quarta-feira, março 21, 2007

Bicho-Papão IV

Assim como a miséria, as desigualdades de oportunidade, as cidadanias diferenciadas e classificadas, o desrespeito aos mais fracos, a leniência de autoridades, a corrupção, o peculato socialmente admitido, tudo isso e muito mais são faces do meu atual bicho-papão.
Porém, creio que a pior delas é o preconceito. Que estigmatiza. Que rotula. Que prejulga. Que difunde o medo. Que inspira o pavor. Terrorismo ideológico.
O preconceito é o maior obstáculo à evolução dos bichos-papões de cada um de nós.
E se o bicho-papão não evoluir, transmutar-se, perde-se no contexto temporal. Fica desatualizado. É defunto que não morre. Um Zumbi. Fantasma.
Meu bicho-papão deixou de ser o comunismo. Não porque ele fosse bom, mas porque não mais existe. Perdeu-se no tempo. É passado. Também não é mais o holocausto nuclear. Porque os líderes nacionais não são suicidas. A destruição planetária por uma chuva de radiação, por neutrons e elétrons e por todo um abecedário de raios e ondas, é remotíssima.
Meu bicho-papão mudou. Mudaram também os bichos-papões de todos? Sim e não.
Para muita gente, o bicho-papão continuam sendo os comunistas, reais ou imaginários. Por puro preconceito que tolda a visão crítica. Para outros, são os antigos adversários dos combates. São bichos-papões personalizados. Para alguns, o tempo não passou. Vivem da saudade, não usufruem dela.
A eleição de Lula, independente de se gostar ou não de sua conduta, representou uma vitória sobre o preconceito. Mas também deu cara ao bicho-papão de alguns. Questionando nomes e personalidades pelas posições que adotaram, lá atrás, no mundo bipolar. Não por suas posições de hoje, no mundo de hoje.
Continuam com o mesmo bicho-papão de antes.
Muito se reclama de ações como do Bolsa Família. Bando de vagabundos, serve pra tomar cachaça, estimula a inércia etc. É verdade, em alguns casos. Mas quem de nós, no calor de nossa casa e de nossa comida, pode julgar a carência absoluta, conhece a realidade da miséria, da desesperança, do desânimo pela vida? Quem? Se programas desse tipo servirem para dar esperança de vida a alguns compatriotas, já é útil. Mesmo que outros desperdicem a oportunidade, por ignorância.
Por preconceito, rotulam ações sociais como marxistas, executadas por marxistas e que pretendem, em futuro não longínquo, implantarem um Brasil marxista. Grande parte dos que assim pensam sequer leu O Capital.
Recusam-se, por preconceito, a admitir o julgamento e a opção popular fora do contexto pseudo-aristocrático ou acadêmico.
E divulgam seus medos pelo mais fantástico meio de comunicação interpessoal desde a criação da linguagem falada. A internet faz dos bichos-papões seres imortais.
Para uns, o bicho-papão continua a ser o comunismo. Para outros, o terrorismo revolucionário. Para uns, o Lula. Para outros, Tarso Genro ou até Franklin Martins. Revivem o ogro por 40 anos ou mais. Não o deixam morrer. Consideram-lhe imutável, à espreita da primeira oportunidade para atacar, para comer criancinhas. Não perceberam que o mundo mudou. Que as pessoas amadureceram. Que fronteiras e o controle político sobre as populações são mais frágeis. Que a opressão e tirania não mais conseguem ficar incógnitas, em gulags, em campos de concentração, em cárceres políticos.
É o mesmo tipo de gente, num contraponto de sinal trocado, que promove e paga indenizações imorais a título de reparação pelos reflexos dos combates pós 64. É gente que não consegue virar a página.
O não questionar criticamente nossos medos torna-os irracionais. Sem serem inverídicos, porque baseados em fatos, mas irreais, porque intempestivos. Os medos não podem fugir do ambiente temporal e geográfico. Mais do que do histórico.
Afinal, história não é necessariamente o que aconteceu, mas sim o que foi escrito.
(Ufa! Acabou. Agradeço a paciência de quem conseguiu chegar ao fim)

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