quarta-feira, outubro 22, 2008

Orgasmo da Tragédia

Sociedades, assim como os indivíduos, são organismos vivos que nascem, amadurecem, adquirem comportamentos, adoecem e morrem. Nossa sociedade brasileira está doente e o principal sintoma é a espetacularização da tragédia.
Não se pode atribuir esse fato à mídia, apesar de sua contribuição na difusão desse comportamento, que só existe em razão da tragédia dar audiência, aumentar seu valor publicitário.
É uma doença de nossa estrutura social mesmo, da aceitação passiva de contrastes gritantes, da concentração da miséria em guetos e favelas, da consciência coletiva de que, de tempos em tempos, elegemos alguns cafajestes para nos representar e governar nossas vidas.E ficamos contentes com isso.
O país do trabalho e da decência virou o país da esperteza. Da esperteza, o da tragédia. Novos valores passaram a ser cultuados.
Em pequenas coisas percebe-se essa mudança de comportamento. Não há acidente de trânsito que não gere engarrafamento. Se de pequena monta, somente pela arrogância policial em bloquear pistas desnecessariamente. Se de grande monta, pelos próprios motoristas ansiosos de ver intestinos ou massas encefálicas esparramados pelo asfalto. Quanto mais trágico, maior o espetáculo, maior o orgasmo coletivo.
Não é por pena que param. Não se trata sequer ato de solidariedade. Porém, pela visão dantesca de membros espatifados, corpos esmagados, sangue coagulado.
O bandido, o assassino, o transgressor é o elemento essencial de nossa sociedade. Sem ele, o pão e circo não se completaria, para infelicidade geral da nação.
Talvez a origem esteja lá atrás, há dois mil anos, quando Paulo nos transmitiu mais valor ao suplício do Messias do que a sua própria mensagem de amor. Imagens ensangüentadas dele na cruz nos são muito mais presentes do que a prática de suas lições de solidariedade, de inclusão. Quanto mais ensangëntadas e sofridas, melhor.
Talvez, entretanto, a origem não seja essa. É possível que a transformação sádica tenha se motivado a partir de um desejo inconsciente de vingança. Ou não sádico, mas masoquista, em sentir que está sob permanente ameaça, tal como presas aleatoriamente escolhidas por predadores de tocaia. Pode ser até que a sobrevivência pessoal seja intimamente interpretada como uma vitória pessoal contra o destino, única vitória que lhe tem sido possível obter face às injustiças de um Estado tutor. É possível. A morte não sofre a tutela dos legisladores, nem de juízes, nem de delegados. A morte é a suprema libertação dos escravos e não depende da vontade de seus senhores.
O velório da protagonista da última tragédia orgástica nacional, a Eloá, foi simbólico. A imprensa, a extrair suas últimas gotas de audiência sobre o cadáver, na tentativa de prolongar a comoção. Destaque para a mãe da menina, a declarar que perdoa o assassino. Não fosse o Código Penal, talvez lhe convidasse pra um churrasquinho no próximo fim-de-semana, pois perdoado está, segundo ela. Bem na linha de algumas editorias que tentam responsabilizar a polícia pela morte da menina, na linha do endeusamento do homicida.
Grupos de populares com cartazes e camisetas, a clamar por justiça. Mas qual justiça? Que ato a ressucitaria, a traria de volta, passaria a borracha no tempo e nos fatos? Dar-se-ão por satisfeitos em acompanhar as idas e vindas do inquérito, as chicanas protelatórias, o noticiário que prolongue seu orgasmo. Serão atendidos, dado que, mesmo se condenado nominalmente por todos os crimes imputáveis, o assassino não cumprirá mais do que 6 anos - vá lá, 8 - e retornará limpo, lépido e faceiro ao seio da sociedade clamante por um herói. A menina Eloá já terá seus ossos misturados à terra que a acolheu e o bandido estará recebendo tapinhas nas costas cumprimentando pelo seu retorno após pequenas e imerecidas férias patrocinadas por nós mesmos.
Pena de morte pra ele? Nunca! Como a sociedade poderá viver sem bandidos a ela integrados?
Como ser iconoclasta e eliminar seus heróis?
Nessa mesma linha, continuamos a aceitar e conviver com quem compra drogas e financia os traficantes - isso nem crime é - continuamos a exigir mais presídios para abrigar nossos ídolos ao invés de casas para os trabalhadores, continuamos a aceitar o jugo do Estado tutor a regular nossas vidas em seus ínfimos detalhes, versão moderna da escravatura, pois os bandidos nos resgatam a bandeira da liberdade, fazem o que querem e, a eles, o Estado não tutela. Nenhum agentezinho de um Detran da vida entra numa favela pra ver se o avião está usando capacete. Ninguém é detido, num desses guetos, por portar um AR15. É mais fácil oprimir a bovina população nas ruas, que chega ao extremo de aprovar e aplaudir ser opressa.
Manter os bandidos vivos e atuantes, afinal, é desejo da própria população.
Assim fica-lhe assegurado romaria a velórios, com direito a fotos do defunto no caixão.
Assim fica-lhe assegurada a lembrança do último orgasmo, enquanto aguarda o próximo.

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