segunda-feira, agosto 06, 2007

Cumplicidade

Atribuído a Mino Carta, com quem às vezes concordo, e só às vezes, artigo que circula pela internet denuncia que o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros é uma versão rediviva do Movimento pela Família, com Deus, pela Liberdade, patrocinado por figuras reacionárias de reconhecido conservadorismo. Esse movimento pretenderia mobilizar a sociedade para promover uma oposição sem tréguas e quartel ao governo Lula.
Tenho recebido mensagens de apoio e de repúdio a tal movimento, escritas por pessoas a quem respeito pelo conteúdo de sua argumentação.
Tenho muitas restrições à condução governamental, assim como reconheço diversos pontos que me agradam.
Transcrevo, para contribuir no debate, artigo de Luiz Fernando Veríssimo, brilhante como sempre. Com muito mais competência e lucidez do que eu poderia me expressar, o texto reflete meu ponto de vista.

"Cumplicidade

Uma comprida palavra em alemão (há uma comprida palavra em alemão para tudo) descreve a "guerra de mentira" que começou com os primeiros avanços da Alemanha nazista sobre seus vizinhos. A pouca resistência aos ataques e o entendimento com Hitler buscado pela diplomacia européia mesmo quando os tanques já rolavam se explicam pelo temor comum ao comunismo. A ameaça maior vinha do Leste, dos bolcheviques, e da subversão interna. Só o facismo em marcha poderia enfrentá-la. Assim, muita gente boa escolheu Hitler como mal menor. Ou, comparado a Stalin, o mau menor. Era notório o entusiasmo pelo nazismo em setores da aristocracia inglesa, por exemplo, e dizem que até o rei Edward VIII foi obrigado a renunciar não só por seu amor a uma plebéia, mas pela sua simpatia à suástica. Não tardou para Hitler desiludir seus apologistas e a guerra falsa se transformar em guerra mesmo, todos contra o fascismo. Mas, por algum tempo, os nazistas tiveram seu coro de admiradores bem-intencionados na Europa e no resto do mundo - inclusive no Brasil do Estado Novo. Mais tarde estes veriam, em retrospecto, do que exatamente tinham sido cúmplices sem saber. Na hora, aderir ao coro parecia a coisa certa.
Comunistas aqui e no resto do mundo tiveram experiência parecida: apegarem-se sem fazer perguntas ao seu ideal, que, em muitos casos, nascera da oposição ao fascismo, mesmo já sabendo que o ideal estava sendo desvirtuado pela experiência soviética, foi uma opção pela cumplicidade. Fosse por sentimentalismo, ingenuidade ou convicção, quem continuou fiel à ortodoxia comunista foi cúmplice dos crimes do stalinismo. A coisa certa teria sido pular fora do coro, inclusive para preservar o ideal.
Se estes dois exemplos ensinam alguma coisa é isto: antes de participar de um coro, veja quem estará do seu lado. No Brasil do Lula, é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros. Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece.
Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta."

Fonte: Jornal O Globo, Editorial Opinião, Caderno A, 19/julho/2007

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