sábado, julho 18, 2020

República Militar Positivista

O positivismo, a par de sua conceituação filosófica, pretendia-se uma religião.
Defendia a imortalidade da alma cultuando, subjetivamente, a memória dos mortos pelas contribuições  deixadas à cultura e ciência, conforme a Ordem Humana formulada por Comte, e que a vida deve ser vivida segundo princípios estritamente humanos, sem apelo a nenhuma metafísica, sob a guarda e inspiração da ciência e da ética.
Templos positivistas foram erguidos, todos com a máxima "Os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos" expressos em seus frontispícios. Até a década de 1950 ainda havia no centro de Florianópolis um templo positivista onde essa inscrição era visível. Não sei se ainda há hoje. Em Porto Alegre, até 2009 pelo menos, ainda havia um desses templos.
Chocava-se também o positivismo com o catolicismo, religião oficial do Império.

Formulada por Auguste Comte (*Montpellier 1797 + Paris 1857) em 1842, afirmava que os fenômenos sociais devem ser observados em similaridade com os fenômenos naturais, obedecendo assim leis gerais. O espírito positivo baseia-se na ciência como elemento de investigação e no campo sócio-político, o poder seria exercido pelos filósofos positivos com o balizamento pelo bem público, coletivo e individual. Para Comte, positivo pode ser definido por real, útil, preciso, relativo, orgânico e simpático.

A escala de valores positivistas, em número de treze, hierarquizava os valores da sociedade, do maior para o menor. Humanidade, Casamento, Paternidade, Filiação, Fraternidade, Domesticidade, Fetichismo, Politeísmo, Monoteísmo, Mulher, Sacerdócio, Patriarcado e Proletariado."
Bem se vê o profundo descarte do "povo", deterministicamente condenado a fazer sempre as piores escolhas. Vem daí o desprezo pelos valores democráticos. Se a elite - no caso os positivistas - não governarem, serão governados pelos medíocres. Dois pilares sustentam o positivismo político: a aristocracia como sistema governo e o zelo com as contas públicas.

Impregnado de um pseudo cientificismo, até novo calendário (à semelhança da revolução Francesa) foi criado
Teria o ano 13 meses de 28 dias e um ano bissexto para ajuste. O nome dos meses também batizados com vultos históricos da filosofia, ciência e política. Como curiosidade, vão aí seus nomes: Moisés, Homero, Aristóteles, Arquimedes, Júlio César, São Paulo, Carlos Magno, Dante, Gutemberg, Shakespeare, Descartes, Frederico II e Bichat. Afinal, os vivos são governados pelos mortos por sua contribuição científica.

Benjamin Constant (*Niterói, 1836 + Rio de Janeiro, 1891), um engenheiro que passou um ano na Guerra do Paraguai e que era um feroz critico de sua condução, inclusive quanto a Caxias, retornou e foi professor da escola militar da Praia Vermelha, formadora de oficiais.

Positivista por convicção e antimonarquista, Constant influenciou fortemente os então cadetes.
A monarquia fundava-se na transmissão hereditária dos governantes, isso o ofendia, pois dentro dos conceitos positivistas, somente os melhores poderiam governar. A par disso, sendo o Conde d'Eu neto de Luis Felipe I da França, embora tendo renunciado aos direitos sucessórios, era visto com desconfiança. A cultura misógina inferia que, ainda que Imperatriz, Isabel seria submissa ao marido, este com simpatias ao Partido Liberal. Constant militava no Partido Conservador.
A abolição da escravatura, a par da perda do apoio da elite econômica, colocava "uma raça inferior" ao nível dos demais cidadãos em direitos, corrompendo ainda mais a já desprezada participação popular pelo positivismo.
Os oficiais militares, vitoriosos nos campos de batalhas, tornaram-se supremacistas, cobravam um preço moral por seu heroísmo, viram-se como a elite capaz de substituir a elite monárquica.
Só aos melhores caberia governar. E os melhores eram os que teriam arriscado suas vidas em luta. Raciocínio simplista.
Constant foi o primeiro Ministro da Guerra republicano, posteriormente também Ministro da Instrução Pública. Em ambas funções, o Positivismo encontrou campo fértil para sua difusão.
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Imposta a República pelo oficialato e sem participação popular, tornou-se o positivismo o pensamento dominante, a começar pelo dístico de nossa bandeira, o famoso Ordem e Progresso, extraído do preceito positivista "O amor por princípio. A Ordem por base. O progresso por fim."
É importante ressaltar que dentre os valores positivistas, o proletariado ocupa o último lugar.
Esse desprezo conceitual pelas massas, pelo povo, foi um dos fundamentos da nossa república  militar positivista. Até os dias de hoje sentem-se seus reflexos.
Os militares, assim, preencheram o vácuo de poder aberto com o banimento do Imperador.


Benjamin Constant

Auguste Comte


2 Comments:

Blogger ALL XXX said...

Excelente.Trabalhei recentemente sobre a República no Brasil. Vou disponibilizar o texto.

9:46 AM  
Blogger FregaJr said...

Obrigado. Abr

8:06 PM  

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