sábado, outubro 28, 2017

Agropop, Canalhas do Plimplim e Geopolítica do Capital



 Há uma piadinha gaúcha em que um guasca, isolado historicamente no interior ainda ermo, viu um dia passar um trem na linha férrea recém-construída. Nunca tinha visto alguma coisa assim, soltando fumaça pelas ventas e assobiando. Decidiu pegar o bicho.
Preparou seu laço de 7 braças, esporeou o pingo e garroteou a chaminé. Voaram ele e o cavalo.
Levado a um hospital em Porto Alegre para tratar das quebras, dois meses depois já caminhava, rengueando de uma perna e ainda dolorido. Foi conhecer a Rua da Praia. Numa dessas, passou em frente a Americanas e viu um trenzinho de brinquedo. Sacou seu 32 e deu três tiros. Preso, na delegacia, explicou ao delegado:
- Doutor, vô le contar uma coisa. Esse bicho tem que matar enquanto é pequeno, dispois que ganha campo ninguém segura.

O Capital decidiu: o Brasil deve-se reduzir a um fornecedor agrícola, inteiro ou em partes.

Detentor de enormes riquezas naturais, localizado em região pouco suscetível a cataclismos naturais, com água e sol fartos, grande território contínuo sem conflitos fronteiriços e numerosa população, o Brasil surge como uma das potências mundiais naturais. Nos conceitos teóricos, sua força nacional é invejável.
Outros países com territórios equivalentes e grandes populações são naturalmente consideradas potências: Estados Unidos, China, Rússia. Mas não o Brasil, relegado a uma posição subalterna e terceiro-mundista.
O Capital não deseja sua independência, apenas o quer como seu almoxarifado e lavoura. Decidido que seu papel é de fornecedor de matérias-primas e de comida. Não lhe é permitida insubordinação ao papel predeterminado.
E os cordéis são manejados.

Na primeira década deste século, o Brasil tentou.
Apostando em seu mercado interno de consumo e com medidas protecionistas, fortaleceu sua capacidade produtiva. Apostando na necessidade de desenvolvimento científico e tecnológico, massificou o acesso escolar e investiu na formação de cientistas.
Na contramão do propugnado pelo Capital, adotou políticas de redução das criminosas assimetrias sócio-econômicas, como elemento de pacificação interna. Com a consciência de que independência política somente é sustentável com a conjugação de independência econômica e capacidade de defendê-la, ampliou sua capacidade de defesa. Utilizou como fontes de recurso iniciais nesta etapa exatamente o que o Capital dele espera: o agronegócio e riquezas naturais não renováveis.
E estendeu as asas de influência comercial e econômica em quintais menos prioritários aos centros do Capital, como África, América Latina.

Tudo isso de forma sorrateira, cuidando para não parecer uma ameaça, compondo e transigindo, cedendo no menor para obter o maior. 
Tudo com um alto custo para minimizar riscos, numa sociedade historicamente conservadora, dogmática, inculta e arbitrária. E chegou-se tangenciar a ruptura, o grito de independência, a conquista de um destaque autônomo.
Mas não eram planos geopolíticos que essa etapa fosse provisória. Haveria que matar as pretensões, estava fugindo dos planos mundiais. Passou a ser uma ameaça à ordem estabelecida. Aprenderam com as experiências na Rússia, na China e até em Cuba, esta inclusive sem poder nacional.
O bicho tem que matar enquanto é pequeno.

Veio o golpe como instrumento e, com ele, a reversão de um projeto nacional, cumprindo à risca as ordens recebidas.
Congelem-se os recursos para a educação, liquidem-se as pretensões de desenvolvimento científico, interrompam-se políticas sociais e trabalhistas, pois a fome propicia mão de obra barata e descartável, revejam-se políticas ambientais, como forma de ampliar áreas agricultáveis, transfiram-se ao controle direto do Capital as riquezas não renováveis.
O país deve-se limitar ao papel pré-estabelecido de exportador de alimentos e recursos e não se meter a besta. Se necessário, que seja dividido e partilhado diretamente o butim.
Utilizem-se os meios de comunicação, bem pagos, para esclarecer ao povo que esse destino, predefinido estrategicamente nos gabinetes, é nobre, o melhor que se possa ter.
E que o real perigo é o comunismo, manobra diversionista sob medida para uma sociedade conservadora e inculta, cantilena massificada por décadas de bombardeio midiático e que sempre fará sentido a segmentos patriarcais, patrimoniais, misóginos, escravistas e machistas.
E, acima de tudo, ignorantes.
Afinal, o Agro é Pop.