domingo, novembro 26, 2006

Juvêncio

Aconteceu de repente. Quando percebeu, seus olhos cruzaram-se e o encontro foi inevitável. Ainda teve o reflexo de fugir, fingir que não viu, amarrar o sapato, olhar pras nuvens, se fazer de desentendido.
Não adiantava. O Juvêncio já estava na sua frente, com seu sorriso molhado, o que dava calafrios em Paulo. Esse sorriso, daquela forma, com os lábios entreabertos e ligeiramente assimétricos, sinalizavam uma dose quase letal de chatice.
Juvêncio, cabelos emplastrados do Gumex que conseguia manipular na fórmula original numa farmácia do Núcleo Bandeirante, vestia seu indecifrável terno preto, camisa irremediavelmente branca e constante gravata vermelha, como todas suas gravatas. Intimamente saboreava a combinação desse adorno com o rubi (sintético, a bem da verdade) de seu anel de grau. Adquirira o hábito de coçar o queixo com a mão direita – nela usava seu anel – virando esse cacoete sua marca registrada. Assim dizia ao mundo que era advogado e salientava a combinação com sua gravata.
Do dedo, o anel saíu uma vez só, ordenado pelo médico ao examiná-lo, inchado e roxo. Divulgou Juvêncio que o machucou jogando squash. Seus colegas de trabalho, certamente por inveja e maledicência, garantem que Juvêncio esqueceu o dedo ao fechar o vidro do carro.
Recentemente havia sido designado para a sub-chefia de uma seção no governo. O chefe, homem soturno e burocrata convicto, desistiu de resistir ao assédio, ao puxa-saquismo explícito, à coçada no queixo. Não era à toa que, na repartição, referiam-se a ele como Juvêncio Carrapato, uma evidente maldade.
Do próprio bolso, mandou imprimir cartões de visita com o brasão da república, sem esquecer, lógico, o Bel. antes do nome em negrito, ostentando sua nova posição na nomenklatura federal. Na quinta-feira seguinte à publicação de seu nome no Diário Oficial, foi ao Bar do Professor onde distribuiu seus cartões com fartura, para gozação dos poucos conhecidos e pasmo da grande maioria atônita, que nunca o tinha visto mais gordo. Contam até que naquela quinta-feira, a discussão etílica foi intensa, chegando à troca de sopapos entre um petista exaltado e um tucano bêbado. Com mais álcool do que sangue, confundiram-no com candidato à Distrital e com participante do mensalão, respectivamente, porém não na mesma ordem.
Paulo voltou à realidade e viu-se frente à frente com o sorriso, seguido pelo aperto de mão, nunca menor que um minuto. Em verdade, quando Juvêncio segurava a mão de alguém, tinha dificuldade em separar-se dela. Desde pequeno era assim, o que lhe custou alguns cascudos de seu tio Nalvo, que não gostava dessas intimidades. Diferente de sua tia Zenita que aproveitava a lerdeza do garoto para segurar seu sutiã, enquanto fingia amarrá-lo às costas. As duas mãos do Juvêncio eram providenciais. Não desgarravam.
Cultivava seu sotaque regional, carregando nos erres e esses, ós e és. Lembrava-lhe o pai, sertanejo e analfabeto, que a seca, a miséria e a cachaça tinham matado bem no dia do aniversário de cinco anos do Juvêncio. No auge de sua inocência, foi a melhor festa de aniversário que teve, com abraços demorados, café e bolo de puba e nenhum cascudo do tio Nalvo.
Das poucas lembranças da infância, essa era uma. Outra foi quando seu pai o viu cantar o a-e-i-o-u, decorado a duras penas pelos ensinamentos e paciência da Jurema, mulatona gorda, vizinha e professora. Nesse dia, o habitual tapa na cabeça, única manifestação de afeto, veio acompanhado de um tonitroante "eita, essa peste do rato vai ser dotô, de anel no dedo."
Paulo deu-se conta que sua mão continuava aprisionada. Respondeu um tudo bem, mesmo sem se lembrar da pergunta. Conseguiu desvencilhar sua mão e preparou-se para escutar.
Contou-lhe Juvêncio as novidades, já pisadas e requentadas. Que tinha sido convidado para assumir importante função.
"O chefe, burro e incompetente, precisava dele e não admitiu recusa. Mesmo com toda relutância e condições impostas – comparecer à seção somente de terças a quintas, e à tarde, tive que aceitar", contou coçando o queixo com a mão do anel.
Aproveitou para sacar do bolso seu cartão de visitas, estoque guardado numa carteira vermelha, de courvin barato mas com reluzentes brasão da república em um lado e Ordem dos Advogados do Brasil em outro, gravado com letras douradas,.
"Tome, é meu novo telefone, estou a seu dispor", esquecido das dezenas de vezes anteriores em que a cena se repetiu.
E continuava, sem trégua. "Consegui recuperar a SAB, lembra-se, aquela rede de supermercados do governo. A pressão foi grande, até o Diniz me ligou sábado passado, lá em casa, pra pedir uma carência de dois anos antes de entrarmos em operação, para se adaptarem. Mas esse seu criado aqui não dá colher de chá. Autoridade é autoridade."
Paulo distraiu-se e rogou aos céus que um Boeing caísse bem ali na esquina. Que não fosse um Boeing, até o helicóptero dos Bombeiros servia, ou mesmo uma van desvairada que invadisse a parada de ônibus. Qualquer coisa que lhe desse o pretexto de sair correndo. De fugir. De tornar-se invisível. Um fantasma.
O Senhor não lhe atendeu, sequer uns pingos de chuva caíram.

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