sexta-feira, julho 15, 2011

Trabuco Salvador

Seu Geraldo já estava de saco cheio. Todo mês tinha sua casa invadida por um malandro. Talvez não o mesmo, pois deve haver um tipo de escala entre bandidos. Assim, o radinho novo foi tocar pra ouvidos outros, assim o dinheirinho guardado virou fumaça. De crack.
Deu parte, lavrou ocorrências. Que nada. Chegaram a dizer pra ele que isso representava baixo risco social, infração leve. Considerasse isso como um imposto novo, uma contribuição social à sobrevivência dos malandros. Afinal, a gente já não paga salários milionários para tantos? Mais um, menos um, a sociedade suporta.
Quem não suportava mais era Seu Geraldo. Até pra namorar, tinha que chavear a porta do quarto. Vá que tivesse uma platéia oculta nas sombras. Seu Geraldo, decididamente, não se dava a esses exibicionismos.
Como fizeram uma lei que virtualmente invibiabilizava Seu Geraldo ter em casa uma arma legal, daquelas feitas pra espantar bandido, construiu ele mesmo uma. Criativo, arrumou o trabuco na mesa da cozinha e engatilhou sincronizado com a porta da cozinha. Quando abrisse, buummm. Ladrãozinho de merda.
Claro que a lei não permite a autotutela, em princípio. Justiça pelas próprias mãos? Nem pensar. Também nem pensar em efetividade do Estado em proteger o cidadão. São crimes de baixa ofensa social, definiram. O radinho e o dinheiro do pão? Problema do Seu Geraldo.
O malandro forçou a porta e foi visitar a cozinha e o fogão a lenha de belzebu.
Seu Geraldo, claro, indiciado por homicídio doloso, por assumir o risco de matar. Pode pegar até 30 anos de cana.
Penso que não houve homicídio, porém suicídio. Mas a lei não pensa assim.
Será que o ladrão também não assumiu o risco de morrer ao invadir a casa dos outros?
Bem, mas isso não interessa pra lei. Esse fato é real e aconteceu em Formosa, Goiás.

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