quarta-feira, março 26, 2008

Indignação Oportunista

A bola da vez da indignação popular e dos políticos é o cartão corporativo.

A indignação popular é legítima, porque atinge seu bolso. É a população que paga por todos os erros e por todos os desatinos no uso dos recursos públicos.

Já a indignação dos políticos é fingida, com interesses menores. Afinal, este é um ano eleitoral e gostaria de ter conhecimento de um só político que fosse que nunca tivesse, ao menos, pactuado com caixas 2, 3 ou 4.

Para a imprensa, que dispensa pesquisa de opinião para saber que o que vende jornal e revista ou é tragédia, ou escândalo, ou sacanagem, todos a despertar os mais recônditos meandros do imaginário popular, fomentar qualquer um desses fatores é questão de sobrevivência.

Infelizmente, esses elementos compõem um círculo vicioso. Políticos alimentam a imprensa com fatos reais ou não, desde que tenham potencial escandaloso. A imprensa amplia, omite, edita, extrai o que lhe interessa, julga sem contraditório, condena sem julgamento, alimenta a justa indignação popular com meias-verdades, o que é uma sacanagem.

A massa insuflada e parcialmente informada repercute sua revolta na classe política, que ganha novo alento para fingir mais indignação, que alimenta a imprensa etc.

Até o próximo escândalo, real ou não.

Nesse episódio, sou uma voz dissonante. Defendo o cartão corporativo. Defendo o portal da transparência, detalhando a aplicação do que pode ser detalhado e a omitindo as protegidas por lei. Defendo que estas últimas somente sejam acessíveis à CGU e à Comissão de Defesa do Congresso Nacional. E só.

Num país que prima pela hipocrisia de seus institutos legais, que faz concurso público para a contratação de espiões, que se acha defensor dos direitos humanos quando somente protege bandidos, que tem um tribunal constitucional de contas (de quem sou pessoalmente vítima de seu uso político e contra quem movo ação na justiça que se arrasta há mais de 5 anos) composto por indicações políticas de e para políticos, como um prêmio de final de carreira, querer o quê? A luz dos holofotes?

Não defendo o mau uso, o que certamente ocorreu. A CGU não poucas vezes recusou prestações de contas. Outras, deve ter passado batido.

Que se averigúe em ambiente sigiloso o que a lei regula dessa forma, estou completamente convencido. Que se apurem desvios, desmandos, roubos ou qualquer falcatrua, perfeito. Que se apontem os responsáveis, melhor ainda.

Mas nunca em ambiente público. Se a lei foi infringida, puna-se exemplarmente o responsável. Se a lei foi cumprida, mas o uso é questionável, mude-se a lei para não permitir tais válvulas de escape.

Todo o resto é puro jogo de cena, com foco na eleição deste ano e na de 2010.

Mas parem de abusar de nossa capacidade de indignação, que acabará sendo abandonada da mesma forma com que foram diversos valores da sociedade brasileira. Por exaustão.

O fato é que não se pode acreditar nas intenções dos políticos e da imprensa. Nem da opinião pública, quando insuflada por eles.

Infelizmente!

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