segunda-feira, março 19, 2007

Bicho-Papão II

E cada vez que a Rádio Nacional soltava a vinheta de edição extraordinária do Repórter Esso, na voz de Eron Domingues aguardávamos o anúncio do desembarque soviético nas costas brasileiras. Era o bicho-papão chegando. Com alívio, a notícia era sobre alguma batalha na Coréia, onde o bicho-papão já havia chegado. Procurei no mapa, a Coréia era bem longe, o bicho-papão demoraria a nos alcançar.
A não ser que os agentes brasileiros do bicho-papão ficassem mais ativos. Prestes já não havia tentado em 1935? Urgia caçá-los, fosse onde fosse. O senador McCarthy não estava fazendo isso, lá na pátria livre? Ora, os traidores disfarçavam-se. Qualquer um que lutasse por melhores condições de trabalho, de oportunidade; qualquer um que ousasse criticar a política americana não era taxado de comunista, sendo de fato ou não? Bastava parecer para ser.
Aqui também. Gritar "O Petróleo é Nosso" era coisa de comunista. Tentar uma Lei de Remessa de Lucros, impensável. Pichar, então "Yankees Go Home" era o cúmulo do adesismo. Tudo coisa dos agentes do bicho-papão.
Claro que os americanos não eram onipresentes. Haviam se omitido no massacre em Budapest, como também se omitiriam, mais tarde, na Primavera de Praga. Na época eu não sabia que haviam previamente combinado não intervir lá, era terreno cedido aos russos. Eu só achava que era mais um tentáculo do bicho-papão.
Enquanto isso, a Voz da América assegurava a derrubada de MIGs 15 e o avanço americano na Coréia, impedindo a ameaça ao mundo livre. Ainda bem.
O bicho-papão, em meu imaginário, começou a adquirir, às vezes, olhos oblíquos, ensombreados por um chapéu cônico de palha de arroz. Amarelado de desnutrição, pois sua dieta reduzia-se às sobras das plantações nos banhados que não fossem bombardeados com agente laranja. Fêmur de criancinha? Nenhum, pois os americanos haviam, certamente, colocado todas as crianças sob sua guarda.
Malditos comunistas, a eles agregados a quadrilha de Mao Tsé Tung que tinha posto o ditador aliado aos americanos, Xiang Kai Chek, para nadar até Formosa . Lá, eles já tinham ganhado a luta. A gente que se cuidasse.
Nesse meio tempo, aqui no Brasil, num macartismo retardado, oradores no padrão de Carlos Lacerda insuflavam e exacerbavam o medo do bicho-papão, rotulavam pessoas e adversários com a pecha de comunistas. Um presidente foi levado ao suicídio.
Mas os americanos continuavam incansáveis, num altruísmo de fazer inveja a São Francisco.
Nesse momento, o bicho-papão mudou de face. O medo adquiriu o nome de holocausto nuclear. Por obra e graça de Rosenberg, ou não, os comunistas quebraram o monopólio americano de armas nucleares. O bicho-papão podia acabar com o mundo e com nossas mocidades. Com armas milhões de vezes mais potentes das que os americanos pulverizaram Hiroxima e Nagazaki. O fim da aventura humana na terra, que depois virou música.
A ameaça nuclear foi o bicho-papão da vez. Claro que a culpa era dos comunistas. As armas americanas seriam só para nossa defesa, nunca para atacar os outros.
Como dois cachorros raivosos, cada um latia mais alto em seu lado da cerca. Mas sem ultrapassá-la. Em minha cabeça, os latidos comunistas eram a ameaça do bicho-papão. Os latidos em inglês eram de nosso cachorro. Para nos defender.
Pouco tempo depois, foi a vez do Vietname, de onde os franceses haviam sido postos para correr, em Diem Bien Puh. Malditos Mao Tsé Tung e Ho Chi Min, agentes do bicho-papão. Maldito General Diap, seu delegado.
Os vietnamitas seriam livres dos agentes do bicho-papão, nem que fossem forçados a isso. Que fosse na marra, mas seriam. Os americanos, da tropa de Westmoreland, eram a nossa segurança.
Com tanta confusão, o bicho-papão desmaterializou-se em imagem. Disfarçava-se com mil faces, igual ao Cão. De quem era, certamente, filho. Mas, seguramente, continuava comunista.
A vigilância tinha que ser redobrada. Ora, não tinha assumido a presidência um milionário e latifundiário, um dos maiores pecuaristas do Brasil que tinha se aliado ao bicho-papão? Cúmulo do absurdo, tinha chefiado uma missão diplomática-comercial com a China. Queria fazer as chamadas reformas de base, como reforma agrária, reforma bancária, lei de remessa de lucros e outras menos polêmicas que hoje pareceriam travessuras de meninos.
A vigilância aqui tinha que ser redobrada, pois esse presidente havia sido eleito pelo povo. Mas quem é o povo. Pouco interessa se esse presidente era rico e essencialmente capitalista. Era, antes, um comunista muito bem disfarçado. Provavelmente por Moscou e sua fortuna teria origem em manobras da KGB (ainda chamava-se NKVD). Por isso o povo foi iludido e os bons brasileiros teriam que salvá-lo, antes que fosse tarde.
Assim, meu bicho-papão vestiu bombachas e aterrisou em Brasília.
(Continua amanhã, para os que ainda tiverem saco para ler.)

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