domingo, dezembro 03, 2006

Carlinhos Denatran - A Viagem

Carlinhos sempre foi das contas e detalhes. Desde pequeno. Os números antes do be-a-bá. Contava com os dedos, com feijões, pedrinhas, com que fosse.

-Mãe, hoje quero 268 grãos de arroz no meu prato.

Se passasse ou faltasse, havia escândalo, pois Carlinhos - Karlos Frederico em homenagem a Gauss - era obstinado pela precisão dos números.

Dona Maricota, mãe velha de filho único, fazia-lhe todas as vontades, a ponto de contar os grãos antes de cozê-los. Esse menino vai longe, pensava em seus devaneios, enquanto contava, pesava e media de acordo com as especificações do Carlinhos.

No colégio, era o terror dos professores, com sua obsessão por pesos e medidas. O que não podia ser pesado ou medido, não valia a pena. Por essa mania foi suspenso ao tumultuar a aula negando a existência do zero e apalpando o traseiro da Zenita, lambisgóia desdentada e magricela.

-Mostre-me, professora. Se o zero é a negação da quantidade, então não existe. Mesmo aqui, com nenhuma carne, o zero não existe

Dona Jurema, com muitas carnes, poucas luzes e menos ainda paciência, azucrinada pelo estridente grito da Zenita, deu-lhe um cascudo e o botou porta a fora. "Ah, maldita profissão, ter que agüentar essa peste. Ainda mais na TPM." Para não punir somente a professora - as outras recusavam-se a dar aulas pro Carlinhos - o Diretor suspendeu-o por dois dias.

Carlinhos assim cresceu. Media-se na porta da cozinha todos os dias, anotando os progressos diários. Tudo registrava. Como os professores não o queriam perto, foi aprovado em todos os anos, com louvor. Entrou na UNB pelo PAS, cursou Estatística, sempre tabulando e sonhando com médias, modas, medianas e variâncias. Era, antes de tudo, um chato.

Formado, decorou todos os pontos e vírgulas do Estatuto dos Funcionários Públicos e foi classificado em primeiro lugar no concurso do Detran. Analista de Trânsito. Ao passar e engomar diariamente a farda amarela de Carlinhos, Dona Maricota, peito cheio de orgulho, pensava: esse menino vai longe.

Dedicado ao serviço, usava suas folgas a pesquisar e medir. O chefe, burro e incompetente, não entendia a necessidade de tabular a influência da cor do carro nos acidentes, a relação entre o tamanho do extintor de incêndio e a altura do motorista ou o tom da buzina com a quantidade de buzinadas.

-Seu Karlos, vá carimbar processos e me deixe quieto. Se quiser, vá medir isso no fim-de-semana.


E assim Carlinhos fazia, com toda dedicação e empenho. Tanto empenho e dedicação, acompanhados de explicações matemáticas incompreensíveis, por isso mesmo incontestáveis, faziam os relatórios subirem os escalões hierárquicos, de mesa em mesa, de andar em andar, com elogios sucessivos. Afinal, pensavam, como dizer ao chefe que não entendiam disso. "Quem quiser, que passe seu atestado de burro, eu não...", pensamento unânime da nomenklatura burocrática.

Assim, passaram a ser exigidos extintores de incêndio que nunca são usados, kits de primeiros socorros de utilização duvidosa, viseiras de capacetes a prova de mosquitos, absoluta e rígida exigência de amortecedores originais de fábrica, números de RENAVAN incompatíveis com os registros internacionais, engates de reboque embutidos etc.

Tanta proficiência proporcionou carreira meteórica ao Carlinhos. Nunca, em tão pouco tempo, foram feitas tantas regras, baixadas tantas medidas, impostos tantos controles. Tudo com fundamento científico. Na mudança de governo, Carlinhos foi guindado à presidência do Órgão máximo. Sem dúvida, por absoluto merecimento.

Na posse, Dona Maricota, já avançada em anos e quase cega pensava "esse menino vai longe".

"Aos 48 senhores e 13 senhoras presentes, meus agradecimentos por sua presença nesta solenidade." E assim começou o discurso de posse, para o sono dos presentes e orgulho de D. Maricota que, acordada pelos 17 segundos de aplauso (cronometrados por Carlinhos), sonhou: "esse menino vai longe..."

Na primeira reunião, apresentou proposta de que a velocidade máxima dos veículos fosse reduzida para 10 km/h, isso nas auto-estradas, pois seu estudo demonstrava a forte correlação entre velocidade e acidentes. Se a velocidade dos veículos tendesse a zero não mais haveria vítimas de trânsito. O lógico argumento não foi contestado.

A proposta, aprovada por um modorrento Conselho, subiu ao Ministro para deliberação final. Decidiu o Ministro aprová-la, com base nos sólidos fundamentos estatísticos, não compreensíveis, mas ainda assim sólidos na opinião abalizada do Chefe de Gabinete, primo de seu mais importante cabo eleitoral. Porém, como é ano de eleição e carros parados não conduzem eleitores, incluiu Carlinhos numa missão de apoio humanitário do Itamarati, para implantação de sua tese longe das urnas.

D. Maricota ao ver, através de seu cristalino embaçado pela catarata, o vulto de Carlinhos a embarcar para o Iraque, ainda pensou "esse menino vai longe".

(Figuras de Brasília ... é publicada neste blog todas as segundas-feiras)

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