quarta-feira, novembro 19, 2014

Cheiro de Pólvora II - o Retorno

Em política há duas máximas universais ao menos.
Os movimentos são calculados, no tempo, teor e impacto. Há pouco espaço para acasos.
Não há amizade, lealdade  e alianças sobrexistem apenas enquanto há um inimigo comum capaz de ameaçar a ambos aliados.
Com base nesses dois axiomas, desenvolvo esta reflexão, tão absurda quanto a passagem de tropas por Ardennes ou a construção da estrada do Chaco por Caxias, na manobra conhecida como Piquissiri. Até o considerado impossível acontece.
As forças políticas dominantes no Brasil são de centro. Centro-direita liderada pelo PSDB, centro-esquerda pelo PT, principais atores da cena. Disputam atores coadjuvantes no estoque do PMDB e figurantes na plêiade de partidos menores, também centristas. Há pouco espaço para os extremos, seja de esquerda, como PSol, ou de direita, como o PSC. Nas ameaças comuns, os dois maiores protagonistas  unem-se em acordões de bastidores, como o divulgado recentemente na CPI da Petrobrás. Rosnam em público para dividir a ração no particular. Essa situação faz todo sentido com a  atual índole dominante da população brasileira, avessa a extremismos.

A casa caiu, não com o desvendar da Lava-Jato, mas com a determinação de Dilma em não deixar pedra sobre pedra. Ameaça terrível para o status quo. A partir daí, percebem-se movimentos aparentemente coordenados.
A centro-direita passa a atacá-la para sua desestabilização. A centro-esquerda, também. Grand finale combinado?
Surgem passeatas pedindo seu impeachment sem fundamento fático, intervenção militar, golpe, criam o clima.
A centro-esquerda pontualmente também age. Gilberto Carvalho lança a senha, criticando em público sua chefe. Logo após, Marta não deixa por menos. Em seguida, Toffoli redistribui a análise das contas para Gilmar Mendes, paradoxalmente ferrenho adversário político e ligado ao PSDB. As três figuras são ligadas a Lula, não à Dilma,  que assiste a tudo em silêncio, mergulhado a 10 mil metros de profundidade.

As forças políticas de centro sabem que serão diretamente atingidas pela Lava-Jato e a determinação de Dilma em desmascarar os procedimentos corruptos da política, sabem que seu castelo de cartas desmorona a cada dia. Somente um Executivo capaz de composições e acordões pode evitar ferimentos mortais.
O PT não sobrevive sem Lula. Lula fora do cenário transforma o PT num PDT sem Brizola.
O PSDB não sobrevive sem a turma de São Paulo. Seguiria os passos do ridículo PPS, que um dia já foi o considerado pecebão. A saída é uma nova eleição sem aparência de golpe, dentro da lei.
Sendo recusadas as contas de campanha, o mandato de Dilma encerra-se dentro de 40 dias. Contando recessos natalinos e do judiciário, uns 20 dias úteis. E uma nova eleição é convocada nesse meio tempo. Impede-se, assim, a posse.
Lula surge como o salvador, sua popularidade é inquestionável. Com a temática de golpe branco e defensor das teses de Dilma, tentará aglutinar votos suficientes para se eleger e ser blindado pela imunidade constitucional, herdada ainda da constituição imperial. Salva-se o PT.
Aécio, como o defensor da moralidade, pois a imprensa e até alguns setores da investigação blindam ideologicamente o PSDB nesse meio tempo. Mantém o PSDB na crista da onda.
Qualquer um dos dois, se eleitos, têm força e disposição de esvaziar as investigações e acordar uma conduta de sobrevivência política a ambos. De tirar o Jato da operação, fazê-la caminhar a passos de jabuti. Tudo como dantes na casa de Abrantes.

Mas correm um risco. O desmascaramento e o desencanto provocado pela manobra abrirá espaço para os extremos. E dois protagonistas poderão surgir como que do nada: Luciana Genro e Bolsonaro. Descarto a Marina porque essa já foi suficientemente queimada na última campanha, figura inexpressiva e fraca que é. Mas me atenho a esses dois atores.

A extrema esquerda tem o PSol, antigo PT ideológico que havia antes da grande estratégia bolada por Zé Dirceu. Luciana Genro despontou como uma estrela capaz de botar pra quebrar no contexto ideológico.
A extrema direita tem uma figura polêmica para contrapartida: Bolsonaro, capaz de aglutinar forças politicamente competitivas.
Ambos suficientemente radicais para colocar uma pá de cal na latrina que se tornou a política brasileira. Não que sejam melhores ou piores do que existe, apenas não terão digitais nos escândalos, ainda que somente por falta de oportunidade. Mas são suficientemente loucos, o que pode torná-los atrativos numa eleição de crise e desencanto.

Qualquer um dos dois, se eleito, não terá a menor condição de governabilidade. Sem sustentação política parlamentar, travarão o Congresso com Medidas Provisórias sucessivas. Sua única chance é a comunicação direta com a população, via capaz de encurralar congressistas por uma questão de sobrevivência. mas será uma batalha constante, uma Guerra dos 100 Anos, pois não haverá acordões. São benditamente doidos o suficiente para isso.

O tiro do golpe branco em andamento poderá sair pela culatra. Talvez seja um risco calculado, pois em matéria de política, o acaso é exceção. Raposas felpudíssimas podem virar tapete no saguão do Planalto.

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