terça-feira, junho 10, 2008

Mulheres de Atenas, Homens de Esparta

Deu entrada no STF uma representação promovida por uma(seriam várias?) entidade de defesa corporativa de homossexuais. Deu ou dará tanto faz o tempo, o verbo dar é o mesmo.
Reclamam os gentis sorellos do tratamento discriminatório, persecutório até, a vitimar os dois sargentos que saíram do armário espargindo lantejoulas e jogando cocô no ventilador.
De fato, se os dois se dão - tão bem, lógico - o que estrelados coronéis têm a ver com isso? Amásios e amantes ditos há 11 anos, habitando em unidade funcional, ninguém suspeitou antes? Nem uma desmunhecadinha ao menos em frente à tropa falicamente perfilada? Claro que sabiam, conviviam com o fato e, cá pra nós, é problema deles. Não que lhes gabe o gosto, entrelaçar bigode com bigode, nem com buço de fêmea. Côncavo sem convexo, que coisa mais sem graça. Pelo menos em minha antiquada opinião, mas vá se saber dos gostos dos novos tempos.
Tempos novos, não do dar e receber, pois cada um tem coceirinhas onde lhe aprouve. Mas orgulho da coceirinha impertinente, qual bicho-de-pé, quanto mais coça, mais gostoso fica. Bicho-de-pé ou bicho em pé, sei lá. Novos tempos, novos significados.
O fato é que os enamorados sargentos resolveram publicar o que era privado. Devassaram as quatro paredes (sete, contando com as da suíte), ufanaram-se peito cheio de orgulho, quiçá de silicone, apontaram o exemplo, fixaram a bússola, quebraram a sinonimia entre macheza e virilidade. Lançaram a dúvida do sentinela ao general, do sacristão ao cardeal.
Há uns 10 anos, um oficial superior, não me lembro com certeza, mas acho que sim, pertencente à tropa de machos com mais corda de machos em todo o Exército, a Brigada Paraquedista, foi flagrado em íntimas carícias com michê contratado, dentro de seu automóvel, no Rio de Janeiro. Não fez disso motivo de orgulho pessoal. Esse infeliz sim, merecedor de solidariedade. Cercou-se de mulher e filhos, na vã tentativa de controlar seus instintos. Se alguém teve preconceito, foi esse desafortunado, a vestir uma capa que não era sua, a fingir uma situação para encobrir suas entranhas de si mesmo, feroz juiz e inimigo interno. Esse, não orgulhou-se de nada, seus sonhos e devaneios, pesadelos se tornaram, por ele não foram gerados.
Diferentemente dos sargentos ativistas, ou passivistas, à sua escolha, leitor. Orgulharam-se de condição que não era sua, certamente herdada nos mistérios de uma natureza caprichosa e em constante mutação. Orgulhassem-se de uma personalidade leal, de retidão de conduta, de solidariedade social, além de outros valores adquiridos em sua formação, valores que tivessem dependido de si, de suas determinações, seria justo o orgulho. Com que razão se orgulharia o homem de ter nascido homem? E a mulher, razão teria? Esse fato deles não dependeu, em nada contribuíram para isso, uma palha moveram. Embora haja quem sustente que homem e mulher procedem de planetas distintos - Marte e Vênus são constantemente citados - o certo é que, se ambos terráqueos, sua diversidade não se encerra no gênero, avançando sobre a espécie. Quem duvida que entre os humanos, condição única no reino animal, machos e fêmeas são de distintas naturezas, juntando-se somente para folguedos e, de quebra, procriação? Ou mesmo para reclamar de saias curtas, de seios à mostra, de roupas espalhadas, ou mesmo sem qualquer motivo, em tempos de insuportável TPM?
Talvez os romeus-e-julietas fardados assim pensassem e, abdicando a procriação, potencializassem os folguedos, baipassando TPMs e dores de cabeça. Mas, e daí? Problema deles. Estamos habituados a considerar macheza valentia. Não era bem assim com os soldados de Esparta, amantes agrilhoados até à morte. Assim também as legiões romanas batiam-se e folgavam em justa e medida proporcionalidade com vencidos e vencedores. Em gênero, número e grau, nessa indeclinável ordem.
Reconheço, no entanto, a bizarrice numa patrulha em combate, ordenar o comandante com voz de falsete e trejeitos de ninfa: meu amor, vá pela direita e não se atrase para o jantar. Sei não, acho que não funcionaria muito bem.
Porém, pra ser datilógrafo, secretário, ajudante, sargenteante etc a macheza não é tão importante assim. Aliás, desde que abriram o acesso às mulheres - embora sua reconhecida e definitiva incapacidade de ler mapas - deram passo maior, final, demolidor desse preconceito binomial de macheza como sinônimo de valentia. É o axioma de Madame Satã.
O que pegou então?
Pegou a divulgada deserção. Pegou a vinculação de suas opções, suspeita lançada à toda tropa. Entrevista com direito à capa de revista com camiseta camuflada e tudo. Qual a razão? Orgulho, mágoa, revolta, vingança?
Acho que não. Foi pra criar de fato essa quizumba e amenizar a punição certa e legal, justa e regulamentar pelo crime cometido.
Macho-fêmea, sim. Burro, não.