terça-feira, março 20, 2007

Bicho-Papão III

E, nas bombachas de Jango e no arrastado verbal de Brizola residia, escamoteado, o bicho-papão. Em suas mil faces, nivelaram-se e confundiram-se comunistas reais, agentes dispostos a implantar o comunismo na marra, mesmo que pelo terror, com intelectuais e pensadores, líderes comunitários, sindicais e estudantis, cada um deles buscando melhor condição para sua categoria ou no livre expressar de seu pensamento.
E não é falácia. Conheci alguns deles. Um foi declarado comunista porque transcrevia pensamentos do filósofo Jose Ingenieros, extraídos do livro O Homem Medíocre, no mural da escola. Outro, dirigente sindical dos bancários em Porto Alegre, por sinal primo distante do então governador do Estado, foi espancado e preso por liderar uma passeata contra a implantação da lei do FGTS.
É evidente que esse era o melhor caminho para o recrudescimento das lutas. A repressão indiscriminada, a confusão de propósitos. Os agentes do bicho-papão passaram a contar com adesões e mais adesões. Bem formados e doutrinados, conseguiram conduzir massas heterogêneas, alguns por idealismo, outros por revolta pessoal. Liderados pelos comunistas e sem formação política crítica, muitos, que de comunistas nada tinham, fizeram o jogo deles.
Como atenuante, não se pode esquecer que o mundo vivia em ambiente bipolar, sem chance para uma terceira via. Ou se aderia a um lado, ou a outro. E os critérios de julgamento sobre o lado que as pessoas estavam também era contaminado pelo ambiente maniqueísta e pela paixão irracional da ignorância e do medo. Quase uma torcida de futebol.
Mesmo assim, pela primeira vez comecei a questionar a real natureza do bicho-papão. A questionar verdades dogmáticas. A me recusar a aceitá-las como um axioma. Timidamente, é verdade. Mas comecei a adquirir o hábito do questionamento.
O movimento comunista não lutava por qualquer tipo de redemocratização do Brasil. Aproveitava-se dos que por esse motivo lutavam. Tinham, somente, um adversário comum. A negação desse fato é uma das grandes mentiras que nos bombardeiam até hoje. Tão grande quanto a afirmar que todos os que combateram a revolução de 64, ainda que com armas, eram comunistas. Em especial a juventude, sempre cheia de ideais e pouco experiente, que foi utilizada como massa de manobra. Sempre o é.
Foi nessa época em que o meu bicho-papão travestiu-se. Desmaterializou-se. Dissolveu-se. Perdeu o rosto e começou a adquirir a forma informe das idéias. O bicho-papão começou a ser o contraste. A injustiça. A opressão. A falta de escolhas. O pensamento único obrigatório. O não pensar. A cristalização das desigualdades hereditárias. O racismo. O preconceito. O fundamentalismo.
Meu bicho-papão não ocupa mais meus sonhos. Meu bicho-papão é a realidade de cada dia.
Combatê-lo, é uma ação diária. Como o de antigamente, continua tendo várias faces. A cada uma, um combate específico.
Meu bicho-papão evoluiu. Já não mais mete medo. Pelo contrário, gera indignação.
A miséria é uma das faces cruéis do novo bicho-papão.
(Sei que já está ficando chato. Prometo encerrar o assunto amanhã)

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