sábado, outubro 30, 2010

Divina Tragicomédia

Em tempos de sensibilidade à flor da pele, fatos irrelevantes adquirem dimensão nervosamente desproporcionais. Refiro-me às recentes orientações eleitorais de Bento XVI.
Pelo descolamento da realidade e pela manutenção de ritos e dogmas medievais, tanto na forma como no conteúdo, caminha a igreja católica numa ladeira a baixo em número de fiéis e em precipício em quantidade de praticantes. Bento VXI lidera essa corrida, aliás muito bem pilotada também por seu carismático, porém não menos reacionário, antecessor.
O Papa é o líder espiritual de uma corrente filosófico-religiosa que o entroniza como procurador único de Deus na terra, infalível em questões de fé. Até aí, tudo bem, tem doido pra tudo. O pitoresco Inri Christo, embora a autodeclaração de divindade, não se recusa faturar um terrenos milréis no Pânico na TV. A César o que é de César e o pão nosso de cada dia tem que ser buscado, seja com cachês, seja com dízimos e ofertas. É mais seguro do que multiplicá-lo.
Mas não é esse o caso. É perfeitamente justificável e previsível que o Papa declare a seus bispos que orientem os fiéis a votar coerentemente com a doutrina que preside. Qual a novidade? Todos deveríamos votar em modelos e propostas, não em nomes de salvadores de ocasião.
Se para a igreja católica usar camisinha é inadequado, mesmo que previna epidemia de AIDS, é justo e compreensível que oriente seus adeptos e acólitos a não utilizá-la. Serão confortados com a extrema-unção e acolhidos no seio dos anjos como mártires da fé, por terem se recusado a usar preservativos. De quebra, assegurarão o estoque futuro de fiéis, mesmo que miseráveis.
O desproporcional é pretender que as orientações papais sejam estendidas compulsoriamente também àqueles que não participam do clube, que não o reconhecem como líder e que compõem a maioria do povo brasileiro. Aí está o segredo do estado laico. Da mesma forma que o catolicismo, líderes de outros grupos religiosos manifestaram-se claramente e posicionaram-se nesta eleição. E a eles não foi dada a mesma repercussão, aliás corretamente.
As manifestações de religiosos, sejam eles o Malafaia, o Valdemiro, o Bispo Macedo, o Papa, o Bispo de Guarulhos têm a mesma importância e só deveriam influenciar candidatos que fundamentem-se na demagogia, não em propostas concretas de gestão nacional.
Infelizmente, não é o que se vê.

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