domingo, março 18, 2007

Bicho-Papão I

Confesso. Tive medo de bicho papão.
No imaginário infantil, os medos coletivos passados para mentes virgens cristalizavam o pavor de inimigos imaginários, prontos para causar toda a sorte de danos, físicos e morais.
Na minha geração, nascida ao final da II Guerra, o bicho-papão eram os comunistas. Vejam, comiam criancinhas (nada a ver com os casos de pedofilia clerical) assadas, ao som de risos e danças cossacas. Eram ateus, inimigos do Papa, este sim defensor do bem e artífice do paraíso. Chegavam a afirmar que a religião era o ópio do povo.
A minha geração acompanhou os comunistas levantarem o muro de Berlim, o que forçou os americanos a promoverem a fantástica operação da ponte aérea, frustrando o sítio. Os comunistas matavam quem ameaçava pular a cerca que dividia a Alemanha.
Mas minha geração nunca escutou nada sobre o bombardeio em Dresden, já em 1945, com a Alemanha derrotada. Nem sobre campos de concentração na Califórnia. Nem sobre as atrocidades cometidas pelas patrulhas americanas. Os alemães lutavam até a morte porque era mais suave morrer do que cair cativo em mãos americanas. Ao extremo, uma divisão do exército alemão rendeu-se a uma companhia brasileira para evitar serem prisioneiros de guerra deles.
Não se comentava nada o fato da divisão da Alemanha resultar do acordo anglo-americano-soviético em Ialta. Nada se comentava da decisão em repartir o mundo entre duas ideologias. Nem que a Alemanha também estava ocupada por americanos e ingleses (os franceses já haviam saído após imporem suas fronteiras). Nada se comentava que pudesse minimamente igualar os dois senhores do bem e do mal, Estados Unidos e URSS, nessa ordem.
Que a ditadura soviética era brutal não se questiona. A cultura russa nunca viveu regimes de liberdade, nem sob Catarina, nem sob Pedro, nem sob Alexandre, nem Lenin, Stalin, Krutchev, nem sob os ditadores subseqüentes, nem na glasnost e perestroika e também na Rússia de Putin.
A cultura deles é outra e a opressão, para eles, tem cores diferentes das que enxergamos.
Porém, no maniqueísmo que nos era incutido, confesso. Em minha primeira infância, o bicho- papão parecia um soldado soviético, devorando um fêmur infantil tostado numa fogueira, com um riso falho de dentes. Cuspindo num crucifixo. Xingando o Papa.
Sem dúvida, tinham que ser eliminados da face da terra antes que em Florianópolis (era lá que eu morava) aportassem. Nesse sentido, muito pedi a Deus, com o apoio das freiras e padres da catedral. De quebra, também entravam na oração os protestantes, espíritas e maçons, todos com negócios com Belzebuth e que, talvez, fossem até comunistas desfarçados. Anticristos.
Convencido que fui, convencido fiquei. O comunismo era a grande maldição da humanidade, praga apocalíptica, prevista por Nostradamus. Urgia eliminá-lo, mesmo antes de se preocupar com o desenvolvimento do Brasil, com a redução da miséria, das desigualdades, das oportunidades. De que serviria uma sociedade próspera se o inimigo poderia vir e tomar tudo? De que adiantaria o ideário humanístico, formulado ainda na Revolução Francesa, de liberdade, igualdade e fraternidade? O último bastião de nossa defesa, os Estados Unidos, ainda segregava seus cidadãos pela cor da pele. Mas eles sim é que eram uma sociedade civilizada, não aqueles selvagens bolcheviques, que reuniam-se somente para maquinar como subjugar o ocidente.
Por isso tudo, meu bicho-papão tinha uma estrela vermelha em seu boné de pele. E um riso sinistro de maldade, pronto para espetar criancinhas e assá-las numa fogueira, escutando Olhos Negros.
(Para preservar a paciência de meus dois ou três leitores, dividi este escrito em episódios. Amanhã continua a saga do bicho-papão)

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