segunda-feira, maio 12, 2014

Marés de Terremotos

A crescente autonomia dos povos, a partir da Carta da ONU e do interesse dos donos do Conselho de Segurança, abriu espaço para o reconhecimento de novos Estados independentes.
Na Europa, as fronteiras artificiais decorrentes de acordos políticos de paz começou a ruir com o primeiro tijolo derrubado no Muro de Berlin. Seguiram-se os estados bálticos, os eslovacos, os balcânicos. Recentemente a vontade crimeana atropelou fronteiras e creio ser irreversível o atendimento da vontade do povo do leste da Ucrânia, sem um estado permanente de beligerância.
Na Itália, região do Vêneto, já se fala em autonomia. O movimento autonomista pode ganhar força na Catalunha, Euskadia e Aquitânia, afetando a Espanha e França.
Na Ásia e África, o final do ciclo colonial de segunda geração fragmentou a divisão política, não sem sérios conflitos. O equilíbrio instável entre Paquistão e Índia, derivados da criação artificial de estados baseados em critérios religiosos, mantém a região sobre um barril de pólvora.
A realidade é que há pouco espaço para expansionismos políticos e muito para contracionismos neste início de século. Esses movimentos tectônicos geram terremotos. Resistirá o Brasil a eles? Essa é a questão que me instiga.
O gigante territorial manteve-se uno por alguns fatores coincidentes. A língua, a colonização centralizadora, o império, o despovoamento de seu interior, em grande parte inóspito. As tentativas de fracionamento, poucas, aconteceram em regiões com maior densidade populacional. A mais importante de todas, a Guerra Farroupilha com 10 anos de duração, já vencida pelas armas, permitiu Caxias que o brio não fosse derrotado. Essa habilidade minimizou marcas, ódios e mágoas que guerras sempre legam a gerações.
Houve outras tentativas, como a solerte de Adhemar de Barros enquanto conspirava em 64 pela deposição do presidente constitucional. Esse traidor consultou sobre o apoio dos Estados Unidos caso decretasse estado de beligerância em S. Paulo e sua independência, em hipótese de reação legalista. Óbvio que o governo americano prometeu ajudar com os suprimentos necessários e,  se agravada a situação, também com tropas para garantir a independência decretada.
Mas agora vivemos tempos coloniais de quarta geração. Os interesses são menos territoriais e mais virtuais  no colonialismo financeiro. E o Brasil hoje é povoado e ocupou seu território político a partir da construção de Brasília e marcha para o oeste e pela colonização do norte com a migração oriunda do sul. Deu novo sentido à unidade nacional, migrações internas lembram correntes de convecção a homogenizar temperaturas em reequilíbrio dinâmico.
Porém, é de se esperar que a maré reducionista também quebre em ondas nas nossas praias. Algumas políticas públicas induzem a isso, como a indigenista e a racial. Outras, ao contrário, são consolidadoras, principalmente no campo da formação acadêmica com o Enem, Prouni e Pronatec, que favorecem a migração interna.
Mas a pior força de esfacelamento está sendo oriunda das campanhas políticas. Com os efetivos traidores que se pautam pela desqualificação personalizada, ao invés de propostas efetivas. Que apostam na redução da auto-estima nacional como elemento de renovação. Que martelam diuturnamente que brasileiro não presta, que só o político adversário é ladrão, que o país é uma piada e que ninguém é mais indolente do que nós, povo de macunaímas e levadores de vantagem.
Esse é o desserviço que fazem os marqueteiros eleitorais. Que só existem por possuirmos instituições fortes em arcabouço frágil, insustentável e expresso numa constituição que queria ser moderna e configurou-se utópica. Dá margens a mensalões e barbosas, um e outro com muito mais semelhanças entre si do que diferenças, pois ambos espúrios, arrogantes e impunes em sua essência. Não é à toa que a proposta do Executivo em consultar a população, em plebiscito sobre a reforma política, foi sabotada a partir dos tribunais, passando pela imprensa e forças político-partidárias.
Vejo que somente temos uma chance de sobreviver ao fracionamento. Uma constituinte exclusiva, composta por eleitos submetidos a avaliação técnica e com proibição de se candidatar nos próximos 2 certames eleitorais. Como se sabe, uma Constituinte revê inclusive os direitos assegurados, é um passa a régua, um começo novo. 
É mais do que hora disso. Enquanto há tempo, antes de que o separatismo chegue por aqui. 
Se chegar, ninguém segura.

2 Comments:

Blogger RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ said...

Não sou contra o separatismo e a questão da Ucrânia tem despertado novamente esse debate. Penso que se uma região não está satisfeita, que se separe livremente e sem traumas. Hoje ninguém mais vive isolado na economia global, mas também não dá para uma região permanecer sufocada dentro de um Estado que é impedimento para o seu desenvolvimento em todos os sentidos. Inclusive quando se trata também de valores culturais sendo que em países da África e da Ásia trata-se de um sangrento problema que causa guerras. Cá no Brasil, apesar de uma meia dúzia de saudosistas da revolução farroupilha, não acho que vingue qualquer movimento separatista. Nossa sociedade caminha mais ou menos unida rumo a uma mudança política, valendo ressaltar que o sentimento das pessoas de decepção quanto às instituições públicas seria o mesmo de Norte a Sul.

1:33 PM  
Blogger Frega Jr said...

Grato pelo comentário.
De fato, a nossa sociedade não é separatista.
A grande novidade nesse campo está em ações de governo com duas vertentes danosas, a meu ver.
Primeira, a questão indígena. No momento em que se segrega determinada etnia histórica, a ela se atribui um território delimitado e não se lhe incorpora ao Estado, criam-se as condições de pleitearem sua independência,
A realidade, porém, é que as reservas indígenas demarcadas encontram-se em maioria absoluta sob extensas reservas minerais ou em áreas de fronteira, o que me faz supor que são manejadas por interesses econômicos e geopolíticos estrangeiros.
A segunda é a divisão étnica fomentada por regimes de cotas raciais, Sendo o povo brasileiro fruto de miscigenação, não faz qualquer sentido esse sistema, a não ser o objetivo de fragmentar a sociedade com base em parâmetros anacrônicos.
abr

5:38 AM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home