domingo, dezembro 10, 2006

O Pavê

Pois não havia festa sem o pavê da Tia Lina. Como declarava em falsete o primo Jericó, esganiçado e fanho. Sem pavê, sem festa.

Perdeu-se na memória familiar desde quando o indefectível pavê era constante nos cardápios comemorativos. Desde sempre, surgiu com o Big Bang, considerava o primo Jericó, versado em astronomia e pós-graduado em horóscopo de jornal, que acrescentava colérico "jerico é a mãe, meu nome é Jericó", com inconfundível voz de taquara rachada. O epípeto era uma antecipação à piadinha permanente e repetitiva do primo Jacy, saindo de seu topor alcoólico para fustigar Jericó "manda esse jerico parar de zurrar".

O fato é que bastava uma festa, aniversário, aprovação no supletivo ou mesmo o enterro de um conhecido, tudo era pretexto para Tia Lina , maga das bolachas e cremes-de-leite, surgir com seu pavê.

- "É minha contribuição", modesta e orgulhosamente afirmava, olhos baixos, aguardando agradecimentos e elogios.

A bem da verdade, após décadas de constante treinamento, o pavê agradava a todos. Até Zenita, gerada nas macegas e criada pela família, diabética e manca, sempre dava um jeito de surrupiar uma lasca e comê-la escondida atrás da porta da cozinha. Escondida principalmente do Primo Jacy, que sempre que a via ordenava "manda essa saúva fechar a boca". Desagradável esse Jacy, mas não desprovido de razão. Por duas ou três vezes, após comer o pavê, teve Zenita que ser levada ao hospital, babando e com tremores. Para espanto dos plantonistas, Jacy berrava nos corredores "manda esse doutor receitar um namorado". Mandão, esse Jacy.

Assim, por muitos natais, páscoas, vestibulares e aniversários, missas de batizado ou de sétimo dia, acostumaram-se todos com o pavê da Tia Lina.

Solteirona empedernida, a esperar até hoje pelo caixeiro viajante que prometeu voltar - dizem as más-línguas que só lhe deixou lembranças e a Zenita, - levou sua vida a construir e montar pavês em todos os pretextos e ocasiões.

A decadência física da Tia Lina foi percebida por todos, não por sua tosse seca, sua magreza progressiva, surdez ou má visão, mas pela qualidade do pavê, que já não era o mesmo.

-É creme de leite do Paraguai, sibilava Jericó. Besteira, não se faz mais bolacha como antigamente, sentenciava Jacy, acrescentando "manda esse jerico calar a boca", afirmação prontamente contestada por um agudo "jerico é a mãe, meu nome é Jericó".

Um dia, após meteórica passagem de três dias na fila de um hospital, Tia Lina esticou as canelas, na afirmação irreverente de Jacy, coração de pedra. "Ainda bem, não agüentava mais pavê. Ela que vá fazer pavê pro Arcanjo Gabriel".

A família encontrou-se no Campo da Esperança. Quase toda, porque Zenita não estava. Encomendado o corpo por um padre alemão com sotaque italiano, no meio de um creio-em-deus-pai, Jericó interrompe com um grito desafinado: "A Zenita chegou e tá trazendo um embrulho". Desfeito o pacote, via-se uma travessa com pavê.

Junto com o doce tinha um bilhete da Tia Lina. Na mensagem post-mortem, flutuando numa bandeirinha fincada no pavê, com letra tremida, leram todos:

"Pensavam que não ia ter pavê no meu velório?"

(Figuras de Brasília... é publicada neste blog às segundas-feiras - às vezes)

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