quinta-feira, maio 29, 2008

Nova Tribo

Foi noticiada a descoberta de uma tribo ainda não contactada, no Acre.
Sei. Reconheço que tenho uma tendência quase atávica, irresistível mesmo, de ceticismo sobre qualquer declaração que advenha de líderes religiosos, sejam cardeais ou bispos de qualquer igreja, congregação, Funai ou Ibama. Soam-me todos mais falsos que nota de três Reais.
Custa-me crer, também, que essa tribo nunca tenha sido detectada por avião ou satélite, garimpeiro ou missionário.
É interessante também que começaram a atirar flechas no helicóptero. Não foi explicado na reportagem se sabiam que havia um cinegrafista a bordo, pronto para enviar as pitorescas imagens às redes de televisão. Não pareciam imagens caseiras, mas profissionais em muito boa qualidade. Pode ser que a Funai tenha um cinegrafista à disposição para cada sobrevôo. Recursos não lhe faltam.
Enfim, vou enfiar minhas desconfianças no saco, abandonar por um momento que seja minhas suposições de armação como prelúdio à criação de mais uma reserva indígena.
Vou fazer de conta que é verdade, que os paleolíticos selvícolas nunca tinham visto pássaro tão ventoso e roncador e que, em sua fome perene, pensassem haver topado com petisco misterioso mas bastante grande para ser moqueado e servir de alimento por várias luas.
Nesse caso, qual deveria ser a atitude do Estado?
Tão danosa como condená-los a permanecer na pré-história seria submetê-los à uma intoxicação de século XXI. É necessário, portanto, estabelecer e seqüenciar sua exposição em rítmo tal que lhes permita absorver os novos tempos, novas idéias.
A transição da prática de infanticídio tão comum nas tribos daquela região, eugênico ou social, para o Estatuto da Criança e do Adolescente há de ser paulatina. Da mesma forma, cautela na apresentação de novos deuses em paralelo ou em oposição aos seus (missionários, muita calma nessa hora) ou novos instrumentos e dispositivos (padres, cuidado com os facões). Seria uma crueldade fazê-los entender, de pronto, o cultivo agrícola; submetê-los à uma enxurrada de internets, parabólicas etc, a ponto de perderem o pé, a referência, os valores.
Crueldade equivalente a de isolá-los, cristalizando seus valores, suas crenças, sua miséria, sua alienação.
Supondo que não seja somente mais uma jogada de antroxiitas, que essa tribo perdida realmente exista, merece a proteção do Estado brasileiro. Como elo mais fraco, há que ser inserida em nossa sociedade na medida em que adquiram condição de nela coexistir com dignidade.
O processo deverá ser conduzido com o objetivo claro e precípuo: possibilitar-lhes exercer sua cidadania brasileira com plenitude. Esse processo passa, necessariamente, por educação, saúde, exposição gradativa aos meios e informações e a conscientização de que, mesmo sem o saber, fazem parte paritária de uma grande nação. São cidadãos de um grande País, que lhes assegura direitos e estipula obrigações. E que, muito além dos 100 ou 200 habitantes de sua aldeia, contam agora com a força solidária de quase 200 milhões de irmãos de nacionalidade.
Mas aí entra novamente o bichinho da descrença.
Duvido que seja essa a intenção da Funai.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home