sexta-feira, junho 20, 2008

Morro da Providência

O episódio envolvendo um pelotão do exército no Morro da Providência desnudou um conjunto de falhas e quebrou alguns conceitos sobre os quais especialistas de toda ordem teorizavam em suas teses e antíteses.
Deixa às claras, de quebra, mais uma constatação da doença social que ataca todos os segmentos e que se reflete nos pequenos e grandes atos. Nossa sociedade, acreditando no bombardeio do politicamente correto; de que deve pagar seu suado dinheirinho para que criminosos e infratores sejam "recuperados" ao invés de punidos; de que as mazelas são resolvidas retirando-se o sofá da sala, e isso vale tanto para o desarmamento como para a venda de bebidas alcoólicas nas BR; de que o guardião da moralidade, verdadeiro tribunal de exceção dito de Contas, é conduzido por ministros vitalícios indicados politicamente por partidos políticos e suas bancadas, além de outros exemplos, começou a ver no exército uma alternativa à corrupção e ineficiência policiais, um sucedâneo às benesses judiciárias aos criminosos, baseadas na lei, claro.
Essa idéia não sobreviveu ao primeiro embate. Exército foi feito para combater inimigos externos, discutível se da Pátria ou se de governos. Mas, combate a inimigo é sem trégua, visa sua destruição. Patrimônios são destruídos, vidas aniquiladas, medo implantado, respeito eliminado. Guerra é guerra, já dizia a madre superiora. Guerra é a inteligência a serviço da barbárie. Invade, destrói, ocupa, mata. Arrasa e impõe suas leis. A formação militar é para a guerra, onde os limites morais do humanismo são relegados a plano mais baixo.
Querem o exército como agente de segurança pública, mas não querem, e não permitem, e nem seria razoável permitir-lhe, aplicar as leis da guerra. Perde-se um bom combatente, ganha-se um péssimo policial.
Estivéssemos em reconhecido estado de guerra, o tenente - imaturo e despreparado para a missão - não teria soltado os presos em território hostil. Ele mesmo teria promovido sua eliminação. Para isso o formamos. Não quis sujar suas mãos nem sua folha de serviço, os traficantes rivais que o fizessem. Aplicou as leis da guerra às avessas.
Prisão preventiva, indiciamento em homicídio, lama no brasão. Foi isso o que conseguiu. estivesse em guerra, possivelmente, além de eliminar os agentes do tráfico local, também combateria os do morro rival. Errou profundamente.
Já a sociedade que agora o crucifixa é a mesma que o ansiava vê-lo com jipes e metralhadoras a garantir o acesso de seus filhos às ladeiras para comprar drogas sem que fossem mortos pelos traficantes. Grande parte dos atuais carrascos financiam o tráfico com as gordas mesadas a seus filhotes, mesadas não raro pagas com dinheiro sujo. Vale tudo, desde que seja assegurada a integridade física desses meninos.
Não há tráfico de drogas sem consumidores ou sem que o próprio tráfico seja ilegal. Mas rever isso dá arrepio à nossa sociedade doente.
O segundo ponto relevante é a nebulosa que paira sobre os reais propósitos do projeto no Morro da Providência. Cunho social ou eleitoral? Seu mentor, senador eleito pelos fiéis da Universal do Bispo Macedo e dele sobrinho e protegido, é também candidato a prefeito do Rio. Coincidência? Talvez. Mas dá a impressão da utilização do exército nessa maracutaia eleitoreira. Bem a gosto do midiático comandante, tomador de cafezinho nos holofotes e domador de jibóias quando flashes espoucam.
O terceiro ponto da febre social: não é possível de fato, apesar de desmentidos, a execução de qualquer obra nos morros do Rio, pública ou privada, sem a concordância dos traficantes. Os governos, federal, estadual ou municipal têm que cumprir o ritual de rapapés e permissões para entrar nesses guetos. Não se estranhe, portanto, que as forças de segurança saibam exatamente onde encontrá-los, quem são. Acontece que não podem ser considerados inimigos, pela legislação atual e pela Constituição Pollyana. Empurra-se o problema com a barriga. Do tenente ao general, do sargento ao midiático, todos sabem e convivem com o fato. Mas ninguém pode agir, impedidos pela própria lei, pela pressão social dos próceres e pelo não reconhecimento da guerra civil que vivemos.
As próprias televisões divulgam a imagem desses traficantes, e de seus soldados, permanentemente armados em vigília de seus territórios. Esses, nem a polícia, nem o exército, nem o midiático, nem Lula mandam combater e desarmar. Desarmam, prendem e multam a nós, simples cidadãos que resolvemos não ser bandidos.
E os assassinos, já os prenderam? Claro que não. Dizem que já sabem quem são, mas isso já sabiam desde o primeiro momento. Os assassinos, esses são protegidos pela lei. Estigmatize-se, então, o exército e seu tenente. É mais fácil e mais rentável. Embora a reconhecida deficiência moral do tenente, atenuada somente por também ser vítima, por ter sido formado para uma coisa e dele ter-se exigido outra, diferente. O que não diminui nem retira sua participação no crime, nem limpa a mancha na instituição que serve.
O fato é que, junto com os três rapazes assassinados, morreu também um pouco do exército.