sexta-feira, novembro 20, 2009

Dívida Histórica

Não chega os insistentes telefonemas de meus credores; os recados inusitados de gerentes de banco preocupados com minha saúde e convidando pra tomar um cafezinho; as ligações chatas e monocórdicas do telemarketing da Vivo e da Tim e da Oi, vem agora o Sr Rolf Hackbart, presidente do Incra, espetar em minhas costelas mais essa: uma tal de dívida histórica que, anuncia, herdei com quilombolas.
Tudo bem; prefiro mil vezes as dívidas históricas do que as com o Banco do Brasil. Até porque dívida histórica, em minha opinião, só pode ser liquidada com história.
A titulação das terras devolutas ocupadas por essas comunidades é justa, não por essa tal de dívida histórica, mas porque é justo reconhecer e titular tais terras sejam quem forem seus ocupantes históricos. É uma grilagem, ou invasão de terra pública, justa. O Brasil só tem seu território por que nossos antepassados fizeram essas ocupações.
Então, antes que incorramos em juros, correção monetária e condenações de tribunais de faz-de-contas, paguemos essa dívida logo.
Temos nossa história como moeda. A história de uma colônia que construiu a si mesmo um grande país.
Temos uma história de garra e denodo que nos permitiu conquistar e manter nosso território continental. Temos uma história de fusão de raças em uma, caldeada, faceira e encantadora em sua morenice tropical. O Sr Rolf talvez seja uma exceção, mas certamente seus descendentes, em 3 ou 4 gerações, não o serão.
Temos a picardia de enfrentar governos-tutores, ônibus lotados, hospitais superpovoados, tungas fiscais a todo título com um tal de presidente do sindicato dos fiscais da receita as defendendo na televisão, tudo isso em troca do futebol de domingo, da novela do macaco, da piada de português e de 4 dias de carnaval. Com resignação quase franciscana.
Temos nossa história futura para penhorar, com o compromisso de que não formem quistos, mas se insiram para o bom e para o ruim em nossa sociedade, na qualidade plena de brasileiros que são. Temos a oferecer-lhes irmandade com 190 milhões de outros brasileiros.
E temos, antes de tudo, que recusar essa conversa mole de dívida histórica como pretexto para reconhecer-lhes cidadania. Até parece que o Sr Rolf está encabulado, arrumando uma desculpa pra isso.
Se for, é muito esfarrapada.

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home