sexta-feira, outubro 22, 2010

Renúncia de Lula

"Lula Renunciou", deveriam retratar as manchetes de hoje. Não de direito, verdade, mas de fato.
Ao enveredar num bate-boca, pronunciando opiniões precipitadas sobre o incidente com Serra, sem deter informações mais completas, Lula renunciou à posição do estadista e assumiu a função de porta-voz de campanha eleitoral. As duas são incompatíveis entre si e Lula escolheu onde quer ficar.
Sua opção como estadista, que confunde e mistura no maldito presidencialismo que vivemos as funções de chefe de governo e de Estado, deveria ser outra.
Deveria considerar que a agressão a um candidato, seja por bolinha ou rolo de papel higiênico, safanão ou murro, têm a mesma dimensão simbólica. Uma agressão ao princípio democrático de liberdade de expressão, de ir e vir, de manifestar ou calar.
O estadista deveria repudiar de pronto a agressão, não interessando seu potencial de ferir ou machucar. O estadista deveria desconsiderar qualquer simulação que a amplificasse. Sua verdadeira grandeza é a agressão, em termos absolutos, não em relativos.
O estadista deveria, de imediato, colocar o aparato policial que prevenisse atentados aos candidatos, seja com papel, seja com bazucas.
O estadista deveria chamar às falas a população, alertá-la de que campanha eleitoral não é confronto de torcidas organizadas.
O estadista estaria mais atento à democracia de que a seu partido.
Pessoalmente, acho que a equipe marqueteira de Serra buscou tirar do episódio proveito político, mesmo que amplificando-o. Mas isso é irrelevante.
Numa campanha que primou pela baixaria, pelos escândalos de ocasião, pelos subterrâneos partidários de dossiês endógenos e exógenos, de menos propostas e mais acusações pessoais, até não se poderia esperar coisa muito diferente. Numa disputa em que os candidatos são postos como os salvadores, a política fulanilizada, colocada em termos pessoais e não como uma ação coletiva de grupos de opinião mais ou menos homogêneos e coerentes entre si, naturalmente descamba para um combate pessoal, abandonando seu caráter institucional. Nesse ponto, o Judiciário também é responsável ao permitir os ataques pessoais nos programas eleitorais, por vezes sem qualquer relação direta com as propostas de governo futuro e promovendo agressões pessoais a terceiros, que nem candidatos são.
Mas o inconseqüente maior foi Lula, que desceu a rampa para se tornar chefe de torcida organizada. É pena.

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