quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Programa de Índio

- "Ráu", disse ele levantando a mão direita na porta dos fundos da tenda do cacique.
- "Ráu", respondeu o barbudo, ainda ofegante por ter descido correndo a escada, depois de um olhar de soslaio ao pajé. "Mania desse cara em não achar a entrada", pensou.
Em verdade, o cacique barbudo já tinha sido alertado pela FUNAI (fucking north-american indians) sobre a formalidade do cumprimento, dado que os filmes de John Wayne faziam enorme sucesso na tribo, uma inveja subdesenvolvida. Tinha até um menino que se chamava Big Little Horn.
O caminho até o reservado da tenda foi percorrido em silêncio. Sentaram-se no tapete adredemente preparado.
- "Garçom, traz uma Coca-Cola pra gente", pediu amistosamente o barbudo.
- "Quer me gozar? Cola pra quê? Não vou ficar colado aqui. Pra mim, sem cola!", precaviu-se o convidado.
O garçom comunicou o pedido ao pajé que, após contatos telefônicos por tambor com o Marcola e membros da polícia carioca, despachou uma diligência a jato para pegar o inusitado pedido. A bem da verdade, não chegou a tempo. O transporte foi assaltado em Duque de Caxias ou ficou preso no congestionamento em Congonhas, não se sabe.
O barbudo tentou novamente ser gentil.
"Aqui um apito especialmente fabricado para presentear seu povo. Esse apito é melhor do que gás, não desmancha no ar. Não dá para guardar gás na tenda, você sabe, porque ou ele vai embora ou asfixia a gente. O apito não. Fica quietinho lá todo tempo".
O visitante bem sabia, depois que passou uma noite numa tenda sem ventilação, tendo jantado pamonha. A tenda quase virou um dirigível.
- "Eu não quero esse apito. O Seu Madruga me apresentou um amigo que recomendou não aceitar seu apito. Vocês precisam do nosso gás. Sua tribo não sabe cozinhar sem ele. Eu quero um apito igualzinho ao que o professor Girafales, no sul, me dá. E o professor é tão bonzinho... mandou sua diligência me dar carona até aqui".
Duas horas depois, cheias de passes, repasses e impasses, o acordo foi firmado.
Além do apito, o barbudo daria um espelhinho que um cara-pálida tinha lá em Cuiabá.
"Agora sim, além do apito vou poder admirar minha beleza e meu penteado chanel. Negócio fechado."
"Garçom, traz o cachimbo da paz."
Dizem que o cacique barbudo só perdeu a paciência quando o visitante reclamou que o cachimbo não era de crack, uma evidente perseguição à sua produção nacional.
E pediu ao pajé que descobrisse o telefone do Gen Custer.

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