terça-feira, novembro 28, 2006

Tráfego Aéreo

O controle do tráfego aéreo é o drama da vez. Não há jornal, noticiário ou reportagem que não trate do assunto, sempre carregando nas tintas e veiculando o pânico, aproveitando-se da ignorância sobre o assunto e da enorme atração popular pela catástrofe.
Sou piloto. Talvez essa condição me deixe um pouco menos ignorante no tema. De forma geral, vôo no espaço aéreo G (sabem que há 7 espaços aéreos, cada um com suas características?), espaço esse em que somente são prestadas informações. No entanto, também utilizo outros espaços, esses sim controlados. Há regras específicas e nada tira do comandante a responsabilidade final sobre o vôo. Cabe a ele cumprir o plano de vôo estabelecido e não alterá-lo sem autorização. Cabe a ele manter os equipamentos de segurança e navegação ligados (os do Legacy estariam?) ou reportar aos órgãos controle sua inoperância.
Há pontos cegos, surdos ou mudos? Talvez, porque a propagação de ondas eletromagnéticas sofre interferências. Sua televisão não chovisca e seu rádio não apresenta ruídos eventualmente? Seu celular não cai a ligação? Os equipamentos aeronáuticos também. Não raras vezes ouvimos uma aeronave fazer ponte para outra, ou seja, intermediar a comunicação com o controle. É procedimento absolutamente normal e recomendável. Isso não significa equipamentos com defeito ou obsoletos. São ondas de rádio.
Não raras vezes também ouvimos o controle chamar a atenção de comandantes, inclusive da aviação comercial, sobre procedimentos inadequados.
A bem da verdade, todas as vezes em que solicitei contato fui atendido, mesmo se tratando de aeronave de pequeno porte, em regras de vôo visual. E todas as vezes que o controle sentiu necessidade de fazer contato comigo, seja para obter informação, seja para prestá-la, foi solícito, competente e os equipamentos funcionaram muito bem.
Na linha do pânico e da catástrofe, ouvi que o TCU faria uma devassa no controle aéreo. Puro jogo para a platéia, pois de avião conhecem somente o cartão de embarque para vôos a trabalho ou nem tanto. Com certeza, após milhares de horas de auditoria por "especialistas em generalidades" e o gasto de milhões de Reais buscando talvez um carimbo que não foi aplicado num formulário qualquer, concluirão recomendando que se façam investimentos no setor .
Ora, nos últimos 5 anos talvez não tenham morrido por acidentes aéreos mais de 200 pessoas no Brasil. Mais de 10 vezes isso morreram de acidentes em transporte rodoviário. E o competente TCU não determinou nenhuma devassa, que eu saiba. Será porque os dignos traseiros ministeriais raramente assentam-se nos ônibus - urbanos e rodoviários - não sofrem com os atrasos (maiores do que os dos aviões); não correm os riscos de estradas que, algumas, não podem ser duplicadas antes que os luminares do IBAMA o aprovem; não sofrem os assaltos constantes nas rodovias?
Ou será só porque acidentes com ônibus, frequentados habitualmente por camadas mais pobres, não acendem as luzes dos holofotes?
Está na hora de encarar nossa realidade sem a iconoclastia que nos torna sempre os piores do mundo sem realmente sermos.
Os equipamentos não são sucateados, os sistemas de vigilância operam muito bem, obrigado, os controladores (mal pagos pois não são vinculados nem ao legislativo nem ao judiciário) competentes, as regras e doutrinas de vôo obedecidas e padrões de segurança, internacionalmente aceitos, atendidos.
Melhorar, sempre pode e deve. O que não deve é gerar uma insegurança onde não há, apenas por audiência, por ser o tema da vez.
Nesta semana, um apresentador conhecido, após arregalar os olhos de terror, gesticular a cabeça em reprovação e impostar a voz, denunciou que os equipamentos operam com 60% de sua potência para aumento de vida útil. Fiquei pensando se ele opera o motor de seu carro com 100% da potência ou se ouve CD com volume no máximo. Não importa o nível de potência em que os equipamentos operam e sim sua efetiva funcionalidade. E, pelos níveis de segurança das operações aéreas registrados no Brasil, funcionam bem, sim senhor.

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