quarta-feira, janeiro 26, 2011

Hipócrates e Hipócritas

No momento solene de sua formatura, os médicos pronunciam o Juramento de Hipócrates, simbólico por representar um ideal de atendimento humanitário, sacerdócio de dedicação ao próximo, ao alívio de dores e angústias. Idealmente, propõem-se a colocar o bem da vida acima até dos materiais, o respeito ao próximo acima do seu conforto.
Por isso, o exercício da medicina, mais do que em outras profissões, exige vocação consolidada.
Não é isso que se verifica na rede pública do Distrito Federal, e por inferência minha, na de todo o Brasil.
O desrespeito à pessoa assume proporções catastróficas, revoltantes mesmo aos que dependem dos serviços públicos, concentradamente nos segmentos mais desfavorecidos.
Esse desrespeito ultrapassa os limites do descaso, do desatendimento, da desinformação. É criminoso.
Uma amiga, que aguarda há exatos 39 dias uma cirurgia ortopédica para tratamento de fratura completa da tíbia e perônio (agora chamada fíbula) sequer consegue um relatório médico sobre a necessidade dessa cirurgia.
E ainda pode-se considerá-la feliz.
Há vizinhos de enfermaria cujos dedos gangrenados estão saindo dos pés junto com os curativos, por absoluta desídia médica.
Há vizinho, cuja idêntica fratura não tratada deu início a processo infeccioso que poderá resultar na amputação da perna.
Há casos e mais casos, nesse circo de horrores em que se transformaram os hospitais públicos.
Nesse processo, não faltam ofertas dos mesmos médicos, que recebem seus salários do público, para procederem o tratamento necessário em suas clínicas particulares.
Fomentam-se o agravamento e a degradação dos quadros clínicos, planta-se a dor humana como verdadeiro instrumento de chantagem, levando ao desespero os necessitados para que, irracionalmente, desfaçam-se de todos seus bens, endividem-se e comprometam seu futuro para pagar seu tratamento médico, como forma única de evitar a morte ou aleijão imediato.
No Hospital Regional de Planaltina, no DF, há 9 ortopedistas, ao que consta. Criminosamente esqueceram seu juramento e, entre um cafezinho e outro, entre seus interesses particulares e o desinteresse pelos públicos, parece terem trocado de juramento.
Há novo compromisso na praça. Com a hipocrisia.

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