terça-feira, março 27, 2007

Invasão Espanhola

Transcrevo artigo de autoria do jornalista Sebastião Nery, publicado na Tribuna da Imprensa.
O jornalista Sebastião Nery tem uma história de coerência em sua vida. E de coerência nacionalista. Mesmo seus desafetos não conseguem deixar de respeitá-lo, embora tentem calá-lo com a redução de seus espaços, em vista de não conseguirem desmentí-lo.
A Tribuna da Imprensa é um dos poucos veículos independentes na imprensa nacional (sabe-se lá a que custo).
Ambos, jornalista e veículo, merecem nosso respeito.


"Tribuna da Imprensa 27 Mar 2007

O ministro do Santander

Em 20 de novembro de 1975, morreu o ditador Franco, "caudilho da Espanha pela graça de Deus". Com a democracia e a liberdade, em 4 de maio de 76 nascia "El Pais", hoje o maior jornal da Espanha e da Europa.

José Ortega, filho do filósofo Ortega y Gasset, e outros jornalistas não tinham dinheiro para lançá-lo sozinhos, venderam 25% das ações ao editor Jesus Polanco Gutierrez, da "Opus Dei", e a mais de mil acionistas individuais.

Polanco tinha por trás dele o Banco Santander e a Telefônica, que são associados. Foi comprando as ações dos outros e, quando conseguiu a maioria, pôs José Ortega como presidente honorário e assumiu o comando. Até hoje.

Espanha
Mas o que é que o Brasil tem com isso? Tem muito. Os três, Santander, Telefônica e Polanco, acabam de nomear o ministro do Desenvolvimento do Brasil, o jornalista, como Polanco, e banqueiro, como Polanco, Miguel Jorge.

Eles não desembarcaram aqui ontem. Na madrugada de 29 de dezembro de 94, dois dias antes das posses de Fernando Henrique na presidência da República e Mario Covas no governo de São Paulo, o óbvio presidente do Banco Central Gustavo Loyola decretou a intervenção no Banespa, que depois Fernando Henrique doou ao Santander, o maior banco da Espanha.

Quando Fernando Henrique privatizou o sistema de telecomunicações, o de São Paulo, maior e mais rentável do País, foi entregue exatamente à Telefônica espanhola, parceira do Santander e de Polanco. Tudo em casa.

Polanco
Polanco também não apareceu agora. Trabalhando para a ditadura de Franco desde 47, em 60 fundou a Editora Santillana, para livros didáticos. Em 63, já tinha uma editora na Argentina. Em 68, nos Estados Unidos. Em 69, no Chile. Depois, México, Venezuela, Peru, Colômbia, Equador, Porto Rico.

Passou a comprar as editoras concorrentes nesses países, como a Sudamericana (a de Gabriel García Marquez) e a Mecê (a de Jorge Luis Borges). Criou a Eductrade e a distribuidora Itaca. E logo tinha o monopólio de livros didáticos e material escolar em espanhol, na Europa e Américas.

E Polanco chegou ao Brasil. Em 2001, com o Santander e a Telefônica atrás, comprou as paulistas Moderna e Salamandra, as duas maiores editoras brasileiras de livros didáticos e infantis, e outras menores. Atacou também no Rio. Pouco depois, a sua editora Planeta tirava Paulo Coelho da Rocco e numerosos outros autores de outras editoras nacionais. O "dumping" continua.

Fernando Henrique
Toda essa história está contada, documentada, em dois best-sellers do jornalista espanhol Ramon Tijeras: "Como funcionam os grupos de pressão espanhóis - O Império Polanco" e "O dinheiro do poder - A trama econômica na Espanha". O que fizeram e fazem na Espanha é o que fazem também aqui.

Desde que deixou a presidência da República, Fernando Henrique está há quatro anos rodando pelo mundo, com todo seu charme e bom gosto, como um príncipe intelectual, um xeque-sociólogo, presidindo o Clube de Madrid, fazendo "conferências", participando de "seminários", dando "aulas".

Quem banca essa festa toda? O agradecido Santander, a quem Fernando Henrique literalmente doou o Banespa, o segundo maior banco público do País. É um troca-troca sobre o oceano. O Santander é o fundador, financiador e dono do Clube de Madrid, em cujas doces águas Fernando Henrique navega.

Miguel Jorge
Não é surpresa a posse, hoje, do novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, vice-presidente do Santander desde 2001. Jornalista competente, foi para São Paulo na década de 60, com o chamado "grupo de Minas", que ajudou Mino Carta e Murilo Felisberto a fundarem o "Jornal da Tarde". Acabou diretor de redação do "Estado de S. Paulo", de 77 a 87.

De lá foi 15 anos diretor da Autolatina (Ford e Volkswagen) e em 2001 para o Santander, onde, "nos períodos pré-eleitorais, costumava montar um escritório para receber políticos que buscavam doações eleitorais. O Santander foi o segundo maior doador (o primeiro foi o vice José Alencar) da campanha de Lula à presidência em 2002, com R$ 1,4 milhão, o mesmo valor doado ao tucano José Serra. O número total (R$ 4 milhões) contrasta com os R$ 12 mil declarados em 2006. O Santander optou pela chamada doação camuflada, uma brecha na legislação que permite doar o dinheiro para os partidos que, depois, o repassam para os candidatos" (Regina Alvarez e Ricardo Galhardo, "O Globo").

Os três
No Brasil rural de antes de Juscelino, quem fazia ministros eram os bancos de Minas: Lavoura, Nacional. No Brasil industrial, depois do golpe de 64, Delfim levou o sistema financeiro para São Paulo, e o Bradesco, o Itaú é que passaram a nomear governadores e ministros. No Brasil colonizado de Fernando Henrique e Lula, quem manda são os bancos estrangeiros.

O Boston (aquele dos trambiques ilegais de dólares) impôs Henrique Meirelles no Banco Central. O Santander de FHC nomeou Miguel Jorge para o Desenvolvimento. Nesse fim de semana, a Polícia Federal denunciou o Merrill Lynch por "lavagem e remessa ilegal de dólares". Vem aí um ministério para ele. O Brasil adora um bandido externo. De preferência, norte-americano."

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Polanco.....¿Pretende "exportar su antiamericanismo furibundo" a Brasil?

2:43 PM  
Blogger Frega Jr said...

Não entendi o comentário, a quem se refere.
Polanco não me parece antiamericano. Pelo contrário, faz o jogo da globalização sem pátria e fronteiras.
O autor do artigo, S. Nery, nos poucos contatos pessoais que tive, passou-me a impressão de suas posições são nacionalistas, não antiamericanas.
Da mesma maneira este signatário nada tem de antiamericano. Somente sou brasileiro e essa é minha prioridade.
Gostaria que ampliasse seu comentário, para podermos melhor debater seu ponto de vista.

11:50 AM  

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