quarta-feira, janeiro 22, 2014

A Revolução das Raposas

Contam que certa vez, no Kalahari, reuniram-se em assembléia geral da Organização dos Predadores Unidos, representantes de todos os animais com objetivo de pôr ordem na bodega e formular uma nova ordem social. Os leões, tigres e leopardos, seriam do Conselho de Segurança com direito à palavra final e encarregados de que as resoluções fossem obedecidas. Afinal, havia caça para os três, não precisavam brigar entre si.
Após reuniões e coquetéis, definiram-se.
Os pastos seriam divididos em áreas de influência. Os gnus, zebras, lebres e outras fontes de carne fresca em cada área seriam usufruto exclusivo, comprometendo-se os predadores em não invadir território alheio. Com o princípio de autodeterminação, cada um que se arrumasse em seu território.
E assim fizeram o leão, o tigre, o leopardo. Brindaram, desejaram saúde recíproca, muitos anos de vida uns aos outros, e despediram-se.
De volta, o leão convocou as hienas e lhes disse:
- Hienas, doravante não mais sairei pra caçar. Vocês serão encarregadas de manter minha mesa farta, alimentar a mim e meus leõezinhos, que precisam crescer saudáveis e fortes.
- E nós, majestade, ganhamos o quê com isso?
- Vocês não precisarão mais caçar, terão suas mesas e de suas hieninhas fartas com minhas sobras. Usem sua criatividade e livre iniciativa para que a comida nunca nos falte. Usem os comércios bilaterais, exportem lebres, importem gnus se precisar, estabeleçam as relatividades, criem uma bolsa de valores, âncoras cambiais, não me importa. Enquanto houver fartura em minha mesa, vocês serão protegidas. Ah, e não tentem agir fora de minhas regras. Mato vocês.
Chamou o leão os elefantes. Compareceu o chefe da manada.
- Elefante, de hoje em diante vocês serão os responsáveis pelo equilíbrio de meu reino. Vocês são fortes, mas não caçam e não comem minha comida. Saiam e convençam a todos que o capim é grátis, que as secas são um castigo pelo mau comportamento. Quem se insubordinar, usem a força de suas trombas e esmaguem com seus pés. E que todos terão pastos fartos, água abundante depois que morrerem. A partir de hoje tens liberdade de nomear bispos em cada manada para que minhas instruções sejam fielmente obedecidas.
- Agradeço-lhe, majestade, disse o elefante fazendo uma reverência com 3 patas, do jeitinho que tinha visto num filme do Tarzã. Mas eu tenho uma queixa, a girafa anda comendo as folhas que me alimentam. Assim meus elefantinhos não crescerão fortes e saudáveis.
- Vou pensar no assunto, respondeu-lhe o leão. E deu a audiência por encerrada.
Mandou o leão chamar a girafa. Curto e grosso, determinou-lhe que continuasse comendo as folhas do elefante, mas moderasse seu apetite. E determinou-lhe em paralelo as mesmas orientações dadas ao elefante, com um detalhe. Se faltasse comida para os elefantes, se a eles faltassem folhas para alimentar-se, seriam as girafas queimadas em praça pública.
Na sala de espera já estava o búfalo-chefe. Mandou-o que entrasse.
Búfalo, vais pastar junto com os cervos e lebres e serás meu protegido. Nem as hienas te importunarão. Mas farás com que a ordem seja mantida nos pastos. A caça que resolver fugir, insubordinar-se de qualquer modo, deverá sentir as pontas de teus chifres. Não podes permitir também que as hienas dos leopardos ou dos tigres venham cá pilhar nossa caça, pois minha mesa deverá sempre estar farta. Enquanto cumprires essa missão serás meu protegido. E te nomeio desde já meu general de quatro estrelas. Organiza tua tropa de búfalos para que em todo meu território as hienas, os elefantes e principalmente eu e meus leõezinhos tenhamos segurança e durmamos em paz.
Chamou então o leão a raposa-sênior.
Esta tentou esquivar-se, negaceou, mandou dizer que o celular estava fora da área de cobertura até ter certeza de que não seria servida na janta leonina. E compareceu, por inevitável, ao gabinete do leão.
- Raposa, vou dividir meu reino em áreas, a serem cuidadas por vocês. Pega os recursos que quiseres com a hiena e a ela presta contas. Se não forem aprovadas pelo tribunal de contas que acabo de criar com hienas aposentadas, crau. E disse isso passando a unha do dedão no pescoço, em gesto significativo que fez a raposa engolir em seco. Eu quero é renovado estoque de carne fresca, se eu não tiver... novamente a garra passou no pescoço.
E assim estabeleceu-se a paz no reino. Primavera atrás de primavera, os leões com mesas fartas, as hienas prosperando, os elefantes e girafas dividindo as folhas e prometendo o paraíso, os búfalos marchando nas cercas, as raposas tentando que os gnus e lebres se acomodassem e caminhassem em ordem para a mesa do leão. Conformadamente.
Até que um dia uma lebre e um javali vieram conversar com a raposa. Fosse só a lebre a raposa nem daria bola. Mas tinha medo dos dentes do javali, de sua obstinação. O javali era perigoso.
- Raposa, essa combinação não está justa, disse a lebre. Tudo bem, nós comemos o capim, mas todo mundo se alimenta de nós. Não precisamos deles, não é mesmo?
Astuta, pensou a raposa, sim, a lebre tinha razão. Ela mesmo passava fome para que mais lebres sobrassem para o leão. Convocou um congresso clandestino de raposas enquanto os búfalos dormiam. Vamos botar leões e hienas pra correr. O leão come sem trabalhar e a hiena vive de nosso trabalho e, por mais que façamos, cada vez nossa dívida com elas aumenta mais.
Convocaram os macacos, os mosquitos, as formigas - vamos prender o leão em sua caverna, não deixar-lhe mais sair, a fazer um presídio para si. Vamos acossar as hienas, deixá-las inseguras para que fujam. Aos búfalos, vamos prometer liberdade para continuarem a marchar como quiserem. Os elefantes podem deixar de prometer o paraíso, nem precisam mais disso pra comer suas folhas. Nem as girafas.
E assim foi feito. As hienas amedrontadas tiraram suas fotografias e de seus filhos do facebook, colocaram grades nas janelas e procuraram búfalos para fazerem sua segurança pessoal. Mas como nada tinham a oferecer em troca, os búfalos nem foram. Estavam inseguras sentindo a chapa esquentar. Fugiram para  território do leopardo, para a casa de suas hienas parceiras de tantas negociações de lebres, títulos e gnus.
O leão se sentindo isolado, assolado e atormentado por rolezinhos de mosquitos e formigas, além de pedradas dos macacos toda vez que punha o focinho pra fora da caverna, juntou suas trouxas, uma cuia de paçoca sobrada do último banquete, fantasiou-se de gnu e escafedeu-se. Foi asilar-se, furioso e ressentido, no reino do leopardo.
- Leopardo, a raposa é comunista. Um perigo.
O leopardo nem sabia exatamente o que a raposa era, e pouco lhe importava. Mas sentindo cheiro de confusão no ar com seu faro apurado, prontamente chamou o comandante dos búfalos e determinou expurgo das raposas. Chamou o seu bispo-chefe e determinou que apregoasse que lebres e gnus tinham sido proibidos, de pastar no reino vizinho desde que as raposas se revoltaram. E que as hienas estavam agora obrigadas a comer seus títulos e derivativos, única coisa que possuíam e uma crueldade, pois contrariava sua dieta natural. E que as formigas estavam devorando todas as folhas das árvores.
O fim da história não soube. Me contaram que o medo da falta de pasto, de comer papéis e ações, das formigas comerem todas as folhas sem nada deixar aos elefantes e girafas, criou uma forte união entre todos no reino do leopardo. Um grande e multidisciplinar exército estava sendo formado para invadir o antigo reino do leão e botar ordem na zona, acabar com a subversão. Sob o pretexto de salvar os gnus e lebres, dar-lhes liberdade e democracia. A livre iniciativa deveria ser restabelecida, as lebres tinham todo direito de virarem hienas.
Já no novo reino do leão, agora da raposa, havia uma preocupação das lebres. Reunidas no Sindicato Leporino, questionaram a raposa. Sim, mudou tudo, mas continuamos servindo para sua alimentação.
Ao que a raposa, astuta e sábia, respondeu prontamente:
- É verdade, lebres, não vou enganar vocês. Mas, ao menos, minha fome é menor.

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