sexta-feira, janeiro 30, 2015

Trinta Dias

Cumprido o primeiro mês do segundo mandato. Alguns movimentos foram muito interessantes.Vamos lá.

O primeiro deles: Dilma é doida. Não é a doideira tradicional, daquela de jogar pedra na lua e babar na gravata, É um outro tipo de loucura. Uma loucura boa.
A menina de classe média que, saindo da adolescência deu o chute no balde por suas convicções, ainda que imaturas, não morreu com a idade. A jovem que manteve o olhar altivo na corte militar, também não. A política que não faz o jogo político ainda vive.
Conseguido o segundo mandato, pode-se vislumbrar que não tem ambições politicas futuras. Quer mesmo é botar pra quebrar, independente de ligações partidárias, de interesses políticos, de conchavos de poder. E isso é uma loucura num presidencialismo de coalizão. Mas ela é doida o suficiente.
Doida para ignorar seu partido, o PT e seu aparato; seu mentor, Lula. Doida para praticar o que afirmou em campanha que não fica pedra sobre pedra. Ignorar o próprio PT, em vias de demolição exatamente por Dilma não ser política.
Aparentemente, Lula maneja nos bastidores a máquina partidária, fazendo-lhe oposição. E a dita oposição oficial, composta de partidos nanicos e inexpressivos capitaneados pelo PSDB, continua desarvorada. Dilma adotou algumas medidas que pugnavam, retirou-lhes bandeiras sem abandonar sua visão social de inclusão. Sem arranhar sua convicção num Brasil soberano.
Está ignorando situação e oposição, e isso lhe deixa sem base congressual.

2015 será um ano particularmente difícil. A par das medidas econômicas recessivas, os fenômenos naturais são comprometedores. A seca no sudeste/centro-oeste, inusitada e em proporções nordestinas; a seca no nordeste, essa sim não incomum; os atrasos provocados (inclusive por órgãos do governo e pela oposição) nas obras das hidrelétricas agravam a pressão de consumo motivada pela própria inclusão social de novos consumidores.
O ambiente externo é alguma coisa parecida com uma pré-guerra. A própria decantada recuperação da economia americana tem-se mostrado menor do que a expectativa. Também a chinesa. A Europa em crise profunda, o Japão em recessão técnica. A derrubada dos preços do petróleo como arma contra a Rússia, que beneficia os compradores - somos produtores - é ruim para nós. A aposta errada no primeiro mandato de que a crise internacional teria vida curta, promoveu desequilíbrio em nossas contas. Eu também acreditava que teria vida curta.

A falta de água para megalópolis, entre elas as metropolitanas de São Paulo (20 milhões de pessoas), Rio de Janeiro (15 milhões) e Belo Horizonte (10 milhões) podem gerar caos social de conseqüências imprevisíveis. Haverá desemprego pela migração das atividades industriais, vai refletir-se nos demais segmentos. E aí?
Talvez o agronegócio ainda segure um tanto as pontas. Talvez.
O fato é que é impossível represar a revolta de 40 milhões de habitantes, acrescida dos que naturalmente fazem oposição ao governo por convicção pessoal.

As defecções, quase traições, surgem até de apoiadores. Vimos as críticas de Dirceu, voz importante em algumas correntes partidárias. De Marta, essa apenas porque não foi aquinhoada como pretendia, O valor de R$ 88 bi levado por Graça Foster ao Conselho de Administração da Petrobrás como reflexo da corrupção na empresa, por aquele em boa hora recusado por falta de base factual, foi um soco na boca do estômago de Dilma. Eu não aposto uma colher de cafezinho de mel coado que ela vai rodar.
Mas a pressão internacional sobre a Petrobrás, sobre o marco regulatório de partilha e sobre as reservas do pré-sal só farão aumentar. Da mesma forma, a multiplicação de notícias ruins potencializadas em versões péssimas por uma mídia venal e comprada, mas indubitavelmente influente na opinião pública.

Dilma caminha para o isolamento.
O provável próximo presidente da Câmara, em voz corrente partícipe de tudo que é tipo de maracutaia, ou tem seus interesses atendidos, ou dará curso em determinado momento a um requerimento de impeachment.
E a base parlamentar estará inexistente e o apoio popular desgastado. O julgamento pelo Congresso é um julgamento político, não jurídico. Base legal, se arruma facilmente.
Nesse caso, assume o Michel Temer, esse sim político. Voltaremos, assim, à velha política de sempre, tão conhecida por todos de rejeitada por muitos que nem se dão conta disso quando pressionam Dilma.

Dilma pode dar a volta por cima? Talvez. Mas não é tarefa fácil.
E qual será sua reação? Jogará toda a bosta no ventilador? Ela é guerreira, valente e doida. E não é política.
Em meu ponto de vista, será pena se não conseguir.

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