sexta-feira, agosto 17, 2007

Cansei

Pois é. Eu também cansei.
Cansei de suportar um regime presidencialista que elege um ditador a cada quatro anos. Ditador porque só consegue governar cooptando congressistas com cargos e favores, para legislar com Medidas Provisórias. O que torna o Congresso uma casa de negócios, já assim classificada anteriormente por Ruy Barbosa.
Cansei de ver esses ditadores serem eleitos com o artifício de estelionatos eleitorais e que resultaram, só nos últimos 20 anos, em falaciosos planos econômicos que seqüestraram poupanças e arrestaram bois no pasto. Que geraram passivos quase impagáveis, como os do Plano Bresser. Que mantiveram cotação irreal sobrevalorizada de nossa moeda até a reeleição, mesmo que nos levasse à beira da moratória.
Cansei de ver o Brasil ser cada vez menos brasileiro, doando sua infra-estrutura e seu subsolo a grupos estrangeiros, chegando até a financiá-los com recursos do BNDES. Cansei de ver agentes desse mesmo capital reconhecerem haver chegado ao limite da irresponsabilidade para praticarem seus atos de lesa-pátria.
Cansei de ver a promiscuidade entre os três poderes, numa relação incestuosa para garantir sua parcela de poder pessoal e privilégios individuais.
Cansei de agüentar o ataque aos aposentados, aos desempregados, às "zelites" e aos cidadãos em geral, culpados nessa visão demagógica, em última instância, pelos desmandos governamentais.
Cansei de ver a máquina pública conduzida, até os escalões inferiores, por um loteamento sem técnica, contemplando partidos políticos de base aliada.
Cansei de ver os Tribunais de Contas terem seus ministros indicados dentre a classe política, a mais das vezes como prêmio aos não eleitos, já assumindo comprometidos com seus compadres políticos.
Cansei de ver as medidas protelatórias para punir ladrões do dinheiro público. O último e único condenado definitivamente foi PC Farias, se não me engano.
Cansei de ver o estado me proibir portar uma arma para minha defesa dos ataques dos que as possuem, à margem da lei. E que são defendidos com unhas e dentes pelos mesmos poderes instituídos e sustentados por nós mesmos.
Cansei de ver o Estado delegar a bandidos sentenciarem pena de morte a qualquer cidadão de bem que decida exercer seus direitos constitucionais.
Cansei de ver acusações vazias aos discordantes. Mino Carta é vendido, ou Civita, ou os Marinhos, ou os Frias, ou os Mesquitas etc., ou qualquer um que erga a voz em defesa de seu ponto de vista.
Cansei de ver abordarem a política como uma torcida por um time de futebol. Irracionalmente.
Cansei de ver acreditarem num salvador da Pátria que não seja a própria sociedade com pluralismo e liberdade de discordar, de criticar, de vaiar, de aplaudir
Cansei de empresários que só consideram negociata o negócio escuso do qual não participam. E de saírem às ruas bradando: "Cansei".
Cansei de ver políticos fora do poder dizerem-se cansados pelos mesmos atos e procedimentos que usaram, abusaram e lambuzaram quando eram maioria.
Cansei de ver políticos no exercício do poder dizerem-se atacados pelos mesmos atos e procedimentos que criticaram, obstruíram e acusaram quando eram minoria.
Cansei de parecerem bonzinhos e donos da verdade nos programas eleitorais, numa cara-de-pau de fazer inveja a qualquer passador de conto-do-vigário.

Cansei da incongruência, da contradição, do surrealismo.
Cansei de me considerarem com cérebro de gelatina e sem capacidade de pensar.
Cansei dessa calhordice toda.
Senhores, eu também estou cansado.

2 Comments:

Anonymous Paulo Flôres said...

Grande Fregapani!

Gostei de suas reflexões sobre o "cansaço" que nos invade. Principalmente porque faz um ajuste de foco sobre o quê realmente nos leva a esse estado de espírito, a esse desencanto. De todo o texto, no geral muito bom, o que mais me chamou a atenção foi a frase:

"Cansei de ver abordarem a política como uma torcida por um time de futebol."

Com essa comparação você descreve a atitude de boa parte da sociedade que em lugar de assumir uma postura ativa na busca de soluções, coloca-se na postura contemplativa de espectadores em uma partida de qualquer coisa. Não importa a modalidade, mas sim torcer por seu "time"... O Brasil torna-se um grande estádio, uma enorme arena onde são disputadas as "partidas" e, é claro, o público divide-se em camarotes, cadeiras preferenciais, cadeiras cativas, arquibancadas e a geral, a galera! E todos limitando-se a assistir, a torcer pelo que se desnvolve lá no campo, ou na pista, na arena, ou ainda, na lama -pois há uma modalidade de luta-livre em que os atletas se debatem num ringue inundado de lama- que parece que é o que está acontecendo lá no Congresso... Dos privilegiados que assistem dos camarotes aos "migalheiros" que se espremem na galera, o comportamento é mais ou menos igual, não passam de torcedores. A metáfora extraída de sua frase é tão boa que nos permite vislumbrar inclusive o "alambrado" que impede esse público de adentrar o campo para participar da partida: o alambrado da ignorância, do pouco caso, da atitude de não participação, da aceitação passiva das "regras do jogo", sem nem se dar conta de que ele, "o público", está pagando (e caro!) para que esse jogo se desenvolva. E que só por esse motivo deveria se lembrar de que o resultado no placar também lhe pertence!

Voltando ao cansaço que inicia esse comentário, quero me unir a você dizendo que o que me cansa não é essa coisa momentânea decorrente do desastre que vivemos agora sob o (des)Governo Lula. O que me cansa é constatar mais uma vez a perda de uma grande oportunidade para mudar os rumos de um País que tem tudo para ser espetacular, por causa dessa visão parcial, sectária, medíocre. É ver a gente jogar na lata do lixo parte do nosso futuro, pela falta de envolvimento com o presente. O meu cansaço vem de longe, não tem cor, não tem partido nem time...

Mas antes de terminar quero dizer que estou cansado mas ainda não estou morto! Há muito o que fazer, contem comigo! Não para torcer, mas para jogar...

Grande abraço,

Paulo Flôres

6:03 PM  
Blogger Frega Jr said...

Valeu, Paulo.
Agradeço o enriquecimento dos teus comentários.
Frega

6:31 PM  

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