sexta-feira, novembro 26, 2010

Susto

A escalada da violência urbana teve um início claro. O período de exceção política.
Mas o que a ditadura tem a ver com isso, se em seu decurso não havia essa bandidagem? Tudo e nada.
Nada porque ela decididamente não a acobertou. Tudo, porque a constituição de 88, com o intuito de impedir a truculência do Estado, ainda traumatizada a sociedade pelo arbítrio, promoveu a impunidade em cláusula pétrea como efeito colateral à salvaguarda da liberdade e democracia. Abrigou, com a ampla condução da opinião pública pela imprensa, abortos como a culpabilidade somente admissível após sentença transitada em julgado pelo último tribunal recursal possível e a impossibilidade de pena de morte ou de trabalhos forçados. Propiciou também o surgimento da mão na cabeça prevista no ECA, entre outros.
Bando de polianas em que nos tornamos.
A escalada da violência urbana teve um meio claro. A tolerância hipócrita elitista.
Os ingleses promoveram o uso de entorpecentes em algumas de suas colônias, notadamente na China, como instrumento de dominação da vontade autônoma. Líderes de povos dominados aprenderam a lição e utilizaram a droga para expulsar invasores, como no Vietname.
Nos Estados Unidos, atolado numa guerra imperialista sem sentido, os alucinógenos passaram a ser francamente utilizados pela juventude, tanto a que estava diretamente envolvida na guerra como a que, em sua pátria, contra ela se mobilizava, bem representada pela geração hippie. O glamour libertário associou-se ao LSD, maconha, heroína e cocaína.
No Brasil essa geração ficou adulta e com independência econômica na década de 80, trazendo em sua bagagem a lembrança do glamour de Woodstock e das drogas. Foi a época das festas de embalo, em que LSD, maconha e cocaína faziam parte do cardápio. O meio artístico, pelo quase orgulho que demonstrava em utilizar as drogas abertamente, manteve a aura glamurosa do uso.
Essa geração, principalmente nas classes A e B, mesmo quando não fazia uso diretamente, foi extremamente tolerante com seus filhos, amigos e grupo social. O uso de drogas passou a ser tolerado, sem qualquer impedimento ou barreira à convivência. Porém, eram caras, exigiam recursos pessoais que restringiam o acesso por camadas mais pobres.
Para preservar seus filhinhos, conseguiram descriminalizar o uso. Os meninos poderiam continuar se drogando sem ser incomodados pela polícia. E assim, a droga passou a ser consumida juntamente com os currículos universitários.
Não se deram conta que o dinheiro fácil que escorregava para os traficantes era a fonte de financiamento necessária para a ampliação do mercado. Os traficantes passaram a contar com os recursos necessários para ampliação de seu negócio, passando a vender a crédito. Novas camadas foram incorporadas, em especial as desprovidas de recursos dos papais riquinhos, que passaram a roubar, assaltar e matar para conseguir pagar aos traficantes que lhes supriam e aos advogados que os libertavam. De quebra, a maus policiais que não os prendiam, a maus agentes penitenciários que lhes facilitavam a vida, a maus profissionais que os absolviam.
Mas aí veio o susto, chamado crack.
O crack é barato, ao alcance de qualquer um que tenha dois reais. E pior, não cria só dependentes, mas zumbis, sem princípios nem valores, sem rei nem lei.
Aí, a criminalidade explodiu e atingiu mesmo as camadas abrigadas em bunkers ou mansões. Todos, indiscriminadamente, mesmo os que habitam em coberturas e carros blindados, somos dependentes do crack e reféns dos traficantes.
Assustada, a elite governante e dominante começa a esboçar uma reação. Como sempre, de acordo com seus interesses. Guerreiam os traficantes para que, exauridos, fiquem impedidos de popularizar o uso, vendendo a crédito. Mas não combatem os usuários, origem do problema.
Como sempre, querem preservar a si e a diversão de seus filhinhos. Com toda segurança.
A escalada da violência urbana não terá fim enquanto a sociedade abrigar-se na hipocrisia de não reconhecer o tráfico e o consumo como irmãos gêmeos e submetê-los às mesmas regras .

0 Comments:

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home