terça-feira, novembro 24, 2009

Fome Arrependida

Com meus botões, torci sinceramente para que Battisti fosse suficientemente tenaz a ponto de levar sua greve de fome às últimas conseqüências.
Seguramente, há formas menos dolorosas de suicídio. Nenhuma, porém, prolonga o drama por tanto tempo. Na década de 70, era moda monges imolarem-se em pira libertária. De alto impacto, porém fugaz, 15 segundos de gravação e em cinco minutos tudo virava cinza. Dondocas e deprimidos preferem cortar seus pulsos. Esse método tem a vantagem de possibilitar rápido atendimento médico, deixar pequena cicatriz e poder ser interrompido a qualquer momento por um simples torniquete. De alta dramaticidade familiar, especialmente quando não se pretende, de fato, o suicídio. Há variações, como overdose de melhoral ou goles de água sanitária.
Nunca tive notícia de uma greve de ar ou de água. O azul mórbido cianótico ou a desitratação tipo uva passa não seriam quadro que enaltecesse o defunto. Com o defeito colateral de ser rápido e de baixo impacto. "Que babaquice", seria o freqüente comentário em seu velório. "Nunca pensou nada que prestasse", rosnaria sua sogra.
Tivesse o terrorista sucesso em sua greve, contaria com minha solidariedade. Aderiria a abaixo-assinado para extradição de sua pele e ossos, de forma que fossem depositados em sua terra natal, preferenciamente ao lado dos ossos sem pele dos que por ele foram assassinados.
Teria mostrado ao menos arrependimento, fingido que fosse. Quem sabe até alguém do PSOL ocupasse a tribuna para enaltecer-lhe o caráter, a bondade, o altruísmo e sua inquestionável e insuportável dor do remorso, a minar-lhe o desejo de viver.
O bandido arrependeu-se, isso é certo. Pena que foi o arrependimento errado. Voltou a comer.
Battisti arrependeu-se da greve de fome.

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