quinta-feira, janeiro 22, 2015

Nuvens Negras

Os primeiros acordes do novo governo já foram tocados. Os primeiros compassos, as notas de abertura. A orquestra ainda não afinada, o esforço da maestrina para que a harmonia se faça.
É que governos não se ensaiam, a partitura vai sendo escrita ao longo da execução da obra.
Até aí, é compreensível uma ou outra escorregada de equipe, uma ou outra declaração contraditória.
Há 20 dias teve o início. Parece tanto tempo, pois a reeleição sempre sabe a mais do mesmo. Mas não é.

O pior é que este início de governo está apontando para um rumo preocupante. A presidente, parece, assimilou os golpes de campanha e submeteu-se ao receituário recessivo, em tudo semelhante ao do FMI. A velha e conhecida cantilena de defesa do capital, a primazia de superávits em detrimento da inclusão social. A presidente deu ouvidos à minoria e está adotando medidas que cairiam no figurino do projeto derrotado. Medidas semelhantes às que incendeiam a zona do Euro fora do eixo franco-germânico, às que nos mantiveram cativos e submissos por 3 décadas.
Aumento de juros, corte de créditos, ensaios de abandono de bandeiras próprias, como o balão de ensaio à abertura do capital da Caixa. Aos níveis atuais de juros, algo em torno de 6% do PIB - R$ 250 bi - serão drenados da poupança pública para a privada a título de serviço da dívida. O tal superávit, projetado para 1,2% do PIB, nota-se, por evidência, a necessidade de utilização de rubricas do orçamento fiscal para cobertura.
O receituário neoliberal, pura e simplesmente, paga os juros aos rentistas com a miséria criada. Em minha ignorância, adiamos a possibilidade do Brasil voltar a crescer de forma sustentável.
Não é isso que espero deste governo, não foi para isso que lhe dei meu voto. E ainda tenho esperança de que assim não seja.

Era necessário um freio de arrumação, sem dúvida. Por um ano fomos todos bombardeados por editorias regiamente pagas para disseminar o caos, para criar a insegurança, para pintar um quadro que não existia. Tiveram êxito no plantar da desesperança, no jogo anti-nacional. De tanto acusarem de descontrole inflacionário, esse fenômeno psico-econômico criou materialidade. A densidade de mentiras habilmente plantadas e repetidas à exaustão adquiram ares de verdade. De tanto insistirem que estaria o Brasil ladeira abaixo, criaram a ladeira e o carrinho de rolimã. A par disso, o modelo de fomento ao consumo interno esbarrou no limite do endividamento familiar.

O cenário externo é de ambiente pré-guerra. O interno é preocupante por fenômenos naturais e políticos. Reconheço que há necessidade de adequação a esses cenários.
Especialmente nos dois anos finais do último mandato, o governo fez a aposta de que os cenários externo e interno não se sustentariam em crise. Represou os aumentos de combustível, embora o petróleo tivesse atingido a impressionante cifra de U$ 130/barril, quase três vezes o nível atual. Parcialmente compensou zerando a CIDE, promoveu outras desonerações tributarias setoriais. O mesmo fez com a energia elétrica, com preços pressionados em decorrência das privatizações. Tudo teria dado certo se ganhasse a aposta, mas isso não se verificou.

No ambiente interno, a pressão inconseqüente corporativo-sindicalista para ganhos reais nos salários pressionará os gastos públicos na já inchada folha dos servidores e os custos de produção no segmento privado. São evidentes os reflexos no fluxo de comércio internacional, somente compensados pela desvalorização mais e mais da moeda nacional. E que implica em inflação.
Enfrentaremos mais um ano de estiagem intensa. A falta de água para consumo em centros urbanos trará o caos social a megalópolis. Isso já se configura como inevitável. A transferência das atividades econômicas para áreas menos vulneráveis à falta de água resultará em desemprego localizado e atingirá grande parte da população mais desfavorecida, a mão-de-obra menos qualificada.
A permissividade com os movimentos ambientalistas e indigenistas, de mãos dadas para promover atrasos, embargos e bloqueios em obras de hidrelétricas nos levou ao limite, consumiu os estoques excedentes de geração elétrica. Não há mais margem para crescimento da economia até que obras sejam concluídas e outras iniciadas.
A política indigenista, em que o Governo insiste com atitudes incoerentes, como a tentativa de sepultar a PEC 215, como se temesse meia dúzia de bordunas instruídas pelo próprio Governo em seu braço mais inimigo íntimo, a Funai.
As políticas de inclusão social, corretas em seu objetivo mas equivocadas em seus meios, como a utilização de critérios raciais filtrantes, são desagregadoras do próprio tecido social. Cria-se a discriminação artificialmente até que se consolide em fato.
A inação no ataque real à criminalidade, o conceito arraigado de que essa epidemia que nos assola, a violência urbana, pode ser controlada com leis frouxas e permissivas. A manutenção da impunibilidade ara menores de 18 anos é a maior escola de criminosos já registrada na história da humanidade.
O presidencialismo de coalizão, insuportável e insustentável para um país que deseje estabilidade política e seriedade de gestão. A reforma política, tão fundamental, dificilmente terá clima para ser promovida no ambiente instável que se prognostica para o curto prazo.

Ministros e ministérios. Os 39 ministérios existentes são o desenho de uma estrutura política podre. Muitos deles ficariam bem atendidos se transformados em secretarias vinculadas a um ministério. Seria mais razoável. No entanto, dentro de um presidencialismo de coalizão,  28 partidos com bancada na Câmara, necessariamente tem que abrir espaço e status para coisas como o filho do Jader Barbalho, agora Ministro da Pesca, ou o gordinho e não atlético pastor da Universal - nem lembro o nome - para o Ministério dos Esportes.
A maestrina é forçada a escolher os músicos da sua orquestra pelo apoio político, não por sua virtuosidade. Pode-se esperar, independente de vontade do governo central, o inevitável pipocar de casos de corrupção, semelhantes aos descobertos pela quadrilha que assaltou a Petrobrás por mais de 15 anos.
Não significa isso que não haja nomes de respeito, do ramo. Na Agricultura e o Desenvolvimento Agrário há nomes de respeito. Kátia Abreu e Patrus Ananias são esperanças sérias que os respectivos setores tenham voz no governo. Da mesma forma, na Saúde, no comando do Exército, na própria equipe econômica. São gestores públicos experimentados e conhecedores do assunto. Outros certamente existirão na equipe. Em menor quantidade, porém, que as incógnitas colocadas.

Crítica também é a continuidade da difusão de mentiras desestabilizantes, ridículas e perigosas. A cada dia, uma nova pérola vira manchete e é vendida como verdadeira. Valor de mercado em Bolsa confundido com o valor real da Petrobrás, por exemplo.
Os inocentes úteis que as propagam gratuitamente no contexto da revolta fomentada sequer percebem que estão fazendo o jogo dos que têm interesse na desestabilização nacional, os que pugnam pela internacionalização e submissão. Por ambição de poder ou por dinheiro. Ou pelos dois.
E é por esse motivo que me alegra Aécio ter sido derrotado, representante que é desse modelo que abomino. Passada a eleição, sua verdadeira cara de fantoche mostra-se cada vez mais asquerosa para mim.
Terceiros, quartos e infinitos turnos tentam promover o enfraquecimento e até um impeachment. Ninguém tem dúvida que essa ocorrência acarretaria em grave perturbação social, talvez uma guerra civil. A declaração de estado de beligerância abriria espaço para intervenção da ONU, o fatiamento nacional, a perda de nossa integridade. A gente sabe que ONU, hoje sinônimo de OTAN na geopolítica, é o braço da defesa dos interesses do capital transnacional, sem pátria, ética ou lei além da própria e particular.

Enfim, 2015 nasce com nuvens negras apontando no horizonte. Que a tempestade seja breve.




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