quinta-feira, dezembro 20, 2007

Xamã

Ohmmmmmmmmm, anasalava a voz solitária.
Ohmmmmmmmmm, respondia a platéia com os indicadores e os polegares unidos em direção à lua.
Sob os clarões espasmódicos e caóticos da fogueira, acesa no centro do semi-círculo, viam-se reflexos de corpos nus em meio à nuvem de fumaça fedorenta, que também subia para a lua.
Nesse conjunto bizarro, o monge era o único vestido. Bem, vestido em termos. Uma túnica lilás-maravilha assentava-lhe nos ombros, adornada por uns dentes de porco e sementes de gapuruvu, tudo unido por uma correntinha de metal barato, porém dourado. De resto, mais nada.
Ohmmmmmm, ma'ratra sha shivana, sibilava o xamã.
Ohmmmmmm, respondia a pelada platéia, cada vez mais absorvente da energia transcedental que descia da Chapada dos Veadeiros rumo ao vale, conduzida pelo ar frio da noite escorregando montanha abaixo.
"Irmãos, concentração para recebermos nossos irmãos de outras galáxias. Vamos dar as mãos, numa corrente de energia, abrir nossas mentes e sintonizar nossos corpos para que o prana flua e os irmãos extragaláticos confiem em nossa presença, pela harmonia de Shiva."
Ohmmmmm, fremiam os presentes em resposta a tão elevados propósitos de tão iluminado intermediário.
"Irmãos, a maconha libertará nossas mentes dos pensamentos terrenos, vis e materiais", apelou o xamã dando uma tragada e não sem dar uma rabeada de olhos nos seios ofegantes de Juraci, candidata a sacerdotiza que, materialismos à parte, era possuidora de um par de peitos acima de qualquer suspeita.
Ohmmmmm, sussuravam os fiéis, exalando fumaça.
No transe, surge um barulho no cerrado em trevas. A emoção coletiva toma conta. Ohmmmmm, polegares unidos, olhos vidrados, arrepio na kundalini. "Estão chegando, irmãos. Estão vindo para nós", entusiasmou-se o sacerdote. Ohmmmmmm, manifestou-se o conjunto.
Luzes rasgando a escuridão como pequenos relâmpagos nos troncos retorcidos e galhos fantasmagóricos. Mais barulho, mais luzes, num espocar crescente. O frenesi coletivo caminhava rapidamente para a histeria. E haja maconha, indicadores nos polegares, olhos fechados e Ohmmmmms, cada vez mais fortes e ritmados.
Quatro focos de luz aproximam-se. Barulho aumenta e cessa de repente.
Zenita abre a porta, mas quem desce do carro é sua mãe, a senhora tabelioa.
Ouve-se o grito, a voz rouca e demoníaca da megera.
"Que suruba é essa? Antunes, já pra casa, seu imprestável vagabundo."
Lentamente, como quem desperta do coma, Antunes enrola-se no manto lilás, entrega seu colar à Juraci, entra no carro que arranca, deixando poeira e silêncio no renascer da escuridão.
"Nosso xamã foi abduzido, levado a outras dimensões. Estava muito acima de nós", afirmou Juraci para os participantes. "Transmutemos para ele nossa energia, para que olhe por nós da galáxia onde agora vive", continuou a aspirante sacerdotiza.
Ohmmmmmmm, foi a resposta da platéia.
Dizem que, no dia seguinte, Antunes foi visto no cartório do sogro, de volta a seus carimbos e papéis. Mas mantinha o olhar distante.

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