terça-feira, fevereiro 26, 2008

Capital-Motel

A cotação do dólar veio abaixo de R$ 1,70. A Bovespa superou o patamar de 65 mil pontos.
A inflação civilizou novamente sua taxa e as projeções sinalizam para o cumprimento de sua meta anual, bem como mantém-se a expectativa de crescimento do PIB e dos empregos formais
Isso tudo parece bom, mas será?
Em janeiro, o Brasil superou em reservas internacionais o montante de sua dívida externa, pública e privada. Esse fantasma, por vezes real, ou ideológico, ou demagógico, que inspirou tantos "Yankees, go Home" pichados em muros ou coreografados em palavras de ordem virou coisa do passado.
Porém, no mesmo janeiro foi registrado um déficit comercial superior a 4 bilhões de dólares, que pode ser atribuído ao descompasso cambial.
Oferta e procura é lei universal. No capitalismo, regula-se no preço; no socialismo, na disponibilidade de bens. Ou bem variam os preços, ou as quantidades ofertadas. São desequilíbrios do mesmo fenômeno.
Há uma superoferta de dólares. Nossas taxas de juros são administradas como ferramenta de combate à inflação, na contra-mão dos americanos, que promoveram recente redução para combate à recessão.
Abre-se, assim, uma brecha que fomenta o ingresso de capital especulativo no Brasil, país que tem adquirido cada vez mais confiança dos investidores.
O fluxo de moedas tem um paralelismo com a comida. Sua falta, mata de inanição. O excesso, de congestão. Sua má qualidade, de indigestão.
O Banco Central tem se valido dessa super-oferta também como arma de controle inflacionário. Mas isso tem que ter limite. O que torna absolutamente necessária uma regulamentação sobre o ingresso de divisas especulativas, do chamado capital-motel.
A permanecer livre como hoje está, estaremos desestabilizando todo o processo econômico, com reflexos inflacionários diretos. Pois os preços internos de commodities aumentarão em consonância com os preços internacionais e nosso setor exportador tem sua competitividade restringida.
Um exemplo é a soja. Tradicionalmente, o preço situava-se no entorno de US$ 12, o que estaria convertido hoje em cerca de R$ 20 a saca de 60 kg. O que se vê é que o preço aumentou no exterior em função da desvalorização do dólar e também no Brasil, pela supervalorização do Real. O Indicador Diário CEPEA / ESALQ / BM&F - Paranaguá registra, em 18/02, R$ 43.
A desvalorização do dólar frente ao Real exige que os preços internos sejam realinhados, pois há custos que são apurados em real, não em dólar. Se o fenômeno se restringisse somente à desvalorização da moeda - inflação americana- e nosso mercado de moedas estivesse estabilizado, o preço interno manter-se-ia no nível do mercado, acompanhando a inflação interna. Porém, nosso mercado está desestabilizado pelo fluxo de capitais especulativos, sem ordem, bandeira ou pátria. Sem restrições maiores.
E está nos ameaçando de indigestão.

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