quarta-feira, março 18, 2015

O Impeachment e a Japonesa

Contam que certa vez uma imigrante japonesa veio para o Brasil. Aqui esqueceu o japonês e nunca aprendeu a falar português. Morreu conhecida como a japonesa muda.
E o que tem isso a ver com impeachment, os impacientes perguntarão. Tudo, eu respondo. E explico.
Dilma foi eleita por uma maioria que desejava mudanças de conduta de gestão, mas queria manter o projeto. Dilma manteve a conduta e mudou o projeto. Deveria ser aplaudida pela oposição, que reza exatamente por esse catecismo deletério. Mas a luta pelo poder é cínica, serve-lhe de munição para agravar a perplexidade dos que a elegeram.

A austeridade tão desejada não teve ações concretas. Uma redução pela metade, por exemplo, no número de ministérios. As atividades dos inexpressivos poderiam ser abrigadas tranquilamente em Secretarias. Seria ao menos uma demonstração de vontade. Mas não, manteve o mesmo procedimento de loteamento para uma base parlamentar que não existe.
Medidas legais anti-corrupção. Encaminhou ontem - dentro do prazo prometido - ao Congresso um pacote delas, de conteúdo ainda desconhecido. No entanto, a lei 12846/2013 não foi regulamentada desde então. E isso era muito mais fácil de fazer, poderia ter providenciado há tempo.
São somente dois exemplos.
Já em relação ao projeto, tenta promover o ajuste como se lesse a cartilha neoliberal, a mesma que afunda tudo e todos e que faz a Europa sossobrar nos mares da recessão. Aumenta juros e impostos; inoportunamente, embora acertado no mérito, altera condições previdenciárias e de suporte laboral; compromete programas como Pronatec e Fies, ainda que temporariamente.
Está igual à japonesa muda.
Ontem declarou o patético presidente do PT a defesa pelo retorno da CPMF, imposto cruel e impopular em excesso a qualquer imposto.
Sem contar as posições de uma militância fanática, minoria, mas fanática, que pretende a tudo justificar com argumentos de que a atual oposição fez pior. Fez sim, mas já se passaram 12 anos, a memória é curta e as correções foram poucas.
Com efeito, Dilma não merecia inimigos íntimos na sala ao lado. Bastaria a ela a oposição, que não é pequena.


A cada dia surgem, em conta-gotas, doses homeopáticas porque constantes, novos escândalos. Surgem aos poucos porque o cronograma político é esse. Pouco importa se a corrupção em seu governo é menor - realmente é - do que as verificadas nos governos FHC e Lula, especialmente no primeiro. As bombas de retardo plantadas por um modelo político podre que indissocia a corrupção à governabilidade estão estourando no seu colo. Como a bomba do Riocentro, pros antigos que se lembram ainda do sargento Rosário.
No imaginário popular consolida-se a imagem de corrupção a seu governo. E isso é fatal.
Por falar em bombas e japonesa, lembro-me da bomba atômica, talvez um dos artefatos de concepção mais simples. Basta juntar pouco mais de 20kg de U235. Com essa massa crítica, inicia a reação em cadeia, incontrolável enquanto ocorre. Não é fácil juntar tudo isso, mas juntou.... BUMMMMMM.
Não é fácil também juntar uma rejeição popular que atinja a massa crítica. Mas ela está se formando, e rapidamente. Haverá tempo de interromper a marcha dos acontecimentos? Não sei,  pelo andar da carruagem possivelmente não.

Por ocasião do impeachment do Collor, Zé Dirceu declarou em entrevista no Roda Viva que impeachment não ocorre no Congresso, como muitos pensam, mas nas ruas. E ele tinha razão. E também tinha razão ao afirmar que era medida política, não jurídica.
Claro, ninguém até agora pode afirmar que Dilma roubou, que aproveitou-se pessoalmente do ambiente corrupto e promíscuo do orçamento da União. Mas o julgamento é político.
O tribunal essencialmente político que temos chama-se Tribunal de Contas da União. Esse tribunal não jurídico age sob motivações políticas somente. Irão vasculhar as decisões do CA da Petrobrás ao tempo em que Dilma o presidia. Se não acharem pêlo em ovo, inventarão. Ela não sairá ilesa do massacre.
Com uma política de arrocho ortodoxa, cujos bons resultados não são esperados em prazo curto, se é que acontecerão, potencializada pela enorme instabilidade política em crise de governabilidade, o ambiente torna-se nitroglicerina pura.
Nesse cenário, o impeachment é favas contadas.

Haverá, sim, debates jurídicos sobre a constitucionalidade, mas não esqueçam que o julgamento é político, conforme profetizado por Zé Dirceu. É golpe? Sim, é golpe, é terceiro turno, tudo o que quiserem. Mas não é quebra institucional.
Não haverá sequer quebra se isso gerar convulsão popular, luta armada, falência das instituições. Nesse único caso, a intervenção das forças armadas também é constitucional. Apaziguados os ânimos, retomando os poderes a capacidade de exercer suas competências, voltam aos quartéis. É isso que nossa Constituição expressa.

Eu sou frontal e totalmente contrário ao impeachment, penso que será um retrocesso abandonar um projeto vitorioso de inclusão social, de nacionalidade, de liberdade. Uma lástima para o Brasil.
Mas, querem saber? Eu não pegaria em armas para defender o modelo de gestão que aí está.



2 Comments:

Blogger RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ said...

Também não apoio o impeachment da presidenta e acho que isso implicaria num terrível retrocesso e pode aumentar a nossa instabilidade política porque o vice Michel Temer passaria a ter que controlar diversos descontentamentos à direita e também à esquerda, devendo se posicionar por um dos lados (cada vez nossa sociedade torna-se mais polarizada). Em países maduros oposição se faz a um governo sem por em risco a estabilidade das instituições. É o que penso mesmo estando bem insatisfeito com o governo cuja representante elegi em segundo turno por simples falta de opção melhor.

6:49 PM  
Blogger Frega Jr said...

Concordo, Rodrigo. Colocar em risco instituições como forma de oposição é irresponsabilidade. abr

10:10 AM  

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