sábado, setembro 27, 2014

A Guerra que o Ocidente Já Perdeu

Pode-se segmentar o processo colonialista em gerações.
A primeira geração, pura e simples submissão dos povos e pilhagem de suas riquezas.
A segunda, o reconhecimento de protetorados.
A terceira, a de reconhecimento de Estados com fronteiras definidas em gabinetes financeiros, porém mantendo o controle pela cooptação de governantes favoráveis e submissos.
A quarta, atual e mais complexa, é o domínio dos estados, sem exceção e incluindo os colonizadores, pelo sistema financeiro, a seu único e singular interesse.

Pois bem. Estamos no limiar de sua dissolução.

O Oriente Médio é um barril de pólvora. Algo semelhante aos Bálcãs no século XIX.
Efeito colateral da GGII, foi imposto um estado de Israel. E foi sustentado por todo o tempo como uma ponta de lança para a riqueza do séc XX, o petróleo. Isso como forma de controlar as populações não submetidas a governos ainda remanescentes da terceira geração colonialista. O petróleo é o sangue das economias atuais.
E o controle adotado foi pelo método antigo: a guerra.
Com a permissão do "sistema", surgiram alguns governantes de feição mais nacionalista e que, de certa forma, ajudavam a manter o caldeirão sob controle e reprimiam movimentos que davam conotação religiosa à libertação política.
Esses governantes, porém, começaram a ser mais nacionalistas do que o "sistema" permitia. Inventaram uma "false flag" o 11 de Setembro, e abriram a temporada às táticas da terceira geração. Assim caíram Hussein, Mubarak, Khadafi.
Não conseguiram completar o plano. O Irã mostrou seus dentes, a Rússia mostrou os seus em nome da Síria.
O efeito imediato foi uma relativa tranquilidade para o fluxo do petróleo, pago com moeda falsa. O efeito secundário foi o crescimento das facções mais radicais de combate ao ocidente, com religião como pano de fundo.
Por outro lado, a população desses países sistematicamente ocupados e colonizados passaram a ser fonte de mão-de-obra não especializada às sedes. A migração intensificou-se. Os pais, acostumados com a discriminação, administraram bem. Já os filhos, nascidos e crescidos nos países-sede, não assimilaram a discriminação, e o sentimento é de revolta. Não poucos ficaram permeáveis aos apelos de quem fazia da religião o mote para a libertação.
Esses jovens passaram a se considerar não cidadãos do país que acolheu seus pais e avós e onde havia nascido, mas sim de sua origem, amalgamado com a religião.
São os fundamentalistas fora do ninho. Mas inseridos nele. Descrêem das instituições, da democracia, do "sistema".Combatê-los como. 

Pode ser o vizinho de casa, o colega de escola, o companheiro de trabalho. O soldado ao lado. Não têm cara, não têm identidade. Fazem parte da vala comum do próprio povo.

E vem novamente o Ocidente ameaçado utilizar as mesmas armas tradicionais para um cenário novo. Parece que ainda não entendeu que nada será como antes. No caso, com interesses secundários, como armar legalmente as milícias responsáveis pela guerra na Síria e desviar o foco do último massacre israelita em Gaza.

Ou exterminam TODOS os fundamentalistas islâmicos (incluindo os da família Saud) e vão condenando à morte os que se tornarem doravante; ou ficam nessa guerrilha sem fim que só ajuda o sistema financeiro na medida que financia guerras infinitas; ou se entende que o fundamentalismo está estritamente ligado ao colonialismo centenário que o tal "primeiro mundo" sangra a região.
São fundamentalistas e terroristas, sim. Devem ser combatidos, mas com inteligência.

A primeira manifestação de inteligência seria entender seus motivos, suas causas, seus anseios.
A segunda seria perceber que o modelo de controle geopolítico faliu, esgotou-se. Um novo modelos exige ser desenhado.
A terceira é abandonar a arrogância que divide ricos e pobres, abandonar os métodos de rapinagem, entender-se todos como passageiros da mesma nave azul que chamamos de terra.
A quarta é perceber que, em matéria de terrorismo, eles estão à frente. O poderio nuclear, as tropas e esquadras, nada disso intimida mais. Está enfrentando pessoas que não temem a morte, até porque se sentem mortos já por um sistema injusto e espoliador. E que não temem matar.
O Ocidente também não teme matar, mas teme morrer. E isso faz enorme diferença.
Nesse contexto, o discurso da presidente Dilma na ONU foi correto em seu mérito. As armas que funcionaram por tanto tempo perderam sua eficácia.

Vejo as manifestações indignadas sobre o discurso politicamente incorreto. Mas a essa altura da guerra perdida, quem pode afirmar que o politicamente correto realmente é correto e eficaz.
Nada será como antes, disso podem estar certos.

1 Comments:

Blogger neusa said...

Muito bom!abs.

9:53 AM  

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