domingo, dezembro 17, 2006

Carlinhos Denatran - o Retorno

Lembram-se do Carlinhos, aquele que foi implantar suas teorias sobre trânsito no Iraque, por obra e graça de sua mania com números? Pois é, voltou.
As forças de ocupação não estavam suficientemente preparadas, ainda muito primitivas, para entender o alcance das propostas de Carlinhos, limitando a velocidade dos comboios militares a 10 km/h. Os oficiais de ligação estavam instruídos a não criar mais dificuldades com a ONU, além das já alimentadas por Bush. O equilíbrio era precário. Precisavam ganhar tempo sem desagradar a turma do Kofi Annan.
Primeiro, discutiram à exaustão o texto formulado por Carlinhos. A cada dia, a cada reunião, surgia uma dúvida sobre uma vírgula ou um termo de difícil tradução. Para facilitar, arrumaram um intérprete, o Habib, nascido em São Paulo, neto de um comerciante da 25 de Março. No Iraque já há dez anos, Habib havia desaprendido o português e nunca havia aprendido a falar árabe. Fanho de nascença, ficou mudo. Achado providencial, o Habib.
Superada a questão lingüística, as forças de ocupação despertaram-se para dificuldades técnicas.
" Mr Karlos, 10 Km/h? Quanto medir um quilômetro? Nossos velocímetros marcar só em milhas", esforçavam-se americanos e ingleses.
Enquanto isso, os comboios circulavam em alta velocidade, espantando galinhas e ovelhas e, eventualmente, atropelando alguma criancinha. Nada de relevante, portanto.
Apoteótico, entretanto, foi o apoio que recebeu da população nativa. Quanto mais devagar trafegassem os comboios, mais facilmente seriam atingidos pelos foguetes dos resistentes e por bolotas de cocô de bode, projéteis malcheirosos insistentemente lançados por meninos contra americanos e ingleses, arriscando-se à metralha amiga.
Os iraquianos estavam adorando Carlinhos e exigiam o cumprimento das normas. Os americanos, sem saída, o suportavam no limite do sem-saber-o-que-fazer. Quiseram até dar-lhe a Medalha de Honra do Congresso, desde que voltasse para o Brasil. O Itamarati, após consultas internas e discussões intermináveis, concluiu que Carlinhos seria mais útil à humanidade longe do Brasil, agradeceu e recusou. Que dessem a medalha, mas o Carlinhos lá ficaria. Os comboios começaram a explodir a 10 km/h, para alegria dos artilheiros. Obedientes às leis de trânsito, esses americanos.
Cheio de moral, a medida seguinte do Carlinhos foi estabelecer a exigência de Carteira Nacional de Habilitação para a pilotagem de carros-bomba. Pensando bem, era inadmissível que os carros-bomba, pilotados por motoristas inabilitados, continuassem a fazer vítimas inocentes no caótico trânsito babilônico. Infração gravíssima, com perda de 7 pontos. Evidente que essa norma desagradou gregos e troianos, xiitas e sunitas, que começaram, timidamente, a pregar uma fatwa contra Carlinhos. Os menos exaltados sugeriam a aplicação de um supositório de dinamite. Os mais exaltados, além do supositório, acender o pavio. Dizem que a vingança havia sido planejada pela CIA, mas ninguém tem prova disso.
Face à tão terrível ameaça, Carlinhos fez as malas, mandou-se para o Brasil.
Aqui, recebido com desagrado mas com toda pompa e circunstância, assumiu seu lugar no Denatran e arregaçou as mangas, com febril criatividade.
Brevemente, aguardem, será exigida CNH para pilotar bicicletas. Ainda não foi regulamentada porque Carlinhos não sabe como formular o exame escrito para o batalhão de analfabetos que têm na bicicleta seu único meio de transporte, nem para menores de idade, em atividades lúdicas. Mas ele vai dar um jeito nisso. Incansável, esse Carlinhos.

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