sábado, outubro 11, 2008

Bush's Earthquake

Que o mundo não será mais o mesmo, que o ciclo da "pax americanae" foi pro brejo, dá pra perceber. A tão falada crise mundial é o aspecto mais visível disso.
Mas afinal, que crise é essa? Volta e meia escuto comentários no sentido de que "os americanos que se explodam", ou mesmo "bem-feito pros especuladores".
Esquecem-se que os efeitos dos terremotos não se limitam a seu centro.
Bem, pra entender a crise, sem ter a pretensão de eu mesmo entendê-la. A essência do capitalismo está nos processos de compra e venda e de que, nesse processo, quem vende acha que está recebendo mais do que o objeto vale e quem compra pensa que está pagando menos do seu efetivo valor. No extremo, não deixa de ser um conto do vigário sucessivo. Teoricamente, caberia ao mercado o nivelamento e a contenção dos interesses em passar o outro pra trás. Porém, quem é o mercado, se não o conjunto desses golpistas?
Além disso, como determinar o real valor de um bem? Quanto vale um copo d'água? Depende!
Há alguns sentimentos envolvidos em toda a transação.
O primeiro deles é a necessidade frente à escassez. Ou seja, a famosa oferta e procura. Na beira de um rio, um copo d'água não tem valor comercial. No deserto, vale muito. E, pra quem esteja morrendo de sede, vale a vida. O bem continua o mesmo, mas seu valor mudou.
Outro fator é a temporalidade. O agora, o daqui a pouco, o lá na frente também determinam o valor do bem, tanto para o comprador como para o vendedor.
Se o comprador intui que, no futuro, aquele bem terá seu valor aumentado, o comprará agora mesmo que seja para recebê-lo no futuro. Ou seja, paga por um bem que não existe. Paga por uma expectativa de lucro. Assim, um recebe pelo que não tem, o outro paga pelo que não recebe.
Esses contratos adquirem um valor vitual e, por sua vez, são negociados com outros atores que também intuem o valor futuro. Por esse mecanismo, é entendimento de que a safra se soja brasileira troca de mãos pelo menos 40 vezes antes mesmo de ser plantada.
Esses contratos compõem-se nos ativos das organizações ou dos indivíduos e lastreiam outras operações de crédito, numa jogatina digna de Las Vegas.
Nessa mirabolante corrente da felicidade, a moeda, que deveria ser um padrão de troca entre os diversos bens disponíveis, um parâmetro de relativização de seus valores, passa a ter vida própria. Vida virtual, no entanto.
No pós-guerra, em Bretton Woods, combinou-se que a moeda de troca internacional seria o dólar americano e que este seria lastreado em ouro, conversível portanto. Pouco mais de uma década passada, os Estados Unidos decidiram que a conversibilidade não seria mais praticada, pela evidência de que havia mais moeda do que lastro. Moeda virtual, falsa. E todo mundo fingiu não ver que o rei estava nu. Pirâmides virtuais incrementaram bolsas de valores e mercado interbancário, em operações de derivativos e afins.
E a maquininha de imprimir dólares continuou a pleno vapor, financiando a irresponsabilidade fiscal americana e suas aventuras belicosas mundo a fora. Num mundo unipolar, porque não?
Acontece que um elo dessa cadeia se rompeu. A especulação com contratos de financiamento imobiliário, a trocar de mãos que nem china em fandango, criou um mico gigantesco. A garantia desses contratos era os imóveis irresponsavelmente financiados sem outro objetivo além de possuí-los em carteira e vendê-los a bancos, que lastreariam suas operações com esses ativos. Quando materializou-se a inadimplência, as garantias mostraram valer muito menos do que os créditos. Ou seja, o dinheiro dos depósitos e aplicações sumiu, escafedeu-se, evaporou-se na cadeia especulativa.
Acontece que os bancos, em especial nos Estados Unidos, são submetidos à regulamentação frágil. Berço do liberalismo, "no rules, best rules". E aí caiu a ficha. O rei estava nu.
As bolsas de valores despencaram, pois o valor virtual das ações não era compatível com o das empresas. E os bancos tentaram desesperadamente passar o mico adiante, promovendo uma super-oferta, até para recuperarem, em parte que fosse, o dinheirinho dos seus depositantes e aplicadores. Não deu, bem se vê.
No mercado interbancário, as operações de crédito que eram lastreadas em títulos podres encolheram. O governo americano, em operação bilionária, tenta assumir pra si o gigantesco mico. Os governos, cada um a seu modo, vão fazendo a mesma coisa, pra evitar um colapso amplo, geral e irrestrito. Essa hecatombe, caso ocorra, fará todos os bens virtuais, neles incluindo as reservas nacionais, virarem fumaça. Daí o esforço mundial para evitar a quebra.
O Brasil, destino de capital especulativo de detentores de dinheiro virtual nascido de títulos apodrecidos e micados, é vulnerável, sim. Menos do que antes, sem dúvida. Tem dólares pra injetar no mercado, devolvendo os micos que recebeu. Está fazendo isso com leilões de dólar a vista, como precaução a uma escalada inflacionária. Fosse ao tempo do professor Cardoso Esqueçam-o-que-Escrevi, talvez o processo fosse outro. Mas é impensável que passemos por um terremoto sem que haja danos e prédios destruídos.
Essa crise poderá até se mostrar vantajosa para o Brasil, na medida em que muito poucos ajustes no mercado interbancário serão necessários, Uma ou outra compra de carteiras de bancos menores pelos maiores, financiados pelo Banco Central e coisas do gênero. Não há previsibilidade de crise bancária nacional. Até em razão do maior banco ser estatal, apesar dos esforços frustrados do Sr Cardoso.
O Brasil é menos especulativo e mais produtivo. Asseguradas as linhas de crédito à produção e comercialização - ao que parece o governo continua apostando nisso - nosso lastro estará sólido.
E, no aforisma machadiano, ao vencedor, as batatas.
Basta que mantenhamos a capacidade de produzí-las.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Que bom que voltaste ao ar, eu estava aguardando com ansiede teus comentários. Eu sabia que viria algo interessante sobre esta crise.
Beijos,
Rita

7:57 PM  

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