quarta-feira, janeiro 30, 2008

Coronéis de Deus

O folclore político nordestino registra a atuação dos chamados coronéis, donos de gado e gente, acima da lei e das instituições, mandas-chuvas e senhores dos servos da gleba. Enriqueceram o folclore à medida em que o sertanejo ficava cada vez mais pobre.

Dessa pobreza e ignorância sustentava-se seu poder. A miséria cria a dependência. E não há independência política sem independência econômica.

De uns tempos para cá assistimos outra face do mesmo coronelismo: a ação de próceres da igreja católica. Outra face, mas pior. São líderes políticos mas também são retratados como intermediários entre o Altíssimo e nós, mortais. Nunca se sabe quando falam em seu próprio nome ou dizem estar interpretando mensagens divinas.

Assim vimos o desequilíbrio patológico do Bispo Tappio, em sua patética greve de fome contra ação de política pública. Assim constatamos ontem a atuação do Bispo Tomás Balduíno ao liderar pressão contra o milho transgênico.

Cinicamente, como um deboche, fez distribuir uma cesta repleta de produtos naturais, como milho, cana, manga, mandioca e banana, símbolo de que não é necessária a transgenia.

Claro que não, se a população se dispuser a consumir a manga do fundo do quintal ou usufruir a baixa produtividade no milho. Se se dispuser a viver na miséria, campo fértil para mantê-la dependente à sua ação teológica.

Para D. Tappio, é muito mais importante continuar a conduzir procissões do sertanejo pedindo a São José que lhes mande chuva do que perder o poder de intercessão ao santo em função de um projeto de irrigação.

Para D. Balduino, dirigente da Pastoral da Terra, a prosperidade no campo diminuiria seu poder de manipulação do batalhão de miseráveis que labutam para sobreviver.

Claro que a transgenia é polêmica, por acelerar artificialmente o ciclo evolutivo e talvez o redirecionar. Mas também representa o menor uso de defensivos e venenos na produção agrícola, questão de saúde pública e planetária.

O salto tecnológico brasileiro na produção de álcool deve-se muito à transgenia, quando uma cientista da Embrapa conseguiu, por essa técnica, que a cana, uma gramínia, também fixasse nitrogênio atmosférico como se leguminosa fosse.

A grande realidade é que, com a transgenia, a produtividade aumenta, o envenenamento diminui. Isso significa maior produção com custos menores. Ganham o produtor e o consumidor.

Os alegados efeitos danosos ao meio-ambiente, pelos estudos, mostraram-se ao contrário. Pássaros param de morrer ao comer lagartas, pois essas não estão envenenadas. Insetos morrem menos, porque não são envenenados. A diversidade microbiológica da terra é menos afetada. E as sementes somente são liberadas após extensos e profundos testes que assegurem isso.

Mas não. D Balduíno prefere dizer acreditar que mutações só podem acontecer pela ação direta de Deus. Nunca por Deus, utilizando os cientistas. Mas ele não é burro, claro que não acredita nisso. É hipocrisia pura.

O pior é que encontra agentes do próprio governo para colaborar com seus propósitos de assegurar a miséria.

O IBAMA, alter-ego do desenvolvimento em qualquer área, contraponto do progresso e da qualidade de vida, juntou seus esforços com a Anvisa e, de braços dados com D. Balduíno, pressionaram os11 ministros do Conselho Nacional de Biossegurança, órgão comandado pela ministra Dilma Rousseff, que estava em reunião no Palácio do Planalto.

Embora a defesa do Min da Agricultura e da própria Ministra da Casa Civil, o CNBio acovardou-se. Jogou a decisão para frente, empurrou com a barriga, desconhecendo as limitações do calendário climático.

Sabem o argumento? As sementes haviam sido testadas e aprovadas pela Europa e Estados Unidos. mas não haviam sido testadas no Brasil.

Foi oportuno o comentário do jornalista José Neumane quando perguntou sobre a analogia de um remédio desenvolvido nos Estados Unidos e aprovado pela FDA. Não pode ser utilizado por nós antes que a todo-poderosa Anvisa e seus burocratas de plantão também os testem? E faço outra. Será que a Anac terá que submeter à homologação, com todos os testes, incluindo os destrutivos, os novos modelos desenvolvidos pela Boeing ou pela Airbus?

D. Balduino deve estar rindo por dentro. A miséria foi mantida e seu poder permanece intocado.

Manteve a tradição. Seus patrões sempre foram especialistas em sofismas.

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