de 5 centavos de Bobagem.

Para um país que substituiu o hectare por um campo de futebol criando nova unidade de medida de área, todo o resto, enfim, é uma bobagem mesmo.
Até este escrito.

(Foto Luiz Azevedo, Estadão)

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